Sobre redes, erros e o quanto ainda temos a percorrer         

Quando a realidade é nebulosa, a ficção científica elucida

Postado dia 01/09/2016 às 08:53 por Guillermo Gumucio

akphaville

Anna Karina e Eddie Constantine em Alphaville (1965)

[Fala de abertura da mesa “Estratégias de comunicação em redes sociais” do II ECAT – Encontro de Comunicação do Alto Tietê, realizado em 9 de abril de 2016 na Escola Estadual Dr. Washington Luís, em Mogi das Cruzes]

Ainda que na função de representante da academia nesta mesa, resistirei à citação de estudiosos e teóricos (que é tão-somente o que nós professores fazemos, não é mesmo?) para trazer alguns questionamentos en passant e, por que não, algumas provocações também. Pero no mucho. Fui informado de que a ocasião se trata de um encontro que privilegia o botar a mão na massa, o labor como produto tanto do aprendizado formal quanto do conhecimento empírico, o que não poderia me agradar mais nesta manhã de sábado. Então, promessa: serei absolutamente pragmático nos próximos dez minutos, como constatarão não só pela abordagem, breve e simples, mas também pela profusão de exemplos oriundos de obras de ficção científica, esse gênero tão útil para analisar qualquer “realidade”, quando esta começa a se tornar cada vez mais complexa e imprevisível.

Quando penso em estratégias de comunicação em ambientes virtuais, vejo que temos duas limitações às quais devemos nos ater antes de qualquer outra coisa. Primeiramente, de modo geral, qualquer profissional de comunicação que preste seus serviços a um cliente, seja ele público ou privado, se vê cercado pelas fronteiras da intenção de quem encomendou tais serviços. O que equivale a dizer que o candidato ou governante que não trabalha no sentido de melhorar as condições de vida dos cidadãos, mas se utiliza das redes sociais como mero exercício de culto da sua personalidade, apenas reproduz o carregar e beijar a fronte do bebê no colo na tela dos telefones celulares e outros dispositivos.

Em segundo lugar, há a questão das ferramentas utilizadas no ofício. Ora, como músicos que acompanham Piazzolla, podemos usar o piano ou o contrabaixo como instrumentos de percussão, isto é, novas formas de aproveitar o que temos em mãos. E no caso do músico argentino, definitivamente o faríamos, já que é o chefe que manda. Entretanto, as ferramentas não são desenvolvidas por comunicólogos, mas por pessoal técnico que presta sua familiaridade com o código binário para facilitar a nossa vida.

Lições do mestre

alphaville (1)No que tange a recepção, poderíamos nos estender por dias trancados nesta sala para apenas introduzir a infinidade de problemáticas amplamente constatadas nesse âmbito na atualidade, apenas em nossa região. Prefiro, nesta ocasião, trazer a memória de um mestre. Muitas das representações usadas para criticar a sociedade em Alphaville, de Jean-Luc Godard, sempre ele, o médico geral que nos dá as mesmas recomendações todos os anos (saia do sedentarismo, coma melhor, não se estresse à toa e seja feliz) não resistiram ao teste do tempo e pouco depois de 1965 já aparentavam datadas em sua forma.

Exceto uma representação. Os condenados, por não se adequarem à vida em Alphaville, essa cidade que não tolera o incomum e em que todos são iguais, são enfileirados na prancha de uma piscina, lhes é concedida a extraordinária liberdade de proferirem algumas últimas palavras, e são metralhados por um robô, caindo na piscina.

Ato contínuo, mulheres em trajes de banho, muito semelhantes a figurantes de um típico musical da era de ouro, mergulham na piscina para apunhalarem os corpos recém-alvejados. A mensagem de Godard não poderia ser mais clara: tudo pode virar entretenimento, e graças a ele e muitíssimos, porém insuficientes para reverter o processo em questão, outros artistas e estudiosos, sabemos disso há muito tempo.

Trinta anos depois, a mesma ideia seria um dos fios condutores de uma grande obra sobre os nossos tempos. Em Graça Infinita, David Foster Wallace, ele próprio um cinéfilo assumidíssimo, concebe uma trama tão labiríntica quanto satírica em que um cineasta excêntrico e decadente realiza o seu último filme, intitulado “Entretenimento”, e que seria tão poderoso, mas tão poderoso, que qualquer espectador é levado a óbito ao seu término.

Afinal, o que queremos com as redes sociais? Queremos ser a máquina fuziladora, o condenado, a nadadora que se assegura da morte, o público, incauto ou não, desse espetáculo?  Ou queremos um conteúdo que, seja qual for seu fim, desperte pelo menos a reflexão de todo e qualquer cidadão? Evidente, enfrentamos barreiras intransponíveis no presente e no futuro próximo, principalmente no continente sul-americano, que, me parece, sempre teve problemas mais urgentes para retificar, como a fome e a miséria latentes.

 

Comunicação para a mudança

Não obstante, a comunicação também deve tratar de promover a mudança, aliando-se a agentes interessados nesse objetivo. Infelizmente, parece que vamos perdendo ótimos colaboradores de gerações passadas que tanto têm a contribuir, mas se frustram quando constatam que não somos muitos os jovens que enxergamos na comunicação como catalisador de benfeitorias reais.

Acredito que, fosse diferente, Philip Roth, o laureado autor de Newark, quiçá o último escritor de ofício em língua inglesa, sentiria, no auge de seus mais de oitenta anos, o mais irresistível afã de desenvolver algo que explicitasse o admirável mundo nem tão novo assim da comunidade virtual. Roth, pelo contrário, após a novidade da sua aposentadoria chegar aos ouvidos da imprensa internacional, foi cínico a ponto de dizer que estava, do contrário, produzindo um texto realizado com Amelia, a filha de uma de suas ex-namoradas, por e-mail. Amelia tinha oito anos de idade quando do anúncio, em 2013[1].

Que tipos de redes sociais virtuais queremos? Será que apenas porque sou publicitário quero uma rede confortável em sua própria bolha e uma mera vitrine de produtos mais semelhante a um centro de compras do que um local apropriado para a disseminação do conhecimento? Apenas porque sou um livre pensador quero que reine a liberdade total de expressão, inclusive com eventual prejuízo da honra de outrem pela minha fala? Falando nisso, qual o limite e a relação que devem ser estabelecidos entre o texto do emissor e a compreensão do receptor? Para o publicitário, continua valendo a regra de que, se o seu público o considerou ofensivo, de modo geral, isso não é benéfico para a sua marca/produto/cliente. No que tange o repórter, idem.

Não é o foco do nosso encontro, mas não resisto à provocação: e quanto ao humor? A Cauda Longa não deveria também nos munir do poder do cinismo e da ironia ao nosso bel prazer? Temos algum compromisso dessa prática sem o auxílio fácil de “érre-ésses” (“rs”), “rá-rá-rás” (“hahaha”) ou “cá-cá-cás” (“kkk”). Passo por esta reflexão para ratificar que, pelo menos nesse âmbito, o comportamento deveria ser o mesmo para aqueles que exercem algum papel na comunicação de um meio ou cliente. Ainda assim, os exemplos malsucedidos não cessam, seja pela miopia quanto ao que há além das quatro paredes de uma agência, seja pelo mais puro desleixo com o ofício.

Não posso deixar de me surpreender quando, na atual conjetura, uma cervejaria agride uma parcela considerável de seu público com uma mensagem de gosto discutível no feriado de carnaval. Ou quando, no intuito de transmitir segurança aos usuários de metrô do sexo feminino, o cartaz estampa brutamontes enfileirados e com uma expressão nada amigável como os mais ícones mais casca-grossa da luta livre.

 

Trem nazista em Nova York

Por coincidência, produzo atualmente um artigo acadêmico sobre uma série produzida pela Amazon que é uma adaptação de O Homem do Castelo Alto, do autor de ficção científica Philip K. Dick[2]. Na obra, a Segunda Guerra é vencida pelos nazistas, que dividem o território dos Estados Unidos com o império japonês. Pois bem, os responsáveis pela promoção do produto televisivo acharam seria uma boa ideia transformar um trem inteiro da linha metroviária de Nova York, a maior colônia de judeus do Ocidente, para servir de cenografia publicitária da série, com assentos cobertos com imagens de inspiração nazista, inclusive o emblema da águia, entre outros símbolos do Reich e do Japão imperial da produção pelo espaço físico dos vagões.

