Tyto Ecology: biologia simplificada

Fundamentos da matéria em game em busca do equilíbrio

Postado dia 29/07/2016 às 08:00 por Guillermo Gumucio

 

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Foto: Divulgação

O objetivo principal de Tyto Ecology (Immersed Games, 2016) fica bem claro com alguns poucos minutos de experiência no jogo: manter o equilíbrio. O próprio sistema de pontuação do jogo é uma evidência clara disso, com recompensas dadas de acordo com a diversidade, assinalada em porcentagem e nada mais do que isso. Uma pena que as opções à disposição para tornar essa jornada mais interessante não sejam em grande número, tampouco muito entusiasmantes.

No jogo principal, após escolher entre floresta amazônica, deserto de Mojave e pradaria, chega a hora de

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habitar esse cenário com as alternativas de fauna, flora e decompositores. Com os primeiros resultados de saúde das espécies aquém da marca de 100%, se tenta averiguar o que não está dando tão certo para, naturalmente, corrigi-lo. O caminho mais óbvio está na leitura dedicada das informações a respeito da fauna e flora, mas é com pesar que se nota que o aprendizado no Biodex, a enciclopédia com as informações relevantes sobre as espécies no jogo, simplesmente não rende o quanto esperado. Para bom gamer, meio recado basta, e a lógica é desvendada em pouquíssimo tempo. O recado é que a diversidade premia e, claro, os atores interagem entre eles, mas a chave para ser bem-sucedido no jogo é diversificar as três categorias de seres que podem ser inseridos no seu “biome”. Ou seja, se é preciso aumentar o seu índice de diversidade da fauna, basta ver os números absolutos de espécimes que vivem no ecossistema no momento e diagnosticar quais precisam de uma maior representatividade. Na prática, começando um cenário do zero, basta inserir um espécime de cada tipo na lista para não falhar.

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A experiência ainda poderia ser recompensadora se, mesmo que fosse um game de simulação fácil, houvesse algum tipo de prazer na observação do habitat se desenvolvendo, na interação entre os habitantes. Mas esse aspecto praticamente inexiste, mesmo após décadas, no tempo do jogo, de evolução do ambiente. Qualquer um que já teve um aquário sabe, por exemplo, que o grande barato do hobby é construir um ambiente, sentir e constatar que aquele pequeno ecossistema é equilibrado e que todos que o habitam estão confortáveis.

O poder de atração que um belo aquário, não importa o seu volume, desperta no observador está absolutamente relacionado a esse aspecto de organização, tanto biológica quanto estética. Há muitos desenvolvedores que sabem disso. Desde Shadow of the Collosus (Team ICO, 2006) e Assassin’s Creed (Ubisoft, 2007) a praticamente qualquer jogo de exploração na atualidade, são inúmeros os exemplos de títulos que contam com esse aspecto como crucial. Basta pensar nos álbuns de fotografias virtuais feitos essencialmente com capturas de tela de Grand Theft Auto V (Rockstar, 2013), por exemplo.

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A impressão inicial é que a aparente monotonia de Tyto Ecology ficará para trás com o avanço dos anos na cronologia do jogo, mas em vão. O game oferece cinco regiões do mapa (“slots”) que são desbloqueados gastando a moeda em pontos do jogo. Ocorre que a inclusão desses novos territórios não faz qualquer diferença significativa na partida, exceto pelo maior número de pontos (com o símbolo do raio) para inclusão de espécimes.

A partida só vai ficando de proporções maiores em matéria de espaço ocupado, mas não em complexidade nem, por consequência, em divertimento. A maior dificuldade em todo o jogo talvez esteja mesmo relacionada a esse aspecto: encontrar espaços vagos para a inserção de novos animais, plantas ou cogumelos, uma característica notória dos primórdios das simulações de cidades nas quais os desafios financeiros eram superados rápida e facilmente. No caso do reino vegetal em Tyto Ecology, inclusive, essa tarefa de encaixar um conjunto de plantas em um espaço pode ser bastante entediante.

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Alguns bugs notados ao longo das sessões de jogo para a realização desta análise foram corrigidos recentemente com os patches 1.7 e 1.9, como animais andando na água ou plantas terrestres que podiam ser colocadas na água, além de detritos, etc. O menu de notificações, recurso bastante importante em qualquer game de simulação e estratégia desta natureza, não leva à área ou objeto abordados no alerta, por exemplo.

Pode parecer algo banal, mas se você recebe constantemente um alerta de que um determinado grupo de animais morreu é provável que vá querer averiguar o que está ocorrendo para sanar o problema. A inclusão do Owlbot, o robozinho que percorre o mapa e guia o jogador ao longo do cenário, não se justifica sob qualquer prisma e a maioria dos usuários deve simplesmente eliminá-lo nos primeiros instantes da primeira partida.

Pode até ser intencional, mas não ser possível mexer na própria topografia do mapa é bastante frustrante. Isso fica ainda mais problemático no cenário desértico, uma das três opções disponíveis no pacote básico de Tyto Ecology. O biodome Himalaya é vendido separadamente na forma de DLC.

O deserto se assemelha muito a uma página em branco e isso, inclusive, dificulta a visualização de indicações úteis e frequentes no jogo, como o alcance de uma determinada espécie. O paradoxo é que a as inclinações e declives não atendem a qualquer outra finalidade que atrapalhar a inclusão de plantas e animais.

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A impressão é que Tyto Ecology pode até realizar uma série de cálculos complexos e prever interações entre os elementos do ambiente do jogador, mas não faz muita questão de mostrar isso. Não vemos predador devorando a presa, tampouco colônias de insetos realmente se espalhando pela região. O jogo não oferece muitos recursos de simulação: em um segundo o veado está vivo, no outro vemos apenas uma carcaça e um leopardo zanzando nas suas proximidades.

A causa e o efeito podem ser óbvios, mas, até mesmo considerando a baixa qualidade gráfica, era de se esperar algo mais descritivo, já que os animais podem se movimentar pelos quadros. Nesse sentido, até algo tão rudimentar quanto Sim City (Maxis, 1989) consegue se sair melhor, com um sistema claro de ação e reação que pode ser compreendido por qualquer um e conta com o seu próprio charme.

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A grande verdade é que, além da problemática da resposta visual às causas e consequências, Tyto Ecology precisaria de mais profundidade para ser realmente interessante. Mais dados, mais recursos, mais possibilidades. Um simulador voltado para os aspectos mais diretamente ligados à biologia poderia ser muito interessante com uma atenção mais concentrada nos detalhes, ainda que essa tarefa seja bastante difícil quando a missão é cuidar de todo um ecossistema.

Viabilizado via a curadoria comunitária do Steam Greenlight, Tyto Ecology continua sendo aprimorado com novas atualizações por meio de bugs cadastrados pelos próprios usuários. Fica a esperança de que na trajetória de desenvolvimento do jogo, um caminho seja escolhido e seguido com veemência, se Tyto Ecology será um jogo que busca a recompensa do bom estrategista ou pretende atrair um observador paciente que aprecia a biologia e tem A Origem das Espécies como livro de cabeceira. Para um jogo cujo desafio é manter o equilíbrio, não deixa de ser irônico que ele ainda não seja nem uma coisa nem outra.


 

Tyto Ecology pode ser adquirido no Steam.

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Sobre o Autor

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Guillermo Gumucio

Professor de Jornalismo e Linguagem Audiovisual na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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