Vinho Madeira e a “oxidação nobre”

Este é um caso diferente de bebida que, depois de aberta, pode até melhorar com o tempo

Postado dia 21/07/2016 às 08:30 por Sociedade Pública

justino

Foto: Reprodução/Internet

O vinho Madeira não tem o sucesso de mercado do vinho do Porto. Nem a ilha que lhe dá o nome é capaz de produzir como seu primo mais velho. Porém, como o Porto é muito apreciado no Brasil, se você, neófito, algum dia se deparar com uma garrafa de Madeira, pode investir. O preço é o mesmo, às vezes até custa menos, e o prazer é igual. E com um segredinho que vale a pena revelar: se você abre um vinho Madeira, não se preocupe com o “prazo de validade” dele depois de aberto. Sendo um fortificado altamente oxidativo, ele pode até melhorar com o tempo.

Não foi esta a primeira vez que provei os fortificados da Justino’s. Exatamente um ano atrás, tive a mesma oportunidade, no QG da importadora Casa Flora, mas só agora senti que poderia escrever a respeito. Até porque certos textos também são como vinhos, devem sair na hora que o autor acha que é certa. Uma das coisas que mais me havia intrigado na primeira vez foi o fato de Julio Fernandes, diretor comercial da vinícola, ter afirmado que, diferentemente do vinho do Porto, o Madeira não “morre” depois de um tempo aberto. Ao contrário, melhora. Fui pesquisar.

O Madeira é um vinho que é amigo da oxidação, um efeito natural – e indesejável – para qualquer vinho depois de aberto. É o contato com o ar que provoca a oxidação. No caso do Madeira, porém, a oxidação é uma meta. Como na maioria das vezes, essa descoberta se deu por acaso. Lá nos idos de antanho, esses fortificados eram guardados em cascos de madeira dentro dos navios. Na madeira, o vinho passa por um processo de micro-oxigenação, gerando uma gradual oxidação com o tempo. Os navegantes começaram a perceber que, nesse caso, quanto mais tempo se passava, melhor ficava seu gosto. Comerciantes perceberam ali o valor do negócio. Certos vinhos Madeira ganhavam valor conforme o tempo de viagem nos navios e a distância dos portos alcançados.

Claro, o que explica isso é o fato de a ilha da Madeira ser de clima tropical e muito úmida. Aparentemente inadequada para produção de vinhos, suas castas (tinta negra mole, boal, malvasia ou malmsey, sercial e verdelho são as principais) produzem um vinho com muita estrutura e acidez incomparável, características propícias para produção de fortificados. E, no caso do Madeira, favoráveis a uma, eu diria, “oxidação nobre”.

Como diz Julio, “o Madeira é um vinho de oxidação desde o início, desde quando colocamos nas pipas de carvalho. A oxidação só diminui na garrafa, e termina mesmo quando você bebe. Talvez nem quando você bebe ela termina!”, brinca.

Um Madeira não estraga nem mesmo depois de aberto. Diferentemente dos Porto, que podem ter uma vida de dois ou três meses depois de sacada a rolha, a oxidação só vai fazendo bem ao Madeira. E trata-se de um vinho tanto gastronômico, como bom acompanhante de charutos. E, claro, com exemplares perfeitos para a “meditação”. O Justino’s 3 Anos (R$ 77,10), denominação para o mais novo dos Madeira, é bem oxidado em sua versão “seco”, e chegou a me lembrar um Marsala secco. Além da oxidação evidente, tem muita acidez e um fina intenso e persistente. É um vinho que vai muito bem com um queijo macio, tipo camembert. Sua versão doce, o Justino’s 3 Anos doce (R$ 77,10), com coloração âmbar e notas de tostado no nariz, é perfeita para sobremesas cremosas como um mil folhas.

A degustação, realizada no Esch Café, em São Paulo, continuou e seguimos para o 10 Anos Tinto (R$ 216,05). Esse vinho já pertence aos Madeira mais nobres e invariavelmente são feitos por um método especial de vinificação e estágio, parecido com o que tinha em seus primórdios. Após a vinificação em cubas de aço e necessária alcoolização (álcool 96) , é distribuído em barricas de carvalho, que são acomodadas em “canteiros” – suportes colocados nas partes superiores dos armazéns, mas próximas do teto, onde vão receber todo o calor das telhas. A uma temperatura de ao menos 30 graus centígrados durante o dia, ele fica ali pelo tempo suficiente decidido pelo enólogo para a sua produção. Aqui, no caso, dez anos. Suas uvas são a Negra Mole, Tinta da Madeira, Complexa e Triunfo. A combinação das uvas, mais o tempo de estágio, dá a este vinho uma coloração âmbar, no nariz toques de melaço, caramelo e tostado. Na boca, tem um dulçor pronunciado e notas de café, além de uma acidez que não passa de mediana. É um vinho bastante complexo, e que vai bem com algumas frutas cítricas, como morango e abacaxi, sobremesas à base de café, como o tiramisu, chocolate amargo, entre outros. Mas, para mim, ele foi o escolhido da noite para acompanhar um charuto!

Fechamos a noite com o Colheita 95 (R$ 283,74), um vinho agora com mais de 20 anos e com uma complexidade a toda prova. É incrível como a oxidação se amolda à complexidade de suas uvas – basicamente Tinta Negra Mole e outras não definidas. É um vinho que apela ao olfato: notas de torrefação e oxidação misturadas a frutas secas, mas também um toque cítrico. Na boca, a minha maior surpresa: um vinho com muita acidez, não esperada por conta de sua idade e estágio (ele só pode ser engarrafado em 31 de outubro a partir do quinto ano desde sua colheita). É, obviamente, um vinho de “meditação”, que vai bem consigo mesmo, tamanha sua complexidade e os prazeres decorrentes dela.

 

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