Sobre poder público e cultura

Acredito que artistas e produtores culturais deveriam aprender a se virar efetivamente sozinhos e sem nunca se deixar corromper, do contrário serão sempre presas fáceis de empreitadas envolvendo negociatas milionárias e marketing

Postado dia 01/12/2015 às 00:00 por Peterson Queiroz

Com grande surpresa recebi um convite para compor algo chamado Câmaras Setoriais de Cultura na cidade de Suzano. Recusei-me. Porque trata-se do poder público deliberadamente escolhendo outra vez como, quando e com quem vai conversar sobre o que quer que seja –  ainda mais dado que este é o último ano de mandato (e, portanto, já um ano de campanha eleitoral em que eles são obrigados a ao menos fingir que realizaram algum investimento em Cultura). Assim, no raciocínio pragmático peculiar das pessoas amarradas neste tipo de situação (remuneradas mais pra isso do que para servir ao povo), nada mais justo do que eles escolherem bem quem, entre os artistas, é corruptível o suficiente para se vender e trair seus pares por uns míseros trocados que sejam.

Afinal, o modus operandi já é clássico em nosso país e não só na área da Cultura: primeiro sucateia-se tudo até que não haja mais qualquer perspectiva de trabalho no setor (com ou sem dinheiro público envolvido), em seguida, com a miséria implantada, escolhe-se a dedo quem é capaz de qualquer coisa para defender um projeto que exclui aos principais interessados (trabalhadores e população) em troca de uma ou outra migalha caída de cima da mesa do grande banquete, virando as costas para colegas ao lado de quem costumavam caminhar juntos antes. Assim, seguimos nossa triste sina de descaminhos e estagnação nas mais diversas áreas e, de modo muito implacável, na área da Cultura que, juntamente com a Educação, merece especial atenção por parte dos altos escalões de poder de municípios, estados e mesmo do país – afinal, pra que correr o risco de sentir na pele aquele ditado espanhol que diz que não se deve criar corvos porque eles lhes bicarão os olhos depois, não é? Agora, um breve histórico pra que fique ainda mais clara a falta de compromisso por parte de uma Secretaria de Cultura para com a população a quem deveria atender:

Em 2012, no apagar das luzes da gestão anterior e após quatro anos de negociações representando o segmento das pessoas interessadas em desenvolver o Cinema e o Audiovisual não apenas na cidade como em todo o Alto Tietê (no extremo leste metropolitano paulista), finalmente foi inaugurado um projeto tímido (mas revolucionário): o Estúdio Público de Cinema de Suzano. Depois de ter trazido Carlos Reichenbach, Zé do Caixão, Sara Silveira, Paulo Betti e Caio Blat para cidade (entre outros monstros sagrados de nosso cinema nacional), finalmente teríamos oito meses para produzir o que quiséssemos (não sabíamos que eram apenas oito meses, pois confiávamos na reeleição da administração da época, o que acabou não acontecendo). Caio Blat mesmo disse a nós todos que, naquela época (hoje existem vários, alguns inclusive se inspiraram neste meu projeto, em várias cidades do país), nunca havia visto algo tão revolucionário. Pois, tão logo a atual administração desta cidade assumiu, eles já enfiaram um cadeado lá e o mantém fechado até os dias de hoje, passados quase quatro anos (ouvi dizer outro dia que o local já tinha virado depósito de pinturas exatamente como era antes de ter sido reformado e equipado para a produção audiovisual de um modo totalmente democrático e aberto para quem quisesse produzir filmes na cidade – o que aconteceu no breve período em que estive à frente dele, até o término do mandato). Então, que lições tirei disso como artista e produtor independente e autoral?

A principal delas é que não é mais possível acreditar em ilusões. Também acredito que artistas e produtores culturais deveriam aprender a se virar efetivamente sozinhos e sem nunca se deixar corromper, do contrário serão sempre presas fáceis de empreitadas envolvendo negociatas milionárias e marketing (seja político ou envolvendo empresas que faturam milhões com a terceirização criminosa das ações culturais executadas de modo precário e enganoso – como a da atual secretaria de cultura de Suzano, por exemplo). E também aprender ainda que a crise de representação político partidária generalizada sempre costuma sangrar, sem dó, sonhadores desavisados (como os trabalhadores da Cultura, de um modo geral, em qualquer lugar do país).

Em tempo: acabei de lançar hoje minha campanha de arrecadação de fundos para cobrir gastos com a produção de um curta produzido junto a artistas lutadores sem qualquer apoio ao seu trabalho de quem quer que seja, assim como eu. Eu pessoalmente não vou recolher um centavo deste dinheiro, porque assim o valor arrecadado não seria suficiente para “remunerar” minimamente o generoso trabalho dos atores e nem ressarcir a equipe que tirou do próprio bolso os custos de alimentação, gasolina, produção de arte, etc. Era um curta-metragem, mas com mais um dia de filmagem em externas creio que, como resposta a tanto descaso e desrespeito com os artistas e trabalhadores da Cultura da cidade de Suzano (e acho que também posso dizer das cidades vizinhas, onde mais ou menos acontece a mesma coisa), o filme será o primeiro longa-metragem a ser lançado em nossa região sem qualquer apoio público ou privado e, portanto, totalmente independente e coproduzido por pessoas que se sensibilizam com nosso descaso e que sabem fazer a diferença quando é necessário. Então, agradecerei infinitamente se alguém puder colaborar (em quaisquer das modalidades disponíveis, bem acessíveis por sinal). Ajude-nos a dar uma resposta artística à exploração e ao sucateamento da Cultura não apenas em Suzano e região, mas na esmagadora maioria das cidades de nosso país. O link é este:

http://www.banque.com.br/campanhas/triangulo-escaleno-curta-metragem

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Sobre o Autor

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Peterson Queiroz

Peterson Queiroz é cineasta, ator e dramaturgo. Estudante de filososia e amante de literatura beat.

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