Ser mãe de ocupante é ter os olhos brilhando e o coração apertado

Lenina é mãe do jovem Diego, um dos ocupantes de uma escola em São Paulo. Ela nos relata alguns momentos marcantes para ela e alguns dos diálogos que manteve com o seu filho.

Postado dia 07/12/2015 às 00:49 por Wilson ADM

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Esse texto inicialmente foi publicado na página pessoal do Facebook da autora, gentilmente cedido para a Revista Digital Sociedade Pública. Confiira!

Sobre as ocupações das escolas, estou protelando, mas quero deixar meu relato de mãe de adolescente ocupante.

Pela primeira vez vi meu filho de fato envolvido e interessado pela escola e por questões políticas. Vejo surgir nele um senso crítico importante, uma consciência para o que é fundamental e legítimo nessa luta.

E o mais importante, pra mim, é que agora ele pode entender, mais do que racionalmente, as nossas origens, porque nossa família é essencialmente de esquerda, e o que isso significa. De onde vem o nome de sua mãe e se orgulhar disso.

Em mim agora, com ele participando dos protestos nas ruas, um misto de medo e orgulho, revolta (por isso ser necessário) e alegria (por ele poder fazer parte disso).

Alguns diálogos com ele que merecem registro:

Quinta feira, dia 27 de novembro de 2015

Diego: Mãe, amanhã tem sarau ao meio dia lá na escola.
Eu: Que legal, filho. Dá pra você participar e depois vamos pra festa da sua tia.
Diego: Mãe, eu estou te dizendo isso para você participar. Fica dizendo que apoia o movimento, mas ainda não foi nenhuma vez pra ver como está.
Eu: Olhinhos brilhando. 

Em um outro dia, durante um outro protesto:

_ Mãe a gente tá recebendo tanta ajuda, tem ido tanta gente lá. Parece uma invasão dos seus amigos do sítio, um pessoal meio hippie não sei. Devem ser todos da USP.

Quinta feira, dia 03 de dezembro de 2015

Diego: Mãe, estou indo pro Fernão porque de lá vamos pra Marginal fazer um protesto.
Eu às 11h30: E aí filho, tá tudo bem? Onde vc tá?
Diego: Teve bomba, teve borrachada, mas tá tudo bem, agora estamos na delegacia pra protestar contra a prisão de dois ocupantes.

Como apoio mais efetivo, comprei carne para eles prepararem na escola e coloquei o pessoal da UJS em contato para projetar o filme Osvaldão (História do líder da Guerrilha do Araguaia) na escola. Apoiando como posso no momento.

E sigo exercitando a confiança.

 

leninaAutora:
 Lenina Mesquita
Profissão: Massoterapeuta Ayurvédica
Cidade: São Paulo
Filha de pais comunistas, nascida em 78 durante a ditadura militar. Fui mãe aos 18 e hoje me alegro de ver despertar em meu filho a consciência política

 

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