Valter Estevão

Psicólogo e presidente da ONG Jabuti, ele atente centenas de crianças e adolescentes carentes. "Costumo dizer que tenho mais de 450 filhos", afirma

Postado dia 11/08/2016 às 23:36 por Sociedade Pública

Valter

Foto: Valter Estevão com a equipe do Prema: Foto por Rafael Pedrosa

Valter Estevão é psicologo e presidente da ONG Jabuti em Mogi das Cruzes, onde ele oferece cuidados e educação para centenas de crianças e adolescentes. Nessa entrevista especial para o dia dos pais, ele conta à Sociedade Pública um pouco de sua história, e fala sobre família e paternidade!

##SP: Valter, faça sua apresentação para nossos leitores.

Meu nome é Valter Estevão Eitler. Nasci no Rio de Janeiro em 1949, atualmente estou com 67 anos e moro na cidade de Mogi das Cruzes. Sou filho de pai um austríaco chamado Esteban Eitler e minha mãe Ilse Eitler, era alemã. E tenho três irmãos. Em um primeiro momento da minha vida estudei engenharia, porém, após estudei psicologia. Hoje atuo como psicólogo e também estou me dedicando ao meu trabalho voluntário, que é o de cuidar de crianças e adolescentes. Sou responsável pela ONG Jabuti por acreditar que precisamos de uma sociedade mais justa. Tenho buscado fazer minha parte nesses últimos 20 anos.

##SP: Como você acredita que seja uma sociedade justa?

Uma sociedade justa é aquela em que todos possam relacionar-se verdadeiramente como irmãos. Muitas vezes vemos nas religiões as pessoas se tratando como irmãos, mas na realidade não se comportam como tal. É o caso, por exemplo, de alguém que tem muito e não se importa de o outro ter pouco. Uma sociedade justa também é aquela que se preza pela liberdade de expressão. A sociedade hoje não está acostumada com a liberdade de expressão. A sociedade brasileira ainda é escravocrata, tem quem manda e quem pode obedece. As pessoas ainda precisam conhecer melhor seus direitos, e se expressarem e viverem com mais liberdade.

##SP: Qual a trajetória da ONG Jabuti?

capa2Quando eu tinha uns 40 anos parti para trabalho voluntário. Não conseguia mais viver conformado com a pobreza, sendo eu um homem com privilégios por ser da classe média. Tinha início  em mim um sentimento de querer ajudar as pessoas participando de trabalhos sociais. Eu morava em São Paulo e então iniciei um trabalho em Taboão da Serra, em um orfanato chamado “Asas Brancas”, onde fique por 7 anos. Depois trabalhei no “Nosso Lar”, que cuidava de crianças com síndromes diversas. Algum tempo depois, resolvi mudar para Mogi das Cruzes, onde procurei trabalho voluntário, e foi quando apareceu a oportunidade de trabalhar com o Padre Atílio,  em seu projeto chamado Amor Misericordioso. Nesse local eu não trabalhava diretamente com as crianças, e sim auxiliando monitores e professores. Nesse período minha filha caçula Gabriela nasceu e tive que interromper minhas atividades. Posteriormente, querendo voltar às atividades sociais, iniciei conversações com 6 pessoas que conhecia de trabalhos voluntários anteriores, para começar a idealizar a ONG Jabuti, um projeto que fosse íntegro e exemplar. Um dos valores do Jabuti é a liberdade de expressão: todos os participantes possuem voz ativa perante a diretoria.

##SP: Quantas crianças a ONG atende atualmente?

Hoje são 450 jovens cuidados pela Jabuti. Começamos no bairro do Mogi Moderno, com uma escolinha infantil com 50 crianças, que é uma casa alugada que existe até hoje. No ano seguinte, alguns meses depois, abrimos um espaço aqui em Jundiapeba, para 120 crianças, chamado PREMA, que é dedicado a crianças e adolescentes – atualmente, as idades vão de 6 a 17 anos. Depois, tendo sido escolhidos pela prefeitura para administrar uma das unidades novas destinada a escolas infantis, tivemos um aumento na escola, no Mogi Moderno, passando a atender algo em torno de 160 crianças. Mais tarde apareceu a oportunidade de uma nova unidade em Jundiapeba, de uma nova escola, e chegamos ao total atual de 450 crianças atendidas. Atualmente não pretendemos aumentar o número de alunos, mas sim, melhorar cada vez mais a qualidade dos serviços que lhes oferecemos.

