The Man In The High Castle: perigos nem tão ficcionais e o poder da imagem

The Man In The High Castle - Primeira temporada da adaptação de alto nível é recompensadora e pertinente

Postado dia 28/04/2016 às 08:00 por Guillermo Gumucio

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Foto: Reprodução/Internet

Uma produção distribuída pela Amazon, The Man In The High Castle (2015) transforma uma das obras mais célebres do grande expoente da literatura de ficção científica na segunda metade do século passado Philip K. Dick em série televisiva, formato que tem mostrado contribuições interessantes ao conteúdo audiovisual de massa. Em O homem do castelo alto, de 1962, Dick não só deixa de descrever um futuro, procedimento padrão da maioria dos textos do gênero, como olha para trás para trabalhar com um cenário hipotético no qual o Eixo teria derrotado os Aliados e, como consequência direta, os EUA divididos em essencialmente três territórios: o maior deles, uma extensão da costa leste sob comando da Alemanha nazista; uma faixa central neutra; e a costa oeste de controle do império japonês com base em São Francisco.

Ao adaptar um texto com aproximadamente 250 páginas, a série adota a premissa inicial de Dick e cria muitas novas personagens e até mesmo arcos dramáticos inteiros. Para dar a medida da proporção, a cena dos instantes finais do décimo e último episódio da primeira temporada descreve uma passagem constante do penúltimo capítulo do livro, de modo que é razoável supor que a segunda temporada com dez episódios já confirmada pela Amazon trará um lote ainda maior de liberdades criativas na adaptação. Essa passagem em particular, inclusive, é um ótimo exemplo do que a série faz em prol da história de Dick em matéria do impacto e objetividade da sua representação. Nas mãos de um autor com maior apreço pela riqueza de detalhes visuais, essa passagem talvez contasse com uma descrição mais vívida e atraente do processo pelo qual a personagem, o Ministro do Comércio japonês Nobusuke Tagomi (interpretado na série por Cary-Hiroyuki Tagawa), passa, mas Dick parece mais preocupado em demonstrar no que culminam as inúmeras referências ao I Ching citadas ao longo de seu livro. Os responsáveis por The Man In The High Castle não só ratificaram o bom uso do suporte audiovisual para dar vida às ideias de Dick, como aproveitaram o grau de subjetividade inerente à passagem para incorporar um cliffhanger valioso para segurar a curiosidade do público-espectador até o lançamento dos episódios vindouros, algo que alia boa narrativa ao interesse comercial.

japonesUm dos grandes atrativos desde o primeiro episódio é a altíssima qualidade de trabalho em matéria de cenografia e figurino. Com ambientes e personagens muitíssimo bem definidos, algo imprescindível para a clareza de uma trama de conspiração que envolve tantas peças e regiões diferentes, a série consegue abarcar núcleos tão diferentes, mas cada um com as características visuais que lhe são peculiares. Uma olhada rápida nos créditos e tudo se explica: entre os produtores, ninguém mais ninguém menos que Ridley Scott, uma verdadeira autoridade em ficção científica de Hollywood. Agora a obsessão e o tratamento absolutamente diferenciado e poético com o lado japonês da estória mais do que se justificam. E não se trata de mera intérprete subjetiva. Há uma série de referências a outros trabalhos do cineasta britânico, das esculturas rochosas da vinheta de abertura que não escapam à comparação com os projetos de H. R. Giger usados em Prometheus (dir. Ridley Scott, 2012), e cuja real origem descobrimos apenas recentemente no documentário Duna de Jodorowski (dir. Frank Pavich, 2014) ao ápice do origami feito por um coadjuvante (que inexiste na obra de Dick, vale salientar) que remete diretamente ao filme pelo qual Scott será sempre lembrado, Blade Runner, o Caçador de Androides (1984). Entre outros easter eggs, sobra até para Twin Peaks.

Por lidar com um imagético poderoso, porque de reconhecimento imediato por qualquer público, o aspecto mais fundamental de The Man In The High Castle é um convite à reflexão: os Estados Unidos de hoje são tão diferentes daquele representado na série? Vêm imediatamente à tona todas as guerras que os EUA já travaram após a Segunda Guerra Mundial, principalmente aquelas das duas últimas décadas, a figura de Colin Powell apresentando “provas irrefutáveis e inegáveis” sobre a presença de armas de destruição em massa pelo Iraque de Saddam Hussein e a execução deste, por exemplo. A série televisiva, de fato, parece nos lembrar por diversas vezes de que a pena de morte é institucionalizada nos Estados Unidos, um sistema que condenou até mesmo réus com fortíssimas evidências de reabilitação, como o caso amplamente noticiado de Stanley Tookie Williams III, ex-líder de gangue cuja sentença foi avalizada pelo então governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger a despeito do movimento popular em favor da revogação da pena, em 2005. Não é o caso de fazer um julgamento reducionista e superficial do governo estadunidense, mas vislumbrar se não há mais traços em comuns entre regimes e governos democráticos do que gostaríamos de assumir. Porque, ainda que sob a mão de ferro dos nazistas, grande parte da população americana em The Man In The High Castle leva a sua vida normalmente, exceção feita aos judeus, relegados a viverem na clandestinidade ou serem sumariamente executados.

Essa interpretação encontra corroboração no fato de que o império japonês, em contraste com a presença nazista, é retratado de forma muito mais leve por Dick, enquanto que na série toda e qualquer benevolência nos governos está restrita apenas à dupla formada pelo já citado ministro Tagomi e o capitão Rudolph Wegener (interpretado por Carsten Norgaard), e ainda assim com tons bastante diferentes atribuídos a eles: o japonês é um senhor de idade avançada, gentil em todas as situações, até mesmo com os subalternos; o alemão Wegener é um homem charmoso de meia-idade que, por melhores que sejam as intenções que tem em comum com Tagomi, é mulherengo e não dispensa o uísque de qualquer anfitrião.

bandeiraEntretanto, o denominador comum entre ambos os regimes é a truculência. Ao fim e ao cabo, não há qualquer diferença entre o controle absoluto exercido pelos regimes em seus territórios, o qual se dá por todos os meios disponíveis para tal e se vê personificado nas personagens do inspetor-chefe Kido (Joel de la Fuente) e do Obergruppenführer John Smith (Rufus Sewell). Afinal de contas, qual é exatamente a grande disparidade entre o demonstrado em Citizenfour (dir. Laura Poitras, 2014), documentário-síntese das denúncias de Edward Snowden a respeito das operações da agência nacional de segurança dos EUA, e as fogueiras de livros ou as caçadas a autores subversivos e demais geradores de tensões perpetradas pelos agentes da SS na série? A tridimensionalidade de Smith, cidadão de origem estadunidense que se filia ao regime alemão, responde por mais um prova cabal do discurso pretendido pela produção da Amazon e, ainda mais importante e gritante, a ambientação e direção das cenas que mostram seu núcleo familiar, a típica família branca de classe média-alta do pós-guerra, com sua casa de subúrbio com amplo jardim e decoração de zelo da época, exceto por pai e filho fardados em obediência ao Reich. A alta patente alemã não segue a cartilha do vilão nazista de praxe que remete facilmente ao protagonista de A Queda: As Últimas Horas de Hitler (dir. Oliver Hirschbiegel, 2004) e é tão maniqueísta quanto qualquer outra nêmese clássica de Hollywood. Pelo contrário, para complicar um pouco as coisas, um dos subplots surgidos nos últimos episódios envolve um dilema óbvio com o filho do Obergruppenführer, conflito inexistente na obra original, tal qual a própria personagem de Smith.

De certo modo, a adaptação de uma obra literária para o meio audiovisual se faz presente na própria narrativa da série. O Gafanhoto Torna-se Pesado, o livro subversivo (ou considerado como tal, segundo as potências na trama) de autoria da personagem Hawthorne Abendsen, o tal do “homem do castelo alto” que dá nome à obra em si, é pulverizado em uma diversidade de rolos cinematográficos. E aqui é importante também notar que o roteiro não tornou O Gafanhoto Torna-se Pesado simplesmente em um filme, mas uma série de filmes, fator bastante sintomático e ilustrativo da relevância e porte das decisões tomadas na tarefa de adaptar O Homem do Castelo Alto para uma produção televisiva a qual, não obstante, atribui uma agradável ambiguidade ao título da obra que desaparece assim que o leitor chega às últimas páginas da obra de Philip K. Dick.

Mesmo deixando uma série de perguntas na cabeça dos espectadores em seus últimos momentos, a primeira temporada de The Man In The High Castle é obrigatória para qualquer aficionado pelas temáticas inerentes à Segunda Guerra Mundial e também por conspirações bem amarradas, ainda que com um ligeiro toque de fantasia. A forma como a série aborda todas as inúmeras complicações geradas por totalitarismos e ditaduras e como a imagem pode ser o último refúgio, ou a luz no fim do túnel, é irresistível. Inevitavelmente, a segunda temporada deverá adentrar terrenos mais arenosos em questões de narrativa graças à subjetividade do desfecho do enredo principal, mas se o nível de produção permanecer, tem tudo para se tornar uma tacada muito bem acertada por parte do pessoal da Amazon e de Frank Spotnitz, criador da série e que já tinha no currículo a escrita de mais de 50 episódios de Arquivo X. E, na verdade, do público também, já que no sistema de produção de séries da Amazon, os usuários assistem a diversos pilotos e votam em quais projetos devem ser efetivamente levados a cabo.

 The Man In The High Castle pode ser assistido no Amazon Video.

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Sobre o Autor

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Guillermo Gumucio

Professor de Jornalismo e Linguagem Audiovisual na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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