Carta a uma jovem Janaína

Mais de 20 anos depois, impeachment e economia continuam na pauta de discussões de um país que cresce aos soluços

Postado dia 24/12/2015 às 01:21 por Janaína Leite

janina

Minha muito, muito querida,

Encontrei há pouco sua agenda. Está toda arrebentada, a coitadinha. Mas ainda guarda na capa o ano de uso – 1992 – impresso em letras desbotadas. Drummond aparece logo nas primeiras páginas: “Lutar com palavras / é a luta mais vã / Entanto lutamos / mal rompe a manhã. / São muitas, eu pouco.” Não é bonito?

Mais de vinte e três anos passaram-se desde que você copiou o poeta. Eis que a batalha, menina, continua. Nascemos eu e você uma para a outra e para a escrita, essa tentativa louca de entalhar o éter.

É estranho folhear seus pensamentos décadas depois, pelo que remanesce e pelo que hoje jamais seria. Por isso, começo com os fatos. Dizem que o entorno influencia muito a gente e creio que estão certos n’alguma medida, embora, por temperamento e experiência, eu sustente que a gente influencia o entorno muito mais.

Vivo no fim de 2015, um ano difícil. Tempo confuso e fervilhante, ninguém sabe para onde o país vai. OK, você sente igual aí em 1992. A diferença é que na sua época parecia existir uma linha clara distinguindo o certo e o errado, demarcando as inclinações dos homens. Atualmente, não.

O quanto você ficaria indignada se soubesse, por exemplo, que cercam o Chico Buarque na rua chamando-o de alienado, por exemplo? Isso porque ele apoia o Lula, que apoia a Dilma, que você não conhece, mas veio a suceder o Lula como presidente da República. Sim, sim, o Lula virou presidente. Mas isso só aconteceu em 2003. Antes dele o presidente por dois mandatos foi Fernando Henrique Cardoso.

Emocionou-se, menina, eu sei. Quem em 1992 seria utopista de tal monta, quem sonharia com o braço intelectual e o braço trabalhista da esquerda sucedendo-se um ao outro e mandando no país por mais de 20 anos? Contudo, foi assim que aconteceu.

Você virou jornalista de economia e política, como sempre quis, olhe só. Testemunhou coisas incríveis, como o fim temporário da inflação, possível com uma nova moeda, o Real, lançada em 1994. Com ela, o Brasil viveu um período de bonança econômica e inclusão social. Resistiu a crises externas que antigamente teriam nos transformado em pó. Livrou-se do Fundo Monetário Internacional (isso para mim, de 2015, é até meio risível, mas aí no seu imaginário de 1992 o FMI é grande coisa).

Conheço você o suficiente para saber que mil perguntas estão se formando em sua boca. Tudo bem. Entendo as dúvidas. É mesmo escalafobético o que digo para alguém que lê em 1992. Olhei o extrato bancário que você deixou na agenda: o depósito do salário equivalente a Cr$ 1.467.493,51 (Hum milhão e quatrocentos e sessenta e sete mil e quatrocentos e noventa e três cruzeiros e cinquenta e um centavos). Barbaridade. Ganhar quase um milhão e meio por mês e não poder comprar nada. Sua vida é triste nesse aspecto, querida, mas você jamais saberá o quanto. Eu, sim, uma vez que posso compará-la com o que vivi depois.

O grande truque do sucesso foi terem criado metas para a inflação e uma norma, chamada Lei de Responsabilidade Fiscal, para controlar os gastos públicos. Foi um imenso avanço político-administrativo. Deu certo por um tempo, com umas tungadas aqui e ali. Mas a partir do governo Dilma começaram a boicotar sistematicamente os limites. O malfeito se espalhou e governadores e prefeitos também sambaram na cara da lei. Agora as contas estão completamente desequilibradas, na União e em vários Estados e municípios. E a inflação saiu do controle.

Claro, não é aquela excrescência à qual você está acostumada em 1992. Mas a praga voltou aos dois dígitos, coisa que há muito não se via. Os preços estão subindo de novo e o dinheiro perde o seu valor. O desemprego, que foi terrível por um bom tempo e depois diminuiu, aumenta. Sua filha, por exemplo, não entende direito o que está acontecendo. Nascida junto com o Real, ela nunca teve de lidar a sério com a perspectiva de ver o dinheiro derreter. (Ah, sim. Você terá uma filha logo, logo. Prepare o coração. Depois conto os detalhes, pessoalmente. Agora fiquemos com as informações relativas ao país.)

“E as pessoas que melhoraram de vida, agraciadas pela inclusão social? Podem perder o que conseguiram, se a economia não for recolocada nos trilhos?” Sim, podem. Esse é o maior risco. “Ninguém viu o que acontecia?” Sim, viu. Mas a maioria foi enganada pelo discurso político e pela festa consumista. Entre os espertos e os que tinham ciência, a maior parte preferiu fazer de conta que não sabia do perigo. Como se voltar as costas aos problemas, do jeito que a Nancy faz com o Freddy Krueger , fizesse o horror sumir.

De volta ao que acontece aqui, nos próximos 23 anos o mundo que você conhece terá praticamente desaparecido. Tudo será digital. Seu parceiro de trabalho mais próximo será o seu telefone e ele será portátil. A comunicação acontecerá por meio de redes de contatos virtuais. Nelas, os militantes agem como torcidas organizadas, contra e a favor da presidente. Tudo o que você falar poderá ser torcido, distorcido, rasgado e transformado numa peça de acusação contra você mesma.

Essa virtualização teve consequências sérias. Em 2015, os movimentos políticos só vingam quando apresentam-se como apolíticos. As reclamações acontecem de modo descoordenado e aparecem em ondas, fluxo e refluxo, dificultando medir a percepção da sociedade em relação aos seus mandatários. A imprensa foi metralhada e as opiniões de gente que não apura valem tanto, ou mais, que os fatos relatados por quem passou meses confrontando versões.

Mas a verdade, querida, é que estou desviando do centro. Tenho um pouco de medo de entristecer demais você, justo nessa época em que existem tantas esperanças no seu coração. É que em 2015 estamos passando de novo por um processo de impeachment. No seu tempo o alvo era Collor. Agora é Dilma. No entanto, nos moldes de 1992, Renan Calheiros e Eduardo Cunha são figuras proeminentes na história. A corrupção continua sendo tida como o principal problema nacional. Eu concordo parcialmente. Acho que a incompetência (não só da Dilma, mas dos gestores em geral) e o apego excessivo a teorias que se provaram ineficazes é tão preocupante quanto.

Leio em sua agenda que o ministério de Collor caiu em 30 de março de 1992. Eu não me lembrava. “Em time que está perdendo ou sai o técnico, ou se muda o time todo de uma vez”, disse o deputado Ulysses Guimarães, conforme o recorte de jornal que você colou. Pelas suas anotações saiu todo mundo, ficou só o Marcílio Marques Moreira, ministro da Economia, que durou mais um pouquinho. Parece que faltou darem esse conselho para a Dilma quando ela fez a reforma ministerial há alguns meses, porque a presidente agiu semelhante a Fernando Collor. Trocou a maioria e manteve o ministro da Fazenda. Não adiantou. Ele pediu demissão poucos meses depois, igual ao Marcílio. Em 2015 assumiu Nelson Barbosa, que agora está à frente da pasta da Fazenda. Ele concorda em tirar o freio da boca da inflação e gastar mais. A maioria dos especialistas, não.

Enfim, a política de 2015 está tão confusa quanto a da sua época, menina. A diferença é que em 1992 você não entendia nada de economia, nem tinha paciência para discutir interminavelmente sobre assuntos quaisquer. Você só pintava a cara e ia para a rua fazer a diferença. Deu certo. Em dezembro de 1992, Collor renunciou e foi afastado pelo Congresso. Itamar Franco assumiu, chamou Fernando Henrique Cardoso para ser o ministro da área econômica e o Plano Real começou a ser construído. O resto eu já lhe contei.

Ou melhor, ficou faltando uma coisa. Collor voltou à política. Tornou-se senador por Alagoas e atualmente é um dos citados nas investigações de um esquema de corrupção conhecido por “Petrolão”, envolvendo a Petrobras. Mas esse fica para outro dia. Não quero estragar seu Natal, querida.

Que a esperança esteja sempre com você, mesmo quando o mundo aparentemente não lhe der motivos. Pois as coisas dão certo e resolvem-se, apesar dos pesares. Aqui adiante, junto ao Drummond, estarei eu. Porque “as palavras fogem quando precisamos delas e sobram quando não precisamos usá-las”. E porque, mesmo que eu tenha me perdido um pouco e não tenha conseguido me tornar exatamente a mulher que você sonhava em 1992, estaremos sempre juntas.

Um beijo,

Janaína

P.S.: Achei graça das suas anotações. Por exemplo, “Itamar é o único presidente que tem topete de fazer oposição a si próprio”. Bem boa, deve ter sido copiada. A verdade é que você, querida, está em 1992. Não conhece a Dilma.

P.S.2: Pare de comer besteira. Compre uma passagem para a Bahia. E aprenda logo a nadar. Você vai adorar nadar em mar aberto e mergulhar, sempre mais e mais fundo.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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