Uma conversa entre mãe e filhos

Ouço de muitas mães um desabafo. Elas fazem parte de um grupo de mães que sabem, acreditem, que ser mãe não é só viver coisas maravilhosas em relação aos filhos.

Postado dia 09/05/2016 às 08:00 por Eliana Figueiredo

 

mães

Foto: Reprodução/Internet

Em geral essa parte melhor está nos primeiros anos de vida, quando as crianças são bastante dependentes e obedecem mais ao comando dos pais. Num segundo tempo do “ser mãe” as coisas já não correm bem assim, e muitas sentem vontade de largar tudo… Mas vontade de largar e largar são coisas diferentes. É fato que não dá para se livrar deles, como objetos. Filho é para toda a vida! Você também já ouviu isso.

Talvez uma forma de se livrar seja colocar a responsabilidade na escola, e aí um embate se dá. A escola joga pra família e a família pra escola.

O conceito de adolescência não aparece antes do final do século XVIII, mas ganha certa expressão a partir do século XX. A passagem da infância para a vida adulta era marcada, por exemplo, quando um jovem deixava de usar roupas de criança e passava para a roupa do adulto. Não havia moda para jovens e essa passagem não era considerada um período importante de desenvolvimento.

As crianças eram socializadas, a partir da escola e da família, para ocuparem logo um lugar no mercado do trabalho. Crianças de 7 anos iam trabalhar. A partir das sociedades modernas, industrializadas, foi se formando esse intervalo entre infância e adulto, com muitas mudanças sociais aí implicadas. Volta-se a atenção para a formação, capacitação e estudo.

Durante esse período único na vida dos adolescentes, eles experimentam questões difíceis. A alteração não é só física e o físico não reflete o desenvolvimento psíquico. Muitas vezes as alterações no corpo são vividas como estranhas, desprazerosas, apesar de todas as informações que o jovem tem acerca dessa fase. Nesta fase é comum ele não mais querer saber da opinião dos pais, acha que sabe de tudo e pode resolver sozinho, no máximo busca suas referências nos grupos de adolescentes. Age como se o mundo e as pessoas tivessem que se organizar em função dele e do que ele precisa. Desorganiza-se com suas coisas e se despreocupa com a higiene, embora use perfumes.

Esta é a fase mais difícil para os pais. É mais fácil, às vezes, deixar os filhos livres demais, acreditando que podem fazer suas escolhas sozinhos e se responsabilizar por elas; dizem alguns “então, dane-se, não falo mais nada”. Brigas são frequentes e intensas. De fato eles não aceitam mais as referências paternas, precisam se separar e buscar outras coisas e referências. Ao mesmo tempo em que sua existência está em xeque e em jogo. O pensamento de morte é frequente… Sentimento de não serem entendidos e aceitos, de quererem sumir.

Mas algo é extremamente importante, para as mães e pais-mães, como disse a colega Marisa Nubile, psicanalista e doutora em educação: “não se separem dos seus filhos antes que eles possam fazer essa separação”. Isso não significa que os pais têm que manter os filhos atrelados a eles, mas que possam suportar o lugar que o adolescente lhes dá, estar acessível quando e para o que precisarem, que eles possam saber que vão experimentar do jeito deles, mas que se algo não for bem, podem contar com alguém, e não é um alguém qualquer. De resto é uma aposta fundamental no que já foi transmitido a eles ao longo dos anos.

Freud, em 1910, faz uma crítica ao papel da escola, no 1º Simpósio sobre Suicídio nas escolas secundaristas da época: “as escolas devem conseguir mais do que não compelir seus alunos ao suicídio; devem lhes dar o desejo de viver, oferecendo-lhes apoio e amparo numa época da vida em que as condições de seu desenvolvimento os levam a afrouxar seus vínculos parentais”. Está aí uma boa função para a escola nos dias atuais e, sem dúvida, uma aposta!

 

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Sobre o Autor

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Eliana Figueiredo

Psicóloga há mais de 25 anos, supervisora, associada ao CLIN-a, Atende em consultório particular em Mogi das Cruzes e São Paulo.

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