Um profeta entre dezenas

Jesus de Nazaré foi um dos muitos homens que disseram ser o Messias do povo judeu. Nem sequer era o mais conhecido. Se ele ficou tão conhecido depois, é por mérito de seus seguidores


Postado dia 16/12/2015 às 00:00 por Tiago Cordeiro

jesus

Não somos muito originais em fazer uma pausa em nossas vidas em tempos de solstício. O começo de uma nova estação – verão para nós, inverno para o Hemisfério Norte – é sempre marcante. Para as civilizações que tinham um contato mais direto com a agricultura, em especial, esta era uma época de preces e festejos. Os cristãos sabiam disso, e fizeram coincidir o Natal com o calendário festivo de sua época. Transformaram uma celebração que já existia na grande festa do nascimento de Jesus.

Jesus, que, aliás, não era o único projeta de seu povo em sua época, nem o mais conhecido. Eram tempos deprimentes: em 152 a.C., os judeus haviam, finalmente, reconquistado sua independência depois de passar pelo controle de assírios, babilônios, persas, macedônios, selêucidas e ptolomeus. Logo depois, em 63 a.C., foram dominados de novo, agora pelos romanos. Não sabiam, mas só voltariam a ocupar Jerusalém mais de 2 mil anos depois. Por que o povo eleito de Javé era tão maltratado?

Porque havia pecado, era o que os líderes religiosos diziam. É o que diz o Antigo Testamento também, de maneira incansável de tão repetitiva. Era preciso que o Messias chegasse para resgatar os judeus. O cenário era perfeito para o aparecimento de profetas que diziam ser o eleito, ou ao menos tentavam ensinar ao povo o caminho para se preparar para sua chegada.

Apolônio de Tiana, por exemplo, nasceu na atual Turquia, em 2 a.C. Pregou a paz, ressuscitou mortos, curou doentes. Mas era mais próximo às elites e teve uma vida longa e confortável – só morreu no ano 98. Simão, o Essênio também era bem visto entre os mais ricos, principalmente porque se mostrava um grande intérprete de sonhos. Já Hanina ben Dosa nasceu perto de Nazaré, poucos anos depois de Jesus, e teria a capacidade de fazer chover. Por sua vez, Eleazar seria um curandeiro com uma capacidade espantosa de realizar exorcismos em massa.

Dois profetas são até mesmo reconhecidos pelo texto bíblico. Um deles é João batista, um caso curioso de líder que batiza o homem que ele diz ser seguidor. É certo que, ao morrer, João deixou um grupo sólido e bem organizado de seguidores. O outro é Simão, o Mago, tão popular que chega a ser citado pelo livro dos Atos dos Apóstolos e pelo evangelho apócrifo Atos de Pedro. Para Simão, uma das encarnações de Deus na terra era uma prostituta chamada Helena.

Jesus foi menos famoso que boa parte destes homens. Morreu crucificado, uma punição que, além de ser terrivelmente dolorosa, costumava acabar com a imagem de qualquer cidadão de bem. Ainda assim, em poucas décadas o cristianismo estava espalhado pelo mundo conhecido dos romanos. No século 4, tornou-se a religião oficial de Roma pelas mãos do mesmo imperador Constantino que exterminou a fé fundada por Simão, o Mago, e que ainda tinha seguidores ardorosos. Da Europa, 1500 anos depois, seguiu para todo o planeta a bordo dos navios dos colonizadores europeus. A cruz é um dos símbolos religiosos mais conhecidos do mundo inteiro, enquanto que é bem provável que você nunca tenha ouvido falar de Hanina ben Dosa ou Apolônio de Tiana.

O sucesso é mérito da mensagem de Jesus, sem dúvida. Mas também da maneira como ela foi interpretada e divulgada, especialmente pelo apóstolo Paulo. Depois de debates ferrenhos, Paulo liderou a linha de pensamento que acreditava: o cristianismo não serve apenas para judeus. É uma religião universal. Codificadas para abranger a qualquer pessoa, as palavras de Jesus alcançaram um sucesso tão grande que certamente surpreenderia uma pessoa que vivesse na Palestina da década de 30 do início da nossa era. Possivelmente, ela nunca ouviu falar de Jesus de Nazaré.

 

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Sobre o Autor

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Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

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