As reclamações de usuários da linha S do metrô de Nova Iorque não demoraram a se manifestar e, ainda mais surpreendente, a campanha foi retirada pela companhia que opera o metrô sob ordem do prefeito da cidade e do governador do estado, e não porque os responsáveis (a Amazon ou qualquer agência de publicidade responsável pelo feito de mau gosto) fizeram algo a respeito, mesmo a par da reação do público[3][4].

Trago esses exemplos malsucedidos não porque seja um pessimista na certeza de que os nossos convidados terão um bom senso mais apurado do que o meu e exporão projetos dos quais têm orgulho em falar.

Por outro lado, voltando às dificuldades impostas em matéria de instrução e repertório, me parece emblemático o recente caso em que uma parcela do público tenha reclamado de uma campanha (ainda sendo veiculada, inclusive) que fazia um trocadilho com o nome da instituição bancária por meio da semelhança fonética entre palavras com final com a letra “u” e “l”.

Para encerrar, e sempre lembrando em ater-me ao conceito aristotélico que nos recorda de não termos a ridícula pretensão de alcançar qualquer plenitude intelectual e, ao mesmo tempo, ciente do caráter pragmático do nosso encontro de hoje, gostaria, após a série de colocações que, ao fim e ao cabo, espero que acrescentem à nossa mesa, ainda que pouco ortodoxas, trazer à baila algo de natureza mais jovial, no perigo de ser alcunhado de fanfarrão pelos colegas aqui presentes.

No divertido Guia do Mochileiro das Galáxias, Douglas Adams escolhe como real protagonista de sua estória uma paródia da Enciclopédia Galáctica de Isaac Asimov, o próprio guia do título da série de cinco livros. Como muitos de vocês devem saber, qualquer um que tenha lido pelo menos um dos livros da série encontra fácil analogia entre a Enciclopédia Galáctica, o Guia do Mochileiro das Galáxias e a Wikipedia. Bem, a questão é que, em pleno 2016, a Wikipedia ainda não se sentiu compelida a estampar na sua página inicial não o aviso da capa do guia fictício de Douglas Adams, “não entre em pânico”, mas uma informação tão verdadeira quanto crucial para descrever em que estágio da compreensão da interação entre redes cibernéticas nos encontramos.

Quando vem a conhecimento do terráqueo Arthur Dent que o projeto do pesquisador alienígena Ford Prefect envolvia agregar mais conteúdo ao verbete “Terra” do Guia do Mochileiro das Galáxias, Dent tem a sua curiosidade atiçada e pergunta qual era a descrição atual do planeta em que vivemos. O pesquisador responde que a entrada “Terra” no Guia, até aquele momento, apresentava apenas o texto “Inofensiva”. Prefect explica que, com seus muitos anos de pesquisa de campo, já contribuíra para que os outros planetas tivessem uma ideia mais acurada sobre a Terra. Com sobriedade, contou que agora o verbete lia “Praticamente inofensiva”.

 

REFERÊNCIAS

[1] PHILIP Roth: “I don’t wish to be a slave any longer to the stringent exigencies of literature”. Le Monde. [S.l.]: Le Monde, 2013. Disponível em: <http://www.lemonde.fr/livres/article/2013/02/14/philip-roth-i-don-t-wish-to-be-a-slave-any-longer-to-the-stringent-exigencies-of-literature_1831662_3260.html>. Acesso em 8 abr. 2016.

[2] Tal artigo foi apresentado no Intercom Sudeste, ocorrido após a ocasião do II ECAT 2016, e pode ser conferido aqui.

[3] ‘MAN IN THE high castle’ subway ads, featuring Nazi symbols, removed from trains. CBS New York.  Nova Iorque: CBS, 2015. Disponível em: <http://newyork.cbslocal.com/2015/11/24/man-in-the-high-castle-subway-ads/>. Acesso em 8 abr 2016.

[4] NAZI-INSPIRED inspired ads for the Man in the high castle pulled from New York subway. The Guardian. [S.l.]: Guardian, 2015. Disponível em: <http://www.theguardian.com/us-news/2015/nov/25/nazi-inspired-ads-for-the-man-in-the-high-castle-pulled-from-new-york-subway>. Acesso em 8 abr 2016.

Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Guillermo Gumucio

Professor de Jornalismo e Linguagem Audiovisual na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter