Tentáculos à mesa: Cthulhu Realms

Versão digital do game da White Wizard faz sorrir. É uma ótima pedida principalmente para aqueles que ainda não foram iniciados no mundo dos card games

Postado dia 16/08/2016 às 08:30 por Guillermo Gumucio

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Foto: Reprodução/Internet

Há card games para todos os gostos, seja em versão analógica ou digital. As temáticas são as mais diversas. Vão dos tradicionais universos de capa e espada baseados diretamente nos RPGs (role-playing games), com Magic: The Gathering, o mais popular e longevo desde o seu advento nos idos de 1993.

E incluem a introdução do mundo de Warcraft, o pote de ouro dos MMOs, no gênero com Hearthstone:

Foto: Divulgação

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Heroes of Warcraft (Blizzard, 2014), passando pelos atualmente onipresentes bichinhos orientais com Pokémon TCG Online (The Pokémon Company, 2011). E também pela ficção científica de X-COM: The Board Game (Fantasy Flight Games, 2015), bastante calcado também em jogos de tabuleiro. Isso para não falar nos guerreiros tridimensionais de Combat Monster (Rubicon, 2013) e seu grande número de expansões. Há espaço também para projetos ainda mais peculiares, como o familiar, colorido e descomplicado Aquarius (Looney Labs, 2004), ou coisas bem fora da curva, como Falling (Cheapass Games, 1998).

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É inevitável que os jogos de cartas que alcançam grande popularidade nas mesas da sala de estar sejam transpostos às plataformas digitais. Com X-COM: The Board Game ocorreu o contrário, por exemplo, mas se trata de exceção (daí o subtítulo explicativo). Na maioria das vezes, a disposição das cartas na mesa é traduzida diretamente à tela do computador, celular ou tablet e a questão crucial é ser o mais fiel possível à dinâmica do jogo original. Entre as vantagens naturais do digital estão o modo online com desconhecidos e a opção de jogadas aceleradas por parte da inteligência artificial para os usuários mais experientes.

A primeira incursão da White Wizard Games no gênero se deu com Star Realms, em março deste ano, também um jogo originalmente físico, mas é com Cthulhu Realms que realmente a desenvolvedora põe a imagem também para divertir os olhos dos jogadores.

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Para quem nunca esteve em contato com o jogo de cartas original da White Wizard, se há algo que chama a atenção em Cthulhu Realms no primeiro instante é o nível do trabalho de ilustração presente nas cartas. As representações das figuras imaginadas por H. P. Lovecraft são deliciosas e transbordam um senso de humor irrepreensível em uma interpretação da mitologia do escritor estadunidense absolutamente fora do comum. As figuras humanas são hilárias, quase sempre em estado de loucura, com olhos esbugalhados e até mesmo sorrindo em delírio. Já os monstros e seres grotescos são representados em tons de verde, cinza e roxo com uma parcimônia exemplar. A competência no uso das cores no baralho pode ser conferida também na sinalização que efetivamente serve ao jogador, com uma paleta mais clara e divertida para indicar nome da carta, valores de compra e poderes.

Além do visual com excelente senso de humor, o léxico do jogo também é modificado. Contrariando a esmagadora maioria dos jogos da mesma natureza, o handicap de cada jogador não é algum aspecto físico ou genérico, como “saúde” ou “nível sanguíneo”, mas “sanidade mental”, devidamente acompanhado de um ícone representando cabeça e cérebro.

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Na versão do jogo para a plataforma Steam avaliada pela reportagem foi possível notar a excelente fluidez com que as jogadas são demonstradas na tela. É natural que o player de primeira viagem ainda não compreenda a dinâmica da maioria das jogadas, mas as interações entre cartas e os tipos de combinações possíveis para confrontar o adversário só vêm com o tempo e a prática necessários neste e em qualquer card game. O primeiro passo é entender a morfologia, ou seja, a função direta e objetiva de todas as cartas.

Depois, é hora de compreender como as cartas podem interagir entre si em prol do jogador, isto é, pensar de forma estratégica e assimilar as combinações em potencial no deck. É admirável que uma empresa formada por designers que foram campeões de Magic: The Gathering, além de profissionais que chegaram a trabalhar em projetos avalizados pela Wizards of the Coast, tenha concebido um jogo tão simplificado e com uma curva de aprendizado tão acelerada. Afinal de contas, o próprio universo expandido de Magic: The Gathering exige certa dedicação de qualquer um que se propuser a dominar o jogo.

Uma das chaves para vencer em Cthulhu Realms é saber se desfazer das cartas mais fracas no início de cada partida. Com a função “abjure” é possível retirar uma carta da mesa ou da sua mão (em definitivo, salvo habilidade específica de uma ou outra carta mais avançada) para dar vez às cartas compradas de maior poder de fogo. A habilidade de retirar cartas do jogo também é extremamente útil para habilitar funções especiais de outras cartas e é aqui que combos destruidores podem ser realizados, com compra de cartas do baralho, descarte do adversário e acúmulo de dano.

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Na versão de Cthulhu Realms para PC testada pela reportagem não houve qualquer tipo de falha ou glitch, mas se trata de um game de recursos gráficos, ainda que belos, simples até para o gênero dos card games. Mas é tudo muito redondo, tanto jogabilidade quanto visual. Após a sondagem de terreno de praxe para aprender as principais estratégias e vencer todas as fases da campanha nos modos fácil e difícil, aí está na hora de enfrentar outros usuários no multiplayer e realmente colocar as habilidades a toda prova. No período avaliado pela reportagem, de modo geral, havia entre 30 e 50 jogadores online nos mais diferentes horários.

Cthulhu Realms é uma ótima pedida principalmente para aqueles que ainda não foram iniciados no mundo dos card games ou conhecem o gênero apenas de forma superficial. O jogo faz um ótimo trabalho ao ser fácil de jogar e aprender, ao mesmo tempo em que proporciona uma série de combos com um baralho relativamente pequeno. O modo multiplayer está disponível apenas na versão completa e paga do jogo, mas o usuário curioso pode fazer bom proveito da versão gratuita e conferir se a lógica de Cthulhu Realms o atrai e tem potencial para mais algumas dezenas de horas de entretenimento.

Cthulhu Realms pode ser adquirido na Steam, na App Store do iTunes e na Google Store.
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Sobre o Autor

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Guillermo Gumucio

Professor de Jornalismo e Linguagem Audiovisual na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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