Triângulos nada amorosos

O homem público oferece a vida ao escrutínio da sociedade, mas o foco da atenção agora deve ser a crise e quem está no governo

Postado dia 19/02/2016 às 15:13 por Janaína Leite

FHC

Gabrielle d’Estrees e uma de suas irmas – 1594 – Louvre

Talvez o DNA brasileiro seja um pouco explicado pelo fato de a maioria esmagadora dos desbravadores portugueses ter atravessado o Atlântico sem trazer mulher e filhos, ao contrário do que ocorreu entre os ingleses que colonizaram a América do Norte. Por aqui, do lado positivo, aconteceu a mestiçagem e a tolerância interracial que por lá era inadimissível. Do lado negativo, porém, sobraram a permissividade dos costumes, a condescendência com o modo de agir dúbio e segredista, o rebaixamento das mulheres ao aspecto da sexualidade, o bastardismo endêmico e, claro, a melancolia saudosa de um reino onde transgressões ocorriam de forma menos acintosa.

A vida pública é — ou deveria ser — para muito poucos, exatamente por firmar-se no que o próprio nome diz: pública. A sociedade outorga poder ao eleito, transformando-o no representante daquilo que ela tem de melhor. Em contrapartida, o escolhido amarra-se ao compromisso de ser transparente por completo, agindo dentro das normas legais e morais que esta sociedade preza.

É tarefa dificílima. Exige a abdicação de muitas coisas para as quais fecham-se os olhos quando acontecidas nas botas do homens comuns, que vivem do dinheiro privado, longe dos holofotes. Casos extraconjugais estão nessa lista. Manter uma amante sempre exigirá certo grau de segredo, mentira e manipulação, além de expor o envolvido às variações emocionais de terceiros. Riscos demais para quem carrega o destino de uma nação nos ombros.

Alguns dirão que a maioria esmagadora dos reis, de muitos reinos e eras, foram notórios por suas conquistas amorosas. Outros lembrarão que políticos eleitos por vertentes díspares também cometeram pecadilhos, em todos os lugares do mundo. É certo. Reis atuavam em monarquias como representantes divinos, comportavam-se como bem entendiam. Seu exemplo foi seguido por políticos que, ao seu modo, sentiram-se entronizados quando exerceram seus mandatos.

Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio da Silva, os dois presidentes da bonança econômica vivida pelo país entre 1994 e 2010, encrencaram-se por terem descuidado de seus limites. Caberá ao Ministério Público Federal analisar o aspecto crucial do que pode diferenciar as respectivas amantes em questão. Alguma delas recebia dinheiro público ilegal? Alguma delas realizou tráfico de influência, atuando em desserviço da nação? Alguma delas foi beneficiada com cargos e benesses incompatíveis com sua formação? Alguma delas foi incitada a incorrer em crimes, chegando a contrariar a lei? Alguma empresa privada foi usada como fachada para abrigar alguma delas? Em caso positivo, isso aconteceu legalmente? Quanto aos filhos bastardos, eles foram reconhecidos? Devidamente amparados? Algum deles foi inexplicavelmente agraciado com algo proveniente de recursos escusos? Algum deles recebeu favores indevidos do setor privado? Algum agiu como lobista, usando o nome do pai para conseguir ganhos pessoais fora do escopo de suas aptidões?

Só respostas a essas perguntas dirão se, além do embaraço pessoal, os ex-presidentes podem ser comparados em seus deslizes. Devem ser buscadas, portanto, pelos agentes públicos responsáveis por cuidar das leis do país. Os mesmos pesos, as mesmas medidas, observando sempre que os resultados podem ser diferentes. Fatos novos sempre são possíveis.

O óbvio dito, parece uma sandice os brasileiros ficarem paralisados ou raivosos, trocando ofensas em defesa deste ou daquele ex-presidente. Delimitar o papel das amantes, bem como encontrar os verdadeiros donos de chácaras e coberturas no litoral, é trabalho da polícia, dos procuradores e dos juízes.

É preciso ter em mente que a sanha por prender ou denegrir um político, empunhando a bandeira deste ou daquele partido, não é sinônimo de redimir uma pátria, muito menos livrá-la de suas agruras.

FHC e Lula não governam mais, deixaram Brasília há anos. O foco de atenção maior deve ser, pela lógica, quem está no Planalto agora, tomando decisões que influenciam mais de 200 milhões de pessoas. Cair em um jogo proposital para desviar a atenção da atualidade significa tomar a parte pelo todo, vitimizar um ou outro, dar as costas à tempestade perfeita que atinge o país, formada por uma crise que combina os aspectos institucional, político, administrativo e econômico. Uma soma de desgraças que abalroa sem dó os cidadãos e pode transformar os próximos anos em um pesadelo vívido.

Inflação sem freio, desemprego em alta, juros na estratosfera, estímulo ao endividamento, inadimplência crescente, tributação extorsiva, um buraco nas contas públicas mais fundo a cada dia, estados e municípios sem condições de honrar pagamentos, o assassinato da Lei de Responsabilidade Fiscal, a destruição do meio ambiente, falta de remédios, epidemias variadas ameaçando a população.

No Congresso, onde há um pedido de impeachment parado, uma série de denunciados afivelam-se em seus assentos como se fossem bancos de flutuação em caso de acidente. Baratas voam sobre dezenas de partidos de aluguel sem que uma única votação relevante para tirar o Brasil do atoleiro seja levada adiante. O baixo clero ganha condições de acossar o governo ofertando sabe-se lá o que em troca.

Eis o drama. O resto é novela. Talvez seja melhor ler sobre Gabrielle d’Estrées, Diana de Poitiers, Madame de Montespan, Marquesa do Santos, Aimée Lopes ou uma dessas tantas que permeiam a história — outros tempos, outro savoir-faire.

Se não prestar atenção ao que interessa, ou seja, aos sinais de que o casamento de Dilma Rousseff com a realidade naufraga a olhos vistos, o povo será traído mais uma vez.

Depois não adianta reclamar.

 

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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