Uma antiga filosofia

Toda vez que emitimos conceitos estamos “recortando” figuras no horizonte da nossa mente. Mas as figuras que recortamos são apenas imagens dos nossos próprios desejos

Postado dia 21/07/2016 às 08:00 por João Anatalino

bem

Foto: Reprodução/Internet

A antiga filosofia chinesa do Taoísmo diz que nada que seja separado do seu contexto pode ser entendido de verdade, porque o ser só existe na sua integridade relacional. Uma rosa separada do seu caule ainda é uma rosa? Uma tartaruga sem seu casco ainda é uma tartaruga? Uma faca que nada tenha para cortar ainda é uma faca? Uma casa onde ninguém habita ainda é uma casa? Uma pessoa sem um propósito a cumprir ainda é uma pessoa?

O que são o bem e o mal, o feio e o bonito, o exato e o falso, o ínfimo e o imenso? Apenas conceitos que obtemos, destacando certos atributos que colamos ás coisas e às pessoas. Quando algo é bom ou ruim? Quando nos atende, ou desatende, em algum aspecto. Quando uma coisa, ou pessoa, é bonita ou feia? Quando agrada, ou não agrada os nossos olhos. Mas se percorrermos toda a linha que vai de um a outro conceito, ou seja, toda a linha do horizonte que vai do bem ao mal, do feio ao bonito, do verdadeiro ao falso, veremos que essa dualidade é, na verdade, um círculo que começa e termina em qualquer ponto da linha que o demarca, e é impossível determinar onde começa um e o outro termina.

A Vênus de Milo é bela. Isso é consenso geral. Mas uma criança, ou alguém que a visse pela primeira vez, poderia dizer que é apenas a estátua de uma mulher mutilada. Se pensarmos nela como uma criatura de carne e osso, ela seria apenas uma mulher sem braços. Continuaria a nos dar uma impressão de beleza?

Toda vez que emitimos conceitos estamos “recortando” figuras no horizonte da nossa mente. Mas as figuras que recortamos não são o horizonte. São apenas imagens dos nossos próprios desejos que projetamos contra esse fundo.

Assim, o bem que pensamos estar fazendo aos outros é apenas o nosso conceito de bem. Por isso não nos parece boa a filosofia que diz que devemos fazer aos outros aquilo que gostaríamos que fosse feito conosco. Quem nos garante que o que é bom para nós o é também para os outros? Nós não somos os outros.

Destarte, não se adiante, fazendo ao próximo aquilo que gostaria que ele fizesse por você. Espere que ele diga o que quer. Ele sabe do que precisa, o que é bom para ele. Você não. Você só sabe o que você mesmo precisa.

No horizonte das nossas almas não existem pontos extremos. Nós é que os colocamos lá para evitar que nos percamos no infinito de nós mesmos.

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Sobre o Autor

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João Anatalino

João Anatalino Rodrigues é bacharel em Direito e Economia e Mestre em Direito Tributário e escritor com 10 publicações autorais.

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