Verdadeiro rouba, mas faz

O líder populista é maior do que o partido. Vargas era maior do que o PTB, Adhemar maior do que o PSP e Jânio maior do que o PTN. São hábeis em dizer aquilo que o povo quer ouvir. Esmeram-se em prometer tudo para atender ao imaginário popular

Postado dia 06/04/2016 às 08:00 por Heródoto Barbeiro

populista

Foto: Reprodução/Internet – O ex-presidente Getúlio Vargas

Getúlio Vargas já foi execrado e saudado pelos mesmos grupos políticos em momentos diferentes. Quando ditador foi acusado pelos comunistas dos piores crimes, como tortura e assassinatos nas prisões. Quando foi apeado do poder em 1945 pelos militares, foi apoiado pelos mesmos comunistas. Eles sustentavam o  queremismo. Ou seja, queremos Vargas com uma nova constituição. Qual o principal atributo de Vargas, haja vista que boa parte de seu governo havia flertado com o nazismo e o fascismo? O populismo. E os que almejavam o poder sabiam que cada vez que há aspirações populares não satisfeitas pela política tradicional, abre-se um espaço para o líder populista. Sabiam também que carisma não se transfere nem se herda. Portanto gostando ou não só tinha ele. Quando se escolhe o populista para governar não se está preocupado se ele é de esquerda ou de direita ou se o seu comportamento moral deve ser levado em conta. Outros populistas mostraram isso. Adhemar de Barros era o famoso rouba, mas faz. Jânio o pinguço que varria a corrupção. Vargas era o pai dos pobres e a mãe dos ricos. Mais recentemente o eleitor votou em um populista de direita no primeiro turno e em um populista esquerdista no segundo.

O líder populista é maior do que o partido. Vargas era maior do que o PTB, Adhemar maior do que o PSP e Jânio maior do que o PTN. Assim ele é avaliado pelos discursos tonitruantes que proferem, sem qualquer compromisso com um ideário ou programa político. São hábeis em dizer aquilo que o povo quer ouvir. Esmeram-se em prometer tudo para atender ao imaginário popular. Viram celebridades. Alguns querem tocar o ídolo, como se faz com as imagens de santos nas igrejas. O populista não perde uma cerimônia religiosa e sempre se apresenta contrito, como os beatos tanto gostam. Na história do Brasil há também os místicos como Antonio Conselheiro, Antonio Maria, Padim Cícero e outros. O messianismo também é uma característica do populismo. Este deixa órfãos como o nacionalismo econômico de Vargas, ainda que a organização capitalista do mundo tenha mudado muito. O estatismo é uma delas. Atende simultaneamente o desejo de manter sobre o controle do Estado as riquezas nacionais e abrir a oportunidade para o aparelhamento com a distribuição de cargos entre os acólitos políticos. Na história da república  brasileira houve uma alternância entre o populismo e o clientelismo, ou seja, a política baseada na troca de favores e cargos.  O clientelismo deu  lugar ao populismo com o movimento de 1930. Desde então, até os dias atuais há um amalgama entre eles.  Uma constatação óbvia é que o eleitorado não vota em partidos, em programas, ou matizes ideológicos, mas em estereótipos.

O político populista julga-se acima do bem e do mal. A lei que se aplica aos homens não se aplica a ele. Não pede para ser reconhecido como líder, o apoio popular é um atestado de sua liderança.  Quando morre, no imaginário popular, vai para o paraíso e um dia vai voltar para implantar um reino de felicidade que vai durar mil anos. É o milenarismo que, no Brasil, tem origem no mito do sebastianismo. Pessoas ligadas a eles também são entronizadas como sagradas, como as esposas responsáveis pela distribuição de presentes no Natal, doces no dia das crianças ou ter o seu nome em uma maternidade pública. O seu marketing é constituído também por um bordão característico como Trabalhadores do Brasil, Povo Brasileiro… O populismo decorre da desigualdade entre o governante  e os governados, do confronto dos atributos próprio do poder  com esperanças e carências do povo, diz o professor José de Souza Martins.

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Sobre o Autor

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Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro, escritor e jornalista, âncora do Jornal da Record News e editor do Blog do Barbeiro. Foi âncora do Roda Viva da TV Cultura e do Jornal da CBN. Tem livros nas áreas de jornalismo, história, mundo corporativo e budismo.

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