A vitória do discurso e a derrota da prática

O início de uma análise dos editais públicos para cultura em meio a uma classe que desistiu da excelência e passou a buscar a sobrevivência

Postado dia 04/08/2016 às 07:30 por Cidão Fernandes

artistas

Foto: Reprodução/Internet

A realidade só é construída com ações práticas. Claro que os teóricos são importantes, mas até mesmo eles percebem que é necessária a criação de práticas que confirmem ou desmintam – ou ao menos colaborem de alguma forma com aquilo que percebem da sociedade.

Falo isso em meio a um ponto bem interessante nas políticas para cultura ultimamente. O Ministério Público está investigando os editais do Governo do Estado de São Paulo para a cultura, o famoso Programa de Ação Cultural, vulgarmente conhecido como PROAC. Ainda não soube o que exatamente estão investigando. Mas cada vez está mais claro que esse programa, que nasce como um forte apoio a projetos das mais variadas vertentes culturais do Estado, passa por problemas em seus contemplados nos editais públicos.

Todo ano, o grupo ao qual eu faço parte concorre. Infelizmente fomos contemplados apenas uma vez e, investigando a grosso modo os grupos e artistas que têm essa oportunidade, fomos percebendo discrepâncias entre aquilo que a lei sugere e o que é feito na prática.

E aí, olhando ali, clicando num Google aqui, comparando bancas e grupos contemplados acolá, percebemos que há algo de podre nesse reino lindo que os editais prometem aos artistas. Percebemos muitas coisas.

Vou me atentar nesse texto ao conceito primeiro, a meu ver: está em voga, cada vez mais forte, o “parecer” ser um grupo incrível, que é de luta, resistência e blás blás blás, ao invés do realmente “ser”. Cada vez mais o incômodo em mostrar as contradições que só aparecem na prática está escondido sob um discurso confuso – proposital – que visa mostrar o quanto “a minha arte é fundamental” e onde o discurso rasteiro ganha forma para que tudo pareça ético.

Infelizmente, quando o discurso é mais forte que a prática, percebemos um desvio ético proposital, que não pode ganhar mais espaço entre a classe artística. O dinheiro é importante. Devemos lutar é contra esse discurso ralo – e por vezes desnecessário – onde nada mais está a frente a não ser passar no PROAC a todo custo.

Nos textos seguintes, esmiuçarei esses itens onde possamos aqui, juntos avançar nesse pensamento tão complexo que é um edital público para cultura em meio a uma classe que desistiu da excelência e passou a buscar a sobrevivência como se o Estado fosse obrigado a sustentar seu discurso meia pataca.

#:
Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Cidão Fernandes

Ator, diretor teatral e produtor artístico. Diretor Geral do Teatro da Neura, grupo com 11 anos de trabalhos sediado em Suzano. Militante cultural e curioso.

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter