Syrah, sua linda!

O mundo do vinho tupiniquim ainda está surpreso com a notícia de que dois dos melhores varietais de syrah do mundo foram produzidos na Serra da Mantiqueira, no estado de São Paulo

Postado dia 08/06/2016 às 08:00 por Edgard Reymann

syrah

Foto: Reprodução/Internet

As medalhas de ouro e bronze para os syrah Vista do Chá e Vista da Serra, da Guaspari, no Decanter World Wine Awards 2016, em Londres, chamaram a atenção tanto para uma nova possível indicação geográfica produtora de vinhos no Brasil, como também para o fato de que estamos no caminho certo para a elaboração de vinhos desta uva num padrão de qualidade internacional. O que me levou a dar mais atenção a outros varietais de syrah, uma das uvas mais antigas que existem e que tem na região francesa do Rhône o seu lugar de distinção.

Da uvas do Rhône (Ródano, em português, é a tradução, mas em desuso no Brasil), a syrah é a mais bem sucedida em outras regiões do planeta. Tem como característica produzir vinhos exuberantes, com bons taninos, coloração tinta profunda e aromas muito sedutores de frutas escuras, ameixa e cerejas maduras. A syrah se deu muito bem na Austrália, onde recebe o nome de Shiraz, assim como nos Estados Unidos. O Chile é um país que vem investindo nela com ótimos resultados, e também a África do Sul.

Para os vinhos do Rhône, a syrah é a uva rainha das apelações do norte desse departamento francês. E apelações como Hermitage, Crozes-Hermitage e Côte-Rôtie são razoavelmente conhecidas por aqui. No entanto, o sul do Rhône é responsável pela maior parte da produção, e suas apelações são bem mais conhecidas aqui: garrafas de Châteauneuf-du-Pape e Côtes du Rhône são encontráveis até em supermercados. No sul do Rhône, a syrah tem parcela importante, junto com a mourvèdre, na composição dos blends capitaneados pela grenache. Assim, se você for tentar estabelecer um comparativo dos varietais do Novo Mundo com algum varietal do Rhône, seria melhor optar pelos do norte. Foi o que fiz.

Meio que ao acaso, essa oportunidade me surgiu quando, dois dias depois de visitar a belíssima vinícola Guaspari e provar os seus syrah campeões, provei um Crozes-Hermitage da francesa Ogier. E, logo depois, um syrah sul-africano da Mullineux Wines. Surpresa mundial com as medalhas de ouro e bronze no mais recente Decanter World Wine Awards, os syrah da Guaspari colocaram o estado de São Paulo no mapa dos grandes vinhos.

Situada a cerca 1.100 metros de altitude na Serra da Mantiqueira, em Espírito Santo do Pinhal, revelou-se ali um excelente terroir para essa uva. Segundo seus enólogos, o segredo está na altitude, que permite uma boa variação térmica, fundamental para seu perfeito amadurecimento. Colheita esta, por sinal, invertida. Ao contrário do que seria natural no hemisfério sul, a colheita é feita nesta época, do final de maio até o mês de setembro, ao contrário das vinhas do Sul do Brasil, cuja colheita se dá entre janeiro e março.

Isso exigiu a adoção de know how diferenciado, como a irrigação artificial e poda dupla ou invertida, para que as uvas pudessem ser cultivadas e colhidas “fora de época”. Na poda invertida, é feita uma poda na planta em janeiro, quando começa a dar seus frutos. Com isto, a parreira recomeça o processo de formação de brotos, floração e frutificação. Para isso, é preciso que, durante a estiagem, que começa em abril e vai até setembro, a planta receba água suficiente para dar fruto novamente.

Deu tudo muito certo na Guaspari. A ponto de a vinícola optar pela confecção de dois vinhos, Vista do Chá e Vista da Serra. Entre si, detalhes os diferenciam, a começar pela altitude: o vinhedo do Chá está a 1.100 metros, e o do Serra, a 1.240m. Inclinação e angulação ao sol dos terrenos também diferem um pouco. No copo, ambos possuem bom corpo e estrutura. O Vista da Serra, porém, se apresenta mais robusto, denso e com notas de chocolate no olfato e taninos mais untuosos na boca. O que o torna muito bom para pratos suculentos, como um ossobuco e um belo churrasco.

O Vista do Chá tem mais acidez e frescor, com aromas de frutas maduras. É, também, mais elegante, o que permite harmonização com pratos com molhos mais sofisticados. Foi o meu preferido – e o da Decanter também, que lhe deu o ouro. Os syrah safra 2012 da Guaspari são vinhos que competirão bem no mercado internacional.Espera-se que as outras safras confirmem seu potencial. E, sim, podem ser bem longevos: um 2012 pode ser bebido daqui a sete ou oito anos, Portanto excelentes como investimento, e eles não são baratos para um vinho nacional: R$ 155,00 a garrafa.

Com os Guaspari frescos na memória, provei o Crozes-Hermitage Comte de Raybois 2013, da Ogier, tradicional vinícola do Rhône. Na comparação, é um vinho de corpo mais leve, possui bons taninos, o que lhe dá mais alguns anos de vida. Seu aroma frutado é mais discreto no nariz, e o mineral facilmente notado. Importados pela Mistral, custa U$ 57,50, mais caro que os Guaspari e, na média, é considerado um vinho de “boas-vindas” para os fãs do Rhône – ou seja, não é “top”.

A vinícola faz também vinhos no sul do Rhône, como o Châteauneuf du Pape Reine Jeanne 2013 (U$ 99,50) e o fantástico Châteauneuf-du-Pape Blanc 2013, um branco de uvas grenache blanc, clairette, roussanne e bourboulenc. É caro: U$ 127,90. Mas também chegou ao Brasil o Côtes de Ventoux 2014, feito de syrah e grenache, leve e agradável, ao preço de U$ 22,90. Por sinal, um preço parecido com o da nova linha da Guaspari, o Vale da Pedra, que terá vinhos de entrada ao preço de R$ 80,00.

Provei o syrah e senti o vinho bem frutado, toques leves de especiarias, igualmente leve no paladar por conta do tanino mais suave, mas também refrescante. Um vinho fácil de beber!

 

Numa ida à cidade de São João da Boa Vista (SP), quando visitei o quase mítico restaurante O Leão Vermelho, levei um syrah que considero muito especial, o Schist Syrah da sul-africana Mullineux, que é importado pela Qual Vinho e custando cerca de 420 reais. Já falei dele aqui no blog. Produzido na região de Swartland, sua história lembra a dos Guaspari. Numa inspeção aérea da vinícola, Chris Mullineux percebeu uma clara divisão de solo em sua plantação de syrah.

A constatação o levou à produção de dois vinhos: o Schist Syrah, onde no solo predominava o xisto, e o Granite Syrah, com solo de granito. Igualmente, são vinhos de percepção sutil de diferenças. Às vezes, um sai melhor que o outro. O Schist foi harmonizado com uma rabada preparada por Gabriel Vidolin, e saiu-se logicamente bem. Tem corpo e estrutura, e na comparação com os brasileiros, me pareceu um meio-termo entre eles, reunindo o melhor de ambos. Tem os taninos e a untuosidade do Vista da Serra, mas com a elegância do Vista do Chá. Esta seria, para mim, a melhor comparação, já que o francês provado não era assim tão “premium”.

A experiência de provar vinhos dessa variedade num curto espaço de tempo me deixou totalmente seduzido e apaixonado pela syrah. Embora fique em segundo plano em relação a Bordeaux e Borgonha, o Rhône me mostrou vinhos muito nobres, e a syrah se tornou sua principal embaixadora no Novo Mundo. Melhor ainda poder beber um belo vinho produzido aqui, no estado de São Paulo.

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Edgard Reymann

Jornalista que está atualmente dedicando suas atenções para o vinho e para a gastronomia

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