##SP: Qual a diferença entre o PREMA e as escolas?

Foto: Valter ao lado de Nivaldo, um dos responsáveis por cuidar dos jovens do Prema

Foto: Valter ao lado de Nivaldo, um dos responsáveis por cuidar dos jovens do Prema

O PREMA está vinculado à Secretaria da Ação Social e as escolas estão vinculadas à Secretaria da Educação. As escolas recebem subvenção do município através da secretaria da educação. O PREMA é um trabalho social, denominado “Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos”, que é realizado em horário complementar ao horário escolar. Busca melhorar as condições de socialização de crianças e adolescentes, aumentando seu repertório cultural através de oficinas várias, como música, informática, tae kown do, capoeira, horta, meio ambiente, informática, etc. Tentamos expandir o universo destes jovens, buscando mitigar as limitações que sofrem pela exclusão social a que estão submetidos.

##SP: Como é o acompanhamento dessas crianças ao longo do tempo?

Analisando o comportamento delas no dia-a-dia. Elas tornam-se mais desinibidas e participativas e notamos que passam a serem mais críticas. Nosso objetivo é formar um cidadão que não abaixe a cabeça para tudo e que tenha uma atuação verdadeiramente cidadã. Muita coisa que plantamos hoje só vai apresentar resultados a longo prazo. Mas notamos que eles ficam mais fraternos e brigando menos entre si. Procuramos também fazer com que eles se relacionem melhor com a família, pois muitas vezes eles vivem em condições onde as brigas são constantes. Na medida do possível procuramos também trabalhar a família para que eles possam ser mais tolerantes com o comportamento dos filhos, envolvendo o relacionamento do jovem com a mãe, pai e irmãos.

##SP: Como você vê sua relação com as crianças e adolescentes que a ONG Jabuti cuida?

Todo meu trabalho nessa área é voluntário. Se cada um se desse conta da importância de realizar trabalhos voluntários poderíamos ter uma sociedade mais justa. Isso não deve ser papel só do governo, pois os seres humanos devem ser mais fraternos, olhando para os outros como irmãos. Costumo dizer que tenho mais de 450 filhos. Entendo que cada uma dessas crianças e adolescentes que cuidamos é um filho, e procuro tratá-los como se fossem meus filhos. Muitas pessoas vêem os laços familiares ligados a um sentimento de posse, e naturalmente querem sempre o melhor para seus filhos. Mas e o filho do outro, que está na rua sozinho e sem nada? Poder participar do cuidar dessas crianças, dentro do papel que me é reservado no Jabuti, é o que, em última instância, me move.

##SP Desses jovens cuidados pela ONG, quantos deles não tem contato com o pai?

A maioria dos jovens que estão na ONG não possui contato com o pai, ou, quando o possui, muitas vezes o pai é ausente. Infelizmente a maioria desses homens deixam para as mães a responsabilidade de criar os filhos.

Foto: Valter com a equipe de profissionais do Prema

Foto: Valter com a equipe de profissionais do Prema

##SP: Vem chegando o dia dos pais. Seu trabalho com tantos jovens demonstra uma atitude bem paternal. Qual foi a importância de seu pai em sua vida e educação?

Perdi meu pai muito cedo, eu tinha 11 anos, mas ele foi fundamental para mim. Foi um grande exemplo de integridade. Era uma pessoa feliz e respeitava os filhos. Foi um grande e bom exemplo. Quando você se inicia na paternidade, é sempre um reflexo do pai que teve, claro que sempre buscando melhorar. Acredito ter levado adiante os ensinos que tive com ele. Hoje tenho três filhos, Stefan, Débora e a caçula Gabriela, e acredito ter sido um bom pai graças às boas sementes que foram plantadas em mim. Meu pai era músico. Talvez por isso ele fosse tão feliz, pois vivia fazendo o que gostava. Era compositor e regente. Ele viajava dentro daquilo que ele amava, que era a música. E isso ele me passou também, pois ele me levava nos ensaios da orquestra e eu ficava na plateia sozinho vendo enquanto ele tocava. Isso até hoje é algo bem forte em mim. A música é fundamental para o desenvolvimento humano, e é uma pena que  até hoje não esteja presente na maior parte das escolas.

##SP: O que é um bom pai?

Um bom pai pra mim é aquele que, antes de tudo, respeita seu filho e o trata amorosamente, inclusive compreendendo as condições que atravessa de acordo com a sua idade. Respeitar o filho é entender em que fase da vida ele está, que recursos tem, e interagir com ele dentro desses recursos, entendendo seus erros, tropeços, limitações… Saber que filho é esse, ou seja, a que ele veio. Acredito que meu pai fez isso comigo, soube quem veio a ele.

##SP: E qual a melhor forma de reconhecer a identidade do filho?

Uma criança sempre possui dons ou vocações. Por isso é importante que o pai acompanhe seu filho e o ajude a desenvolver-se dentro do que ele escolhe e sente-se bem fazendo. O pai não deve impor o que é melhor para seu filho, ou querer que ele siga os seus passos e tenha a mesma profissão. Não devo criar um filho para ser bem sucedido dentro do que eu entendo que é sucesso. Ele tem que ser o que veio ser, o que sua alma busca, e que seu interior quer. É preciso então preparar o filho para o mundo, dando a ele sustentação, segurança e presença, para que desde cedo a criança aprenda a ter autoconfiança e firmeza nas suas atitudes, sendo mais ousada e perdendo o medo das coisas. A  presença paterna é fundamental para o desenvolvimento destes atributos, e o pai deve ser um bom amigo sempre presente na vida do filho, pelo resto de sua existência.

##SP: Qual foi a maior herança que seu pai lhe deixou?

A imagem de que ele foi um homem realizador, que fazia tudo com muito amor.  Meu pai faleceu quando eu era muito novo. Como normalmente acontece a uma criança nessa idade, via meu pai ainda como um grande heroi. Como ele se afasta nesse período, creio que ainda hoje carrego uma imagem, ou uma presença interna  bem forte. É comum que, ao chegar na adolescência, o jovem passe pela desmistificação do pai, passando a vê-lo de outra forma, mais humano, com defeitos e limitações. Mas é claro que, quando ele se se vai prematuramente, como no meu caso, há uma idealização remanescente.

##SP: O que mudou na sua vida quando chegaram seus filhos e netos?

valterEu acho que a paternidade e a maternidade nos torna menos egoístas. Você tem que passar do cuidar só de você para o cuidar do outro. Passa, de uma hora a outra, a ter que cuidar de um ser muito frágil, sobre o qual você é e passa a sentir-se totalmente responsável. Você abdica das vontades próprias para cuidar do filho. No caso da mulher, este processo já tem início durante a gestação, de forma que, quando o filho nasce, ela já seja outra pessoa. Com o pai é diferente, pois não passa por um processo biológico, então a mudança é mais lenta. Aos poucos o pai vai se ligando à criança e se tornando menos egoísta, conectando-se com o amor que o filho impõe. A gente revive todas as nossas experiências de filhos em nossa paternidade. Eu olho para meu filho mais velho e acho que ele é um pai melhor que eu fui, mais afetuoso e mais próximo. Acredito que, na maioria dos casos, houve uma evolução! A educação era mais rígida antigamente, e eu vim rompendo certas crenças paternais. Vejo que meu filho avançou neste aspecto, e, provavelmente, meu neto tenda a ser melhor ainda.

##SP: Como você vê um bom modo para a construção para uma relação pais e filhos mais saudável?

Em minha percepção, é bem mais simples do que parece. O pai deve ser sempre íntegro com o filho, respeitoso e verdadeiro. Tratá-lo desde pequeno como estivesse tratando com um amigo adulto. É muito difícil que o filho se volte contra um pai que o trata bem. Conflitos familiares acontecem onde a criança cresce percebendo desvios de conduta de seus pais, no sentido de pais que não são verdadeiros, que não os respeitam, que são ambíguos em sua fala, etc. Em ambientes onde a criança não recebe bons exemplos, há reflexos dessas atitudes no futuro. Acredito que, quanto mais amor o ser humano recebe, mais ele pode dar no futuro. O amor resume tudo e encerra todos os desdobramentos do que possa ser dito a respeito. A primeira filha do amor é a verdade, e um pai amoroso, será em consequência um pai verdadeiro, e, um bom pai!

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