Uma multidão de autores

É impossível determinar a autoria exata dos livros da Bíblia. Mas não há dúvidas: foram muitos escritores e editores, que se seguiram ao longo de vários séculos

Postado dia 28/10/2015 às 11:42 por Tiago Cordeiro

isaiah

Quem escreveu a Bíblia? Esta é uma pergunta sem resposta. Para nossa mentalidade contemporânea, ela parece óbvia: afinal, se existe um texto, alguém o escreveu, e investigações rigorosas podem identificar esta pessoa. Mas, para os hebreus que lutavam para sobreviver e para conquistar a terra que consideravam prometida para si, nem mesmo faria sentido pensar num autor. Para eles, o texto era uma maneira importante de formalizar uma realidade muito maior do que qualquer ser carnal. Nenhuma pessoa, sozinha, seria capaz de narrar a história de Deus e de suas criaturas.

Mesmo que esta pessoa fosse muito especial. Um profeta, por exemplo. A tradição judaica credita os cinco primeiros livros a Moisés – são eles Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Do ponto de vista dos arqueólogos e historiadores, não está comprovado nem sequer que Moisés existiu; mesmo que tenha sido uma pessoa de carne e osso, os livros que ele teria escrito são muito posteriores. Agora, por mais poderoso que seja, Moisés não iria além de cinco livros: uma única pessoa não seria capaz de escrever todos os livros que formam o que os gregos chamavam de “ta biblia ta hagia”. A expressão significa “os livros sagrados”, no plural, uma maneira mais precisa de se referir à obra que hoje nos parece uma só.

Hoje está bem claro que a vasta enciclopédia que forma a Tanach, ou Antigo Testamento, é resultado de escritos e reescritos de lideranças hebreias ao longo dos séculos 10 a.C. a 3 a.C. São mais de 700 anos de história, ao longo dos quais o povo retratado nas obras perdeu mais batalhas do que ganhou e foi independente por poucos séculos – passou muito mais tempo sob o domínio de outros povos, mais poderosos.

De certo mesmo é que os livros originais do Antigo Testamento surgiram em Canaã, uma área vasta que hoje forma a Palestina, Israel, o Líbano e partes de Jordânia, Síria e Egito. E que a primeira versão mais próxima da que conhecemos surgiu por volta de 200 a.C. e consistia em um conjunto de papiros, muitos deles sujeitos a séculos de edições. Os primeiros cinco livros, por exemplo, teriam sido editados sob a coordenção de Esdras, um líder religioso do século 4 a.C. que viveu 800 anos depois das possíveis datas em que Moisés poderia ter existido.

Da coleção que chegou a nós, algumas características saltam aos olhos e fazem deste um trabalho muito mais complexo do que podem imaginar os fieis que o mantêm na estante mas não o leem. Javé, por exemplo, muda de personalidade várias vezes ao longo do tempo – no texto judaico, ele é chamado por vários nomes, incluindo Elohim, uma palavra hebraica que, originalmente, é o plural de El, um deus da Cananeia. Repare: plural!

No texto do Tanach, as mulheres, em geral, são figuras muito mais elaboradas do que os homens – uma característica que levou o crítico literário Harold Bloom a afirmar que Javista, um dos possíveis autores das primeiras versões de vários livros bíblicos, era mulher.

Esta coleção de livros complexa, contraditória, inalcançável aos esforços dos historiadores e arqueólogos sérios, moldou a filosofia, a religião e as artes de todo o Ocidente. Nada mais justo: trata-se de uma obra quase milagrosa em sua riqueza.

 

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Sobre o Autor

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Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

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