Sem paciência para quem está começando

É bem possível que várias pessoas que agora criticam a Lei Rouanet tenham ido a shows ou espetáculos teatrais caríssimos bancados pela lei e nem se deram conta

Postado dia 16/06/2016 às 08:30 por Cidão Fernandes

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Foto: Reprodução/Internet

Quando comecei a fazer teatro já me avizinhava os 25 anos. Não comecei com 14, 15 ou 16 anos, como acontece com a grande maioria do pessoal, que já percebe em si esse caminho e o segue com coragem. Para mim foi preciso 25 anos perdido no mundo cão pra me achar nesse mundo da arte.

Quando decidi que era isso que queria, nunca mais parei. Sabia que havia ali um tempo a ser resgatado pela minha lerdeza e que só com muita humildade eu conseguiria compreender toda a beleza que a arte causa num ser humano. Desde então lá fui eu entender a minha profissão, as contradições que ela possui e também o quanto de artistas eu realmente achei nessa trajetória. Enfim, fui aprendendo e estou em aprendizado. (Reserve essa informação.)

Pulando um pouco essa linha cronológica e em meio a essa palhaçada em que se tornou a política brasileira recentemente com o golpe institucional imposto a todos nós e arquitetada pelo pseudo presidente Michel Temer, tiveram os artistas que lidar com as idiotices de uma boa parte de pessoas e até mesmo de alguns burroides (seres humanos que são metade metidos a pensadores e metade idiotas)  sobre a tal Lei Rouanet.

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Perceba que os artistas de luta mesmo, sem o apoio da grande mídia, sempre fizeram fortes críticas a essa lei. No governo Lula, quando ainda o ministro era o Gilberto Gil, começou uma consulta pública, tanto pela internet como em centenas de encontros em todo o país. Até os empresários se envolveram, com a intenção de propor reformulações na lei.

Pergunto: você estava em alguma dessas conversas? Não! Claro que não. Esses burroides estavam em algumas dessas conversas? Lógico que não. Aliás, é bem possível que vários tenham ido a shows ou espetáculos teatrais caríssimos com apoio da Lei Rouanet e nem se deram conta.

E aí me pego pensando: por que eu tenho que tentar explicar isso pra pessoas que acham que sabem do que fala? Por que tenho, enquanto meu grupo e eu tentamos sobreviver absurdamente daquilo que descobrimos que é pra nossa vida sem nenhum tipo de apoio, dizer todo o histórico dessa lei sobre a qual nunca nos beneficiamos? Por que temos que ficar “chateados” porque nos chamam de vagabundos e vamos lá retrucar e dizer o nosso valor pra sociedade que prefere nos achar esquisitos ao invés de prestigiar e colaborar para a construção de uma sociedade mais humana, tolerante e amorosa?

E descubro que não temos que nada. Que a arte é maior que nós artistas, maior que os burroides e maior que essa política estúpida por opção que, ao descobrir que os maiores beneficiários da lei são justamente aqueles que apoiaram o golpe e obrigaram o juiz Moro a parar as investigações que mostrariam para sociedade justamente aquilo que criticamos a vida inteira.

Não. Não irei explicar nada pra ninguém. Não tenho obrigação. O que tenho é a minha arte, os meus pra defender e a continuar a lutar para que a população e os artistas se encontrem em momentos mágicos que só quem presencia uma obra artística sabe como é.

Não tenho paciência para quem está começando a ser cidadão e acha que já é sociólogo.

 

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Sobre o Autor

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Cidão Fernandes

Ator, diretor teatral e produtor artístico. Diretor Geral do Teatro da Neura, grupo com 11 anos de trabalhos sediado em Suzano. Militante cultural e curioso.

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