Saudade que não acaba mais

Edição atualizada do obrigatório “Chega de saudade” já está nas livrarias

Postado dia 07/02/2017 às 08:30 por Guillermo Gumucio

 

saudade

João Gilberto e Tom Jobim (Divulgação)

Acompanhar o universo das biografias nas estantes das livrarias virou uma tarefa extenuante. Haja tempo para conferir todas. Além das pessoas públicas do mundo político e celebridades do showbiz, os músicos costumam ser fonte rica de relatos curiosos, desvairados e eloquentes. E foi em 1990 que uma obra sobre um período da maior profusão de talentos musicais, amizades e relacionamentos que se fazem e desfazem e origens das mais variadas estabeleceu um novo padrão para a confecção de biografias.

Chega de saudade foi sucesso imediato de crítica e vendas, com todos os louros para Ruy Castro pelo trabalho de resgate da bossa nova como um movimento fundamental e confluente na história da música popular. Mais de 25 anos depois, o livro ganha edição revisada e atualizada, com o devido tratamento da Companhia das Letras.

A cronologia de Castro sobre a bossa nova não ganhou o status de “leitura obrigatória” por mero acaso. Chega de saudade traz o melhor dos dois mundos almejados por qualquer obra de não-ficção: pesquisa vasta, precisa e muito bem embasada, acompanhada por uma prosa impecável. O fio condutor do raio-x do movimento musical descrito nas mais de quatrocentas páginas não poderia ser outro, tem que ser obrigatoriamente o talento e o gênio de João Gilberto e a sua persistência na busca pelo acorde perfeito.

Foto: DivulgaçãoRuy Castro desmitifica uma série de episódios e crenças a respeito dos bossa-novistas. O autor teve acesso ao catálogo completo de João Gilberto, inclusive as raríssimas primeiras gravações como crooner do conjunto vocal Bando da Lua. Além disso, explica que, ao contrário do que já foi muito pregado, o minimalismo de diversos arranjos de gravações da personalidade de Juazeiro do Norte (principalmente das faixas que compõem o disco que dá nome ao livro) é fruto de restrições orçamentárias aliadas ao martírio ao qual “Joãozinho” submetia os músicos da orquestra encarregada.

Outro fator associado imediatamente à bossa nova são as capas da Elenco e Odeon para uma série de discos, como A bossa nova de Roberto Menescal e seu conjunto ou Bossa balança balada de Sylvia Telles, para citar alguns poucos exemplos, produtos também originários de falta de recursos e pressa para aproveitar a onda favorável ao gênero.

Ainda outro exemplo disso também está na lenda de que o estilo vocal inaugurado pelo compacto Chega de saudade, marca inconfundível de João Gilberto, teria sido consequência de uma restrição, as madrugadas nas reuniões no apartamento da família de Nara Leão. Mas Ruy Castro comprova que isso não poderia estar mais longe da verdade, já que o espaço contava com mais de quatrocentos metros quadrados, dificilmente a atividade dos jovens poderia incomodar alguém.

Indubitavelmente, um dos grandes charmes da obra está na habilidade literária de Ruy Castro a serviço do retrato de um Rio de Janeiro de um tempo que não volta mais. Um Rio de Janeiro na efervescência dos bares e boates da Zona Sul, todos parte de um roteiro em que pipocavam compositores, poetas, cantores e músicos de todos os calibres. Com relação a estes, Castro foca em histórias de feras do mais escalão e que viraram sinônimo da bossa nova carioca, como Milton Banana, Sérgio Mendes e os irmãos Castro Neves.

chega de saudade

Foto: Divulgação

Não poderia ser diferente: a tríade formada por João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Morais é onipresente em todo o texto. A influência desses gigantes da música brasileira é vista por diversos ângulos, graças ao extenso trabalho de averiguação e às mais de duas centenas de entrevistas realizadas.

As dinâmicas nem sempre sóbrias entre os compositores e músicos e as idas e vindas de João Gilberto no eixo Juazeiro-Rio, com escalas em Minas Gerais e Nova Iorque, são esmiuçadas e devidamente contextualizadas. Os romances também, evidentemente, com o ápice do episódio envolvendo Ronaldo Bôscoli, Nara Leão e a indomável Maysa.

E são nos casos mais pitorescos que impera o bom humor de Ruy Castro, com riqueza de detalhes (como no caso dos Afro-sambas de Vinícius e Baden, por exemplo) e prosa cativante, provando que, às vezes, as personagens da vida real são mais excêntricas do que qualquer roteirista poderia conceber. João Gilberto, claro, é um prato cheio em matéria de histórias de encher os olhos do romancista mais criativo, e o cronista brinda o leitor com relatos curiosíssimos sem perder a objetividade e visão periodística de lado.

No miolo da edição, além de fotografias que dão um panorama da evolução da bossa nova, uma folha frente (São Paulo) e verso (Rio de Janeiro), preciosa com um roteiro dos principais locais onde a história do gênero foi escrita, inclusive com bares, boates e restaurantes que podem ser visitados nos dias de hoje, ente outros que já foram desativados ou não existem mais, mas vale o registro histórico.

Não existe momento mais ou menos ideal para reeditar uma obra deste calibre, mas o timing só não é mais perfeito porque os conjuntos atuais se espelham muito mais no movimento tropicalista do que na bossa nova propriamente dita. De qualquer modo, é com grande prazer que se lê ou relê a trajetória traçada pelo autor para explicar como se deu o gênero no país, e no mundo.

Ruy Castro lançou em 2015 outra obra bