Sobre a dor de existir…

“Todas as coisas tem nome/ Casa, janela e jardim/ Coisas não tem sobrenome/ Mas a gente sim/ Todas as flores tem nome rosa, camélia e jasmim/ Flores não tem sobrenome/ Mas a gente sim…” (Gente tem sobrenome – Toquinho)

Postado dia 29/03/2016 às 09:00 por Eliana Figueiredo

Foto: Reprodução/Internet

Foto: Reprodução/Internet

Tomando uma das várias definições de mágica, podemos pensar que ela pode ser entendida como um truque ou trapaça, como ilusionismo, mas também como a arte de agir sobre a natureza produzindo efeitos contrários às suas leis[1].

Podemos trazer essa ideia para as questões do humano, para as questões subjetivas? Ligadas ao mais íntimo de cada um, a mágica não funciona. Não podemos agir sobre as leis do inconsciente, produzindo efeitos contrários às suas leis! O humano não pode ser domesticado, iludido, ter seus sintomas apagados, deletados, como algumas teorias podem crer. E por que?

A Coreia do Sul, sociedade paternalista, tem no mínimo dois grandes problemas: é extremamente competitivo e tem uma das maiores taxas de suicídio do mundo.

Duas cenas. Uma mostra o que envolve um vestibular que seleciona os candidatos adolescentes para uma universidade de elite ou para as menos prestigiadas; outros candidatos simplesmente nada conseguem. O que será que acontece com eles?

Por 12 semanas seus pais, mães e avós, sobem as montanhas até um templo budista, fazendo um ritual de orações, ajoelhados e curvados, segurando lanternas com os nomes dos alunos. No dia da prova, alunos são recebidos com aplausos e abraços. A cidade toda começa a trabalhar uma hora depois do início das provas, para liberar o trânsito e os voos da tarde ficam suspensos por 35 minutos, para que não haja barulho na prova oral de inglês. Uma forte pressão por boas notas, bons empregos, sinônimos de sucesso.

Em outra cena temos o mundo adulto. Empresas modernas em Seul apostam numa forma de ajudar seus funcionários na aceitação dos seus próprios problemas, buscando que eles encontrem um sentido para a vida.

A simulação de seus próprios funerais, com tudo que envolve um funeral, tem até um Anjo da Morte. Eles assistem a vídeos de pessoas que enfrentam problemas e doenças graves, mas se mostram valorizando a vida. O ritual propriamente dito começa com os funcionários vestidos de branco e sentados escrevendo suas cartas de despedidas. Ao som de choros, entram e se deitam em caixões de madeiras, onde cada um abraça sua foto envolvida numa fita preta. Aparece o Anjo da Morte, um homem de preto, com chapéu, que fecha os caixões. Ali eles refletem, num exercício de união, segundo eles, sobre o valor da vida!

Dá mesmo para acreditar que a difícil tarefa de viver, todos os dias, e suportar a nossa existência, a chamada dor de existir, pode ser resolvida com técnicas que valha para todo mundo? Cada um de nós busca a sua receita. Não há um único jeito para todos. Não há mágica!

O que há são formas e destinos que cada um de nós dá à sua pulsão. A pulsão quer se satisfazer, sempre, não importa como. O objeto que ela vai encarnar não importa (corpo, jogos, álcool, drogas, comida, televisão, gadgets etc). Os sintomas denunciam o que vai mal em nós, nosso mal estar. Há sempre um desejo em jogo para cada um, para cada sujeito do inconsciente, e formas de satisfação para cada um. Não há como domesticar a pulsão, ela é sempre parcial e persiste numa busca indefinida, daí sua indestrutibilidade. E dessa dor de existir o poeta bem diz:

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite[2]
[1] www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/mágica
[2] O Que Será (À Flor da Pele) – Chico Buarque:
http://www.vagalume.com.br/chico-buarque/o-que-sera-a-flor-da-pele.html#ixzz449Ecze6j
Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Eliana Figueiredo

Psicóloga há mais de 25 anos, supervisora, associada ao CLIN-a, Atende em consultório particular em Mogi das Cruzes e São Paulo.

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter