A vanguarda do atraso à espreita

A radicalização poderá vir à direita ou à esquerda; país poderá sofrer com o retrocesso na economia ou nos direitos individuais

Postado dia 28/03/2016 às 14:27 por Janaína Leite

Foto: Reprodução/Internet

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Apertem os cintos. O piloto sumiu, o orçamento também, os atores são de quinta e o filme não terá a menor graça ao longo dos próximos anos. Parece exagero? Oxalá seja. Mas o que se desenha no horizonte, aparentemente, é um período de radicalização que poderá resultar em um retrocessos de diferentes ordens.

A princípio, o Brasil conta com três possibilidades de cenário. O primeiro é o impeachment via Congresso Nacional. O segundo é a continuidade do mandato de Dilma Rousseff. O terceiro é a realização de eleições gerais imediatas.

Na primeira hipótese, a radicalização virá da esquerda, sob a alegação de que são espúrios os motivos da derrubada de Dilma. Haverá a tentativa de pintar um fosso ainda mais profundo entre a elite e o povo. Movimentos sociais subirão a temperatura das ruas, com o MST (Sem-Terra) e o MTST (Sem-Teto) à frente. Greves deverão pipocar com a volta da CUT ao protagonismo do qual abriu mão ao tornar-se governista.

O segundo quadro, com Dilma no poder, criará insatisfação entre as milhões de pessoas que fazem oposição ostensiva ao PT. A permanência do partido no Planalto empurrará muita gente para os braços da direita extremista. A falta de confiança nas regras e no sistema, combinada com a sensação de impunidade generalizada, fomentará um discurso de repressão, violência, justiçamento e encerramento de diálogo.

Um nó górdio. Se a esquerda fica, o risco é de retrocesso no campo econômico, uma vez que os esquerdistas brasileiros precisarão fazer boa figura imediatamente. Além disso, recusam-se sistematicamente a entender a complexidade das relações de troca no século XXI. Estão atados a modelos paternalistas, rudimentares e ineficientes. Seus mentores nacionais são obsoletos, quando não desonestos intelectualmente.

Já a ascensão da direita é um risco considerável para os direitos individuais. O endeusamento de um governo autoritário e policialesco poderá levar ao engrossamento de fileiras nas bancadas religiosas e ruralista — ameaças, respectivamente, ao Estado laico e à preservação do meio-ambiente.

A solução seria a convocação de eleições gerais? Muito provavelmente não. A chamada para tais eleições não está prevista em lei. Apesar de garantir uma troca geral no Congresso e no Executivo e talvez possibilitar que um candidato à presidência fosse eleito a partir de uma agenda de reformas clara, tal atalho seria passível de uma contestação jurídica e política sem fim.

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O Brasil não teve até hoje um governo genuinamente de esquerda. Lula e Dilma apostaram no capitalismo de compadrio, com dinheiro público sendo emprestado a juros companheiros para empresários aliados. A expansão dos programas sociais foram possíveis por causa da bonança internacional e da herança bendita que lhes foi entregue.

Se Dilma ficar, só lhe restará agradar a militância que sobrou e os eleitores de baixa renda, que estão decepcionados com a presidente. Ela terá de governar segundo o que prometeu em 2014: reabrir as portas do paraíso do consumo, abrindo a torneira do crédito a qualquer custo e tentando impulsionar a retomada do emprego com intervenções pesadas na economia. Fará isso queimando reservas e aumentando a dívida pública, cuja trajetória já é uma catástrofe.

São medidas insustentáveis no médio prazo — mas no médio prazo o mandato dela terá acabado e o Brasil que se vire com o prejuízo mais adiante. Talvez parte de sua base eleitoral possa ser recomposta até lá e o PT não leve a surra que todas as pesquisas indicam até aqui. Vale observar que a oposição no Congresso será praticamente insuportável, o que permitirá à presidente culpar o Legislativo por tudo que aconteça de ruim.

Se Dilma sair a partir de um impeachment, o PMDB terá de costurar acordos para tentar colocar a economia nos trilhos. O problema é que o desvio de rota foi tão grande que boa parte das medidas impopulares serão apenas paliativas. E ninguém sabe quanto tempo o vice Michel Temer teria à frente do cargo, uma vez que seu nome também abrilhantou a Lava Jato.  Como votar reformas significativas tendo no comando um governo sem a legitimidade das urnas? A princípio, a resposta parece apenas uma: a atração de investimentos internacionais. Parece que os estrangeiros terão um papel importante no que vem por aí.

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Amanhã é um dia mais do que importante. Enquanto o PMDB tornará público seu desembarque do governo, o Ministério Público Federal irá ao Congresso entregar a assinatura das medidas anti-corrupção.

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Em 2004, a sucursal de Brasília do Jornal do Brasil publicou uma matéria contando que os parlamentares recebiam uma mesada, chamada “mensalão”, para votarem com o governo. Quem contou aos jornalistas era um deputado da base governista, recém-saído do Ministério das Comunicações. A conversa não fora gravada. O parlamentar desmentiu.  As críticas sobre o JB foram grandes. Um ano depois, a Folha de S.Paulo entrevistaria Roberto Jefferson. Ele bancaria a informação. O escândalo, que incriminou dezenas, veio à tona.

Nem sempre as matérias são confiáveis. Nem os desmentidos.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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