A vizinhança e o avesso do ovo da serpente

Já não é de hoje que os muros das casas dobraram de altura e que os condomínios viraram sinônimo de segurança

Postado dia 13/07/2016 às 09:00 por Rick Ferreira

vizinhos

Foto: Reprodução/Internet

 Essa semana ajudei um amigo com a mudança. Ele, que provavelmente a essa hora ainda esteja “desempacotando o lar” no novo endereço, contou também com a força de outros tantos camaradas no carreto dos móveis, sofás, eletrodomésticos e demais “etceteras pesos pesados”.

Mas não é exatamente sobre a boa e velha camaradagem que quero falar, embora seja ela um daqueles ingredientes essenciais por vezes esquecidos na receita de sociedade que seguimos.

O que desejo compartilhar aqui é uma reflaxão que tive conversando com esse meu amigo após descarregarmos tudo. Reflexão essa que, no fim das contas, é verdade, acaba por “beber” dos vínculos gerados pelo espírito da fraternidade.

Terminado o carreto, sentamos na garagem da nova casa (mais espaçosa que a anterior) para tomarmos uma merecida cerveja gelada. Garagem aberta. Alguns vizinhos já dando as caras e cumprimentando o novo morador. Uma cachorra (“a zeladora da rua”, brinca meu amigo) caminha tranquila garagem adentro, olhando tudo como quem, realmente, inspeciona! Depois de emitido o “aprove-se”, ela deita de barriga para cima pedindo seu chamego de boas-vindas.

É nesse clima e cenário que meu compadre solta o comentário-estopim da tal reflexão, que aqui reproduzo nem de longe “ipsis verbis”. Disse mais ou menos assim: “ O que eu quero é esse portão aqui aberto, um dos sofás aqui fora, a galera conversando, vizinho chegando, entrando e saindo”.

Quando ouvi aquilo, na hora lembrei de uma entrevista que eu havia assistido na semana anterior com o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, em que ele chama os condomínios de “o ovo da serpente”, em se tratando de urbanismo. Então fiquei pensando em como aquilo que meu amigo dizia querer era precisamente o avesso “daquele ovo”. Ou seja, a inversão desse nosso mal moderno de “desalmar” as habitações, com o foco faminto no mercado imobiliário, na especulação, no utilitarismo opressivo das “caixas de acomodar gente”, ora disfarçadas de espaços funcionais, seguros e cômodos.

Claro, é preciso combater o déficit habitacional. A população cresce, as áreas disponíveis se reduzem… Enfim, questão matemática, dirão alguns. Contudo, se maximizar a concentração se faz mesmo necessário (e ela vem crescendo sem perder fôlego), porque é que então a convivência e o espírito comunitário não inflacionam na mesma medida? Seria, ao menos, imagino, uma compensação positiva e justa pelo ônus desse nosso fenômeno moderno. Mas não é bem isso que se percebe, e quem vive ou já visitou um condomínio fechado sabe bem do que estou falando.

Já não é de hoje que os muros das casas dobraram de altura e que os condomínios viraram sinônimo de segurança (quando analisamos sua eficácia do ponto de vista estritamente psicológico, a proteção é mesmo inegável e infalível!).

Entretanto, estou convencido de que o único benefício certo e garantido (mesmo mesmo!) num espaço em que se concentra tanta gente seria a troca de experiências e vivências, o que infelizmente é prática incomum. E digo “certo e garantido” porque, em tese, isso não dependeria de nada além da própria vontade dos moradores. Já quanto a relativa segurança… Bem, há muitos fatores envolvidos e menos certezas do que seria de bom tom para um corretor sustentar.

Quanto às mal faladas e malfadadas reuniões de condomínio, se assim o são é porque existem, essencialmente, em função dos problemas. “Reunião é pra resolver pepino”, manda o senso comum. Não fosse esse fetiche pelas divergências, esses encontros poderiam ser uma boa oportunidade de fortalecimento de laços comunitários -como ocorre aqui e ali em algumas associações de bairro -, muito além das naturais demandas e necessárias resoluções de conflitos.

Pra completar, a sensação constante de insegurança, desconfiança, e a decantada “falta de tempo” (real ou fabricada pela negligência quanto ao que é realmente importante na vida!) só aprofundam esse abismo.

Essa oportunidade de mobilização, que é um potencial latente nas reuniões de condomínio, não está “ali de mão beijada” para quem vive numa rua qualquer de um bairro qualquer. Muito ao contrário, a priori ela exige iniciativa isolada, boa vontade, paciência e repetidas “trocas de xícaras de açucar” entre vizinhos… Ou portões de garagem abertos! Como deseja aquele meu amigo agora recém instalado em novo endereço.

Desejo sucesso a esse camarada em sua missão bonita de cultivar novas e boas relações com seus vizinhos, o que hoje em dia é raridade entre os tópicos importantes no processo de ocupação de um imóvel. Nos limites permitidos pela segurança do local, não duvido que eu ainda encontrarei aquele portão aberto muitas e muitas vezes.

Para terminar, deixo aqui uma frase do “arquiteto-cidadão”, Paulo Mendes, e que considero uma pedra de toque para avaliarmos a qualidade de nossa convivência urbana: “Uma cidade nasce do desejo dos homens estarem juntos”. Pra se pensar…

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Rick Ferreira

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