Sobre investimentos ou sobre a vida?

Nas finanças ou em outras áreas da vida, segue-se uma lógica comportamental que tendemos a manter investimentos perdedores enquanto saímos muito rápido de ativos ganhadores. Curioso, não é?

Postado dia 18/11/2016 às 09:00 por Elton Parente

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Foto: Reprodução

VOCÊ PERDEU E CONTINUA MANTENDO…

Nas finanças ou em outras áreas da vida, segue-se uma lógica comportamental que tendemos a manter investimentos perdedores enquanto saímos muito rápido de ativos ganhadores. Curioso, não é?

Para pensar em tudo que você já fez na sua vida, quantas vezes você ganhou algo um pouco acima do previsto e ficou feliz da vida, contando vitória aos quatro ventos, ou aquele amigo que no primeiro mês de salário do novo emprego comemora trocando de carro.

Agora pensa, nos momentos que surgiu no cenário da sua vida uma perda e você se ressentindo daquilo, resolveu manter o investimento, o negócio ou a sociedade que você tinha confiando que você ia recuperar o investimento, mas essa recuperação não veio, e a perda na verdade acabou aumentando.

Estudando finanças comportamentais aqui no doutorado que estou fazendo, os pesquisadores chamam isso de efeito disposição, onde o investidor tende a manter investimentos perdedores enquanto vende com maior brevidade os ganhadores, e abordando a tendência de muitos investidores operarem seus investimentos ativamente.

Segundo os autores, portanto, o efeito disposição é a propensão dos investidores para vender ações “vencedoras” (que obtiveram ganhos) e manter os papéis que perderam valor. A denominação é atribuída a Shefrin e Statman (1985), que explicam o efeito disposição por duas características da Teoria dos Prospectos: a ideia que as pessoas estimam ganhos e perdas a partir de um ponto de referência (o preço inicial de compra das ações), e a tendência à exposição ao risco quando um certo ganho for possível.

No contexto do efeito disposição, o viés do status quo aparece no momento em que as pessoas decidem não vender (ou seja, “não fazer nada”) suas ações perdedoras, acreditando que em algum momento no futuro os preços irão retornar ao ponto de referência que eles guardam como resultado de uma contabilidade mental.

O efeito disposição está fundado em um modelo que se sustenta em quatro grandes elementos: a teoria do prospecto (prospect theory), contabilidade mental (mental accounting), aversão ao arrependimento (regret aversion) e autocontrole (self-control). A teoria do prospecto prevê uma disposição para vender vencedoras e manter perdedoras quando os rendimentos obtidos são mantidos, ao invés de entrar em uma nova aposta. O investidor ao acreditar que recuperará as perdas, acaba por assumir um risco ainda maior e potencializar as chances de elevar suas perdas ainda mais.

Sobre a contabilidade mental, se trata de um sistema de controle interno utilizado pelos indivíduos para avaliar, regular e realizar seus processos pessoais. Os tomadores de decisões se valeriam dela para fins de configuração de seus pontos de referência para os valores que determinam ganhos e perdas. Relacionando os fundamentos da teoria do prospecto sobre ganhos e perdas com a contabilidade mental, os pesquisadores destacam que os tomadores de decisões muitas vezes deixam de considerar as interações existentes entre as diversas apostas ou investimentos, podendo elevar as chances de ocorrência do efeito disposição.

Segundo Brad Barber e Terrance Odean, pesquisadores de finanças comportamentais, o efeito disposição pode, portanto, ocorrer em função do estabelecimento de pontos de referência, baseado no preço pago pelo investidor no ato da compra da ação, apontando para um viés de ancoragem, comum em decisões de investimento. Os investidores tendem a ser influenciados pelo viés da ancoragem quando operam com compra e venda de ações, uma vez que o preço de referência que viram no passado ou que já operaram anteriormente tende a ficar em sua mente, podendo influenciar suas decisões posteriores. Esse processo de ancoragem pode ser utilizado também para estabelecer limites de ganhos e perdas, estabelecendo metas que o investidor deseja alcançar, de modo a definir pontos de compra e venda de ações e suas estratégias operacionais.

Mas será que isso além de ações também não acontece com os seus investimentos em diferentes áreas da vida? Conta aqui nos comentários o que acha disso.

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Elton Parente

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