Steven Wilson: Carioca Club

Ícone atual do rock progressivo satisfeito com o sucesso em sua terceira passagem pelo país, que aconteceu em março deste ano

Postado dia 11/05/2016 às 07:30 por Guillermo Gumucio

 

Foto: Elayne Diniz - Show de Steve Wilson no Carioca Club

Foto: Elayne Diniz

A turnê dos discos Hand. Cannot. Erase e 41/2 (Kscope, 2015 e 2016, respectivamente) do músico e produtor inglês Steven Wilson chegou ao Brasil em apresentação única, no Carioca Club, no dia 20 de março. Sem dúvida, a decisão se baseou no público presente nas capitais agraciadas com as duas turnês anteriores, dos discos Grace for Drowning e The Raven That Refused to Sing (leia a nossa resenha do disco aqui), que ficou aquém do esperado. Desta vez, o público que não reside na cidade de São Paulo precisou se deslocar até a casa de espetáculo nas imediações do metrô Faria Lima para prestigiar o atual queridinho, com todos os méritos, do rock progressivo, ou seja lá o que o gênero represente nos dias de hoje.

Steven Wilson tem uma carreira notável que se iniciou em 1983 com o projeto Karma, mas só ganhou projeção internacional no início da década de 2000, com a repercussão dos discos In Absentia (Lava Records, 2002) e Deadwing (Lava Records, 2005), do Porcupine Tree, conjunto totalmente capitaneado pelo músico e que o colocou no primeiro escalão do progressivo contemporâneo e no roteiro dos principais festivais de rock do mundo, mas que está com suas atividades paralisadas e futuro incerto.

Foto: Elayne Diniz - Show de Steve Wilson no Carioca Club

Foto: Elayne Diniz

Se na turnê de Grace for Drowning (e também nas do Porcupine Tree a partir de Fear of a Blank Planet) que passou pelo Via Marquês na capital paulistana, havia um aviso da produção do artista com o pedido expresso de o público não usar o telefone celular durante toda a duração do espetáculo, o que foi possível constatar no último 20 de março contrastava absolutamente com esse cenário. Tudo faz sentido, na verdade: Wilson não só está abarcando um público cada vez maior e mais diversificado com discos menos experimentais, mas a sua atitude perante as tecnologias e o grande público parece ter mudado. Para um artista que promoveu o disco de estreia da sua carreira solo (Insurgentes, em 2008) com vídeos no YouTube mostrando uma série de formas criativas de destruir um iPod e via a necessidade de rogar à plateia que ficasse off-line por cerca de duas horas de show, a onda a ser surfada no momento é muito mais flexível. De certa forma, já podia ser notada certa contradição, pois as cenas de destruição de aparelhos iPod estão todas em Insurgentes (dir. Lasse Holie, 2009), documentário que retrata o período de gravação do disco e é definido pelo próprio Wilson em cena como “um filme sobre como é ser um artista no século XXI”. O que ficou claro no Carioca Club é que o período de luto com as novas tecnologias parece findo para Steven Wilson.

Foto: Elayne Diniz - Show de Steve Wilson no Carioca Club

Foto: Elayne Diniz

Ao contrário do que reza a cartilha da apresentação de discos conceituais, Wilson não executou Hand. Cannot. Erase. com foco pleno na execução do disco na íntegra, mas realizou uma série de intervenções entre as músicas para interagir com o público ou apresentar os músicos da banda. Aos não iniciados, pode parecer uma sutileza sem importância, mas causa estranheza ver a interpretação de um disco inspirado no caso noticiado pela imprensa inglesa de Joyce Vincent, uma jovem encontrada morta em seu próprio apartamento (o qual pertencia a uma associação de assistência a vítimas de violência doméstica) apenas três anos após o óbito, com a profusão de informalidades esbanjada por um Steven Wilson de ótimo humor. Era tão notória a diferença entre o atual estado de graça do músico e a história contada pelo disco que Wilson resolveu explicitar, caso alguém ainda não tivesse entendido: “Vocês acham que eu sou um cara depressivo? Eu adoro músicas depressivas, mas sou muito feliz”. Claro, isso é realmente o que faz um artista. Afinal de contas, o intérprete de Othello não precisa ter um destino igualmente trágico, e Wilson ratifica o rótulo de verdadeiro artesão do rock contemporâneo dessa forma. Contudo, a abordagem sem amarras não deixa de retirar um pouco do prazer da fruição do primeiro ato do espetáculo por parte do público presente.

Após o intervalo que separa Hand. Cannot. Erase. do restante do espetáculo, era hora de conferir o que Wilson traria para agradar um público que não está exatamente ali entre a Queen Caroline Street e a Fulham Palace Road, portanto, não tem muitas oportunidades de prestigiá-lo. Já no início, uma grata surpresa: uma versão de “Drag Ropes”, música do projeto Storm Corrosion com o sueco Mikael Åkerfeldt (mais conhecido pelo seu extenso trabalho com o Opeth). A faixa tem o mesmo tom sombrio e ao mesmo tempo gracioso de várias das faixas de The Raven That Refused to Sing (And Other Stories). Mesmo com um andamento pouco acelerado e orquestração propositadamente tímida, funciona bastante, na medida em que corrobora com o universo perverso recém-retratado no primeiro ato.

Foto: Elayne Diniz - Show de Steve Wilson no Carioca Club

Foto: Elayne Diniz

Mas foi na sequência, “Open Car”, que começou a se levantar a suspeita de uma grande oportunidade deixada para trás. A faixa, um rock dos mais básicos feitos na época de grande sucesso com o Porcupine Tree, pode até fazer com que algumas cabeças sejam balançadas, mas destoa demais do restante do trabalho apresentado. Com a inclusão já esperada de mais quatro faixas do EP 41/2, por ser também o disco de trabalho da turnê e último lançamento do artista, Wilson desperdiçou o tempo restante com faixas que pouco tinham a acrescentar a uma suposta e interessantíssima tese (a solidão fatal nos grandes centros urbanos, a inércia da juventude contemporânea), como “Open Car” e “Sound of Muzak”. O problema com esta não é a sua estrutura radiofônica da canção ou a sua inspiração oriunda diretamente dos melhores registros do cantor Seal, mas o clima excessivamente simplório e festivo que não servindo como associação com a fase mais recente do artista, também não serve como contraste.

Foto: Elayne Diniz - Show de Steve Wilson no Carioca Club

Foto: Elayne Diniz

O critério falho para a escolha do repertório do segundo ato chegou ao cúmulo de privilegiar aquela que provavelmente configura a faixa menos adequada de Fear of a Blank Planet (Roadrunner, 2007), disco de associação natural com Hand. Cannot. Erase., para a ocasião: “Sleep Together”, que pende claramente para um industrial inspirado em Trent Reznor. Difícil prever que um fã preferiria “Sleep Together” a qualquer outra faixa da impecável bolacha sobre uma adolescência pós-Columbine que “passeia por lojas de um shopping center feita zumbi”.

“Lazarus”, revivida em regravação do ano passado na coletânea em vinil duplo Transience (e também replicada em David Gilmour & Friends, disco que acompanhou a edição de outubro de 2015 da revista MOJO), foi outra escolha que não encontrou qualquer diálogo na carreira solo de Wilson e ficaria mais confortável em uma muito bem-vinda visita eventual da dupla Blackfield com o roqueiro israelense Avi Geffen do que na ocasião em São Paulo. Alguns minutos esperados de improviso vieram com “Don’t Hate Me”, uma constante dos shows do Porcupine Tree relembrada nesta turnê. Mesmo profundamente melancólica, fez com que o público fizesse coro no refrão e não desaminou com bons solos dos instrumentistas.

“My Book of Regrets”, esta sim uma inserção feliz que aliava divulgação e sintonia com uma curadoria visando ao espetáculo, quem diria, contou até com um momento digno de um show comandado pelo típico vocalista de heavy metal: gritos pontuais nos silêncios rushianos (“Cygnus X-1” ou “By-Tor & The Snow Dog”, por exemplo) no segmento intermediário da música. A ótima recepção do momento mais pesado pelo público no Carioca Club serviu para corroborar como seria apropriada a inclusão de faixas que flertam bastante com o heavy metal como “Cheating the Polygraph” (de Nil Recurring, EP de 2007 espécie de coda de Fear of a Blank Planet), “The Start of Something Beautiful” (que poderia substituir “Open Car” como representante de Deadwing na noite) ou até mesmo “Luminol” (de The Raven That Refused to Sing), já apresentada na primeira visita do músico ao Brasil.

Chega a hora de “Vermillioncore”, muito semelhante a outras faixas instrumentais de sua autoria no Porcupine Tree, mais particularmente, “Mother and Child Divided” e “.3”. Repare em como as dinâmicas são praticamente idênticas e a função dos sintetizadores é a mesma nas três faixas. Talvez não seja mera coincidência a semelhança entre as duas garotas estampadas na capa de 41/2 (imagem que reluzia no telão no fundo do palco quando da execução de “Vermellioncore” no Carioca Club, inclusive) e a imagem da projeção exibida em “Mother and Child Divided” na turnê do disco Deadwing, momento que pode ser conferido no DVD Arriving Somewhere… (Kscope, 2008).

Após a avaliação manifesta de que seria “a melhor coisa que já escreveu”, na opinião do próprio, soaram as notas de “The Raven That Refused To Sing”, o número derradeiro da rápida passagem de Steven Wilson pelo Brasil em 2016.

O critério discutível para a seleção do repertório não prejudica a avaliação óbvia e natural de que Steven Wilson é um representante diferenciado no rock atual. Averso a modismos e com álbuns que são sinônimos de projetos de escalas cada vez maiores, Wilson já traçou uma trajetória bastante interessante até aqui, mas o futuro, ainda que de difícil previsão, está apenas em suas mãos. Se há algo que ficou claro neste show em São Paulo é que o músico britânico está conseguindo apenas agora, perto dos 50 anos de idade, permanecer no nicho do rock progressivo e ao mesmo tempo conquistar um público situado um pouco além da bolha de fanáticos pelos clássicos ou cavadores de relíquias do rock islandês.

Foto: Elayne Diniz - Show de Steve Wilson no Carioca Club

Foto: Elayne Diniz

O cuidado com todos os detalhes do espetáculo sempre foi uma característica de Wilson ao longo de toda a sua carreira. Isso não se reduz à escolha de instrumentistas do mais alto escalão. O protagonista da noite chegou a pedir desculpas pelo palco não ter as dimensões apropriadas para a exibição mais apropriada do telão. Entre os músicos da banda, o grande destaque, sem dúvida, ficou para Craig Blundell. Marco Minnemann e Guthrie Govan (baterista e guitarrista, respectivamente) gravaram boa parte do material da carreira solo de Wilson e o acompanharam nas últimas turnês, mas saíram no fim da turnê europeia para honrar datas do The Aristocrats. Blundell não só superou a difícil missão de substituir o carismático Minnemann, como suou a camisa e esbanjou vontade ao longo das duas horas e meia de show. Dave Kilminster, que está na banda de Roger Waters há oito anos, tinha uma tarefa igualmente árdua, mas ficou a impressão que desbancar o impecável Govan não é algo que acontece todos os dias. O baixista Nick Beggs acompanha Wilson há anos e é sempre perfeito na execução, praticamente um braço direito do frontman. Finalmente, ainda que Adam Holzman preencha o campo com seus teclados, não houve como não sentir a falta de Theo Travis nos metais.

Apenas um fã que residisse em Marte desde o início de 2016 ficaria surpreso com a versão de “Space Oddity” já no bis. Sendo Bowie extremamente popular entre o público de rock em São Paulo, o tributo foi bem recebido, mas houve quem questionasse a contradição em prestar homenagem ao conterrâneo dessa forma, já que as palavras do próprio Wilson no palco para apresentar e justificar o número foram que “Bowie foi um artista que nunca olhou para trás”. De qualquer forma, a versão de “Space Oddity” com a imagem do camaleão projetada no telão nesta turnê e sua disseminação no YouTube foi uma tacada inteligente para que Wilson continue ampliando as fronteiras de recepção de sua música. A conferir como esse novo universo influenciará o seu trabalho vindouro: continuar na abordagem atual, histórias sinistras sendo contadas em paletas de cores e dinâmicas variadas? Resgatar a fusão da música pop com o progressivo? Refutar a popularidade corrente e se voltar para o experimentalismo que já permeou vários momentos diferentes da sua carreira? Talvez nem Wilson tenha as respostas agora, tampouco as queira ter neste momento. E talvez “obedecer o coração” seja uma diretriz um tanto quanto piegas, mas que provoca ótimos resultados em uma determinada classe de artistas na qual Steven Wilson parece estar bastante confortável.

 

 Steven Wilson (Carioca Club, 20 de abril de 2016)

1º Ato (Hand. Cannot. Erase.)

First Regret

3 Years Older

Hand Cannot Erase

Perfect Life

Routine

Home Invasion

Regret #9

Transience

Ancestral

Happy Returns

Ascendant Here On…

 

2º Ato

Drag Ropes

Open Car

My Book of Regrets

Index

Lazarus

Don’t Hate Me

Vermillioncore

Sleep Together

 

Bis:

Space Oddity

The Sound of Muzak

The Raven That Refused to Sing

 

 

Hand. Cannot. Erase. e 41/2 podem ser podem ser adquiridos na página oficial do artista e no iTunes.

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Sobre o Autor

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Guillermo Gumucio

Professor de Jornalismo e Linguagem Audiovisual na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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