Vamos falar sobre a imparcialidade midiática no Brasil

A mídia mostra de forma irrevogável qual o lado escolheu para defender e propagar ideias

Postado dia 17/08/2016 às 09:00 por Pedro Henrique

midia

Foto: Reprodução/Internet

Me recordo de minha avó dizendo: “Nunca acredite em quem afirma ser santo”. Isso é quase um mantra em minha vida. Sempre desconfio premeditadamente de quem se afirma bom, sincero e humilde, entre outras coisas. Posteriormente, eu cresci, e advinha com o que eu resolvi lidar em minha vida? Resolvi mexer com essa perigosa área de estudos chamada filosofia. Fiz isso somente para entender e desvendar, com críticas e investigações filosóficas, aqueles que se dizem ser o que não são ou espalham ideias sem pé na realidade. Obviamente, neste campo que escolhi, corro o risco de acabar caindo naquele pantanoso e movediço território dos que afirmam ser o que não são. Todavia, foi um risco assumido quando resolvi ser alguém no mundo além de mero espectador. Peço a Deus todos os dias que afaste de mim esse cálice do ego.

Esse mea culpa possui o intento de adentrarmos ao tema do artigo — divagar em meus pensamentos é algo no qual me especializei com maestria. O lugar onde a autoafirmação mentirosa se faz mais gritante no Brasil, em minha opinião, é na grande mídia. Vira e mexe podemos ouvir aquele jargão já desgastado pela realidade: imparcialidade midiática. Esse jargão tornou-se tão vazio que temo que as próximas gerações nem saberão seu real significado a não ser como uma abstração política qualquer, como a ideia de comunismo ou a teoria de gênero.

Nesta semana, fomos brindados com uma demonstração de parcialidade midiática tão incontestável que eu precisei ir às fontes mais de uma vez para verificar se não passava de alguma montagem maldosa. O G1, portal de notícias que é parte do grupo GLOBO, que, por si só, já nos desperta desconfiança quanto a dita “imparcialidade midiática”, veiculou duas notícias, em menos de uma semana. Essas notícias expuseram o portal ao ridículo frente à sua pretensa imparcialidade mentirosa. E, ao mesmo tempo, confirmou todas as críticas liberais e conservadoras quanto ao seus conteúdos ideológicos e suas tendências a propagar lobbys defendidos pela esquerda. E veja, não me refiro a nenhuma coluna de algum crítico social, refiro-me às notícias de fatos.

Na primeira notícia lemos o pedido de casamento feito por Marjorie Enya, gerente de serviço da equipe feminina de rugby do Brasil, à jogadora Izzy[1] na frente das câmeras e dos olhares mundiais. Tal notícia foi virilizada em toda internet com ares heróicos e revolucionários. Sinceramente, não possuo nada contra a união dessas mulheres. Possuo minhas convicções morais sobre muitas coisas, inclusive sobre esse fato, mas são MINHAS convicções morais. Sendo assim, respeito as escolhas delas como parte do contrato civil de liberdade individuais que assinei ao adentrar nesta sociedade de direito.

Duas pessoas livres em um país que garante as liberdades individuais para que cada um proceda com suas vidas como escolherem; apesar de não acatar acontecimento como algo a ser glorificado, respeito enquanto seja uma escolha pessoal de ambas, conquanto não interfira em minhas convicções e liberdades pessoais e familiares.

Entretanto, o discutido aqui não seria nem mesmo a questão moral e sócio-civil da união delas, mas sim a forma que, poucos dias depois, seria noticiado mais um pedido de casamento, nas mesmas condições esportivas que a anterior, isto é, em meio às disputas olímpicas. Qin Kai, atleta chinês, pediu a sua namorada, He Zi (com qual namora há mais de seis anos), em casamento na frente de todos os olhares dos telespectadores mundias e do público local[2]. Seria mais uma bela história romântica, certo? Não. Não, pois, segundo a opinião propagada pela BBC e o G1, tal ato foi uma “pressão masculina”. O que mais espanta em tal situação é a parcialidade e a forçosa mentira que tentam impor a todo custo em troca de um discurso ideologizado.

Comparemos as duas chamadas das notícias: “Elas se amam! Brasileira do rugby é pedida em casamento no gramado” (primeiro caso); “Pedido de casamento de atleta chinesa: romantismo ou pressão masculina?” (segundo caso).

Além de serem claras e tendenciosas as chamadas, torna-se mais claro ainda quando lemos a matéria do pedido de casamento do casal chinês e vemos que a BBC resolveu dar ênfase às vozes tão claramente entupidas de opiniões ideológicas que tais opiniões se tornam verdadeiras piadas. Vejamos o que a escritora indiana, Sunny Singh, diz na referida matéria sobre o pedido de casamento de Qin Kai: “Um movimento peniano, que definitivamente não é romântico”. Não feliz, ela nos brinda novamente: “É um mecanismo de controle, uma maneira de dizer ‘você pode ter acabado de ganhar uma medalha olímpica, ou ser uma CEO ou ter projetado uma nave espacial, mas realmente a coisa mais importante é que você é minha mulher’”.

Diz a matéria que o ato de Qin foi coercitivo, pois o pedido foi feito na frente dos olhos do mundo todo que acompanhavam os Jogos Olímpicos, o que provavelmente fez a namorada se sentir pressionada e aceitar. Todavia, no caso análogo do pedido de casamento lésbico, que foi realizado sob exatamente os mesmos holofotes, segundo a mídia brasileira este não foi coerção ou pressão, foi tão somente amor. Só faltou declararem guerra aos héteros. Entenderam a imparcialidade, amiguinhos?

Olha, sinceramente, eu não sei como levar a sério tal opinião. Se trata de uma insanidade de grau tão absurdo que, a qualquer crítica que se faça, corre-se o risco de descermos ao nível abissal dessas considerações feministas. Não obstante todo o ar imparcial que se tenta dar à matéria, o que não passa de um modo de propagar tais ideias feministas sem “dar na cara”, a BBC acaba se rebaixando junto. É como dar ressonância as birras infantis e aos balbuciares de loucos.

A mídia mostra de forma irrevogável qual o lado escolheu para defender e propagar ideias. Abstendo-se totalmente da imparcialidade que outrora foi gritada como virtude jornalística. No fim do artigo é trazida uma outra opinião que vai a favor do casal chinês. Todavia, o ambiente que o artigo mostra é claramente tendencioso à opinião da escritora feminista. Façamos duas breves análises: primeiramente, colocar a opinião contraria no fim do artigo não o torna imparcial, o torna bobo. Pois, é tão óbvio que não há pressão masculina ou qualquer conspiração nesse fato, que ter que afirmá-lo num artigo da BBC torna-se uma laracha de besteirol.

Neste sentido, não vai demorar muito para que a BBC faça longas matérias mostrando, “imparcialmente” é claro, os argumentos de um louco qualquer que afirma ser Rei do Brasil. Ao passo que, no fim desse artigo, mostrarão a “opinião” de um historiador dizendo que, possivelmente, o louco esteja errado, pois, segundo os dados históricos, que pode não ser fonte lá muito segura já que dirá o historiador, não existe mais império no Brasil desde 1888.

A tentativa de mascarar em facetas a nula imparcialidade midiática é tão risível quanto a própria opinião expressa na matéria. Mas, sejamos justos, a BBC é uma das poucas mídias que ainda tentam preservar o mínimo deste gasto princípio de imparcialidade no jornalismo. Entretanto, devemos afirmar: foi uma infelicidade do tamanho da mesma BBC veicular tal matéria. Agora, o G1 ter partilhado o texto em seu site, já era algo esperado. A Globo, que comprou o lobby da teoria de gênero como se fosse a mais alta descoberta científica no campo sexual, não poderia deixar escapar tão grande consideração da intelectual e escritora Sunny Singh.

Enfim, creio que mostrei de forma ininterrupta porque digo que sou mestre em divagar em meus pensamentos. A extensão deste artigo é desnecessária, talvez. Bastava comparar os títulos da referida matéria para saber para qual lado a mídia nacional tende. E há outros inúmeros exemplos em outras mídias também, não tenha dúvida. Talvez tudo isso nos mostre que está mais do que na hora de apostarmos naquelas mídias que fazem oposição, pois, se a imparcialidade é impossível nesse país, sejamos sensatos ao menos para conhecer os argumentos de ambos os lados para não ser sermos ludibriados ou doutrinados.

Referências:
[1]http://globoesporte.globo.com/olimpiadas/rugby/noticia/2016/08/elas-se-amam-brasileira-do-rugby-e-pedida-em-casamento-no-gramado.html
[2]http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/olimpiadas/rio2016/noticia/2016/08/pedido-de-casamento-de-atleta-chinesa-romantismo-ou-pressao-masculina.html

 

#:
Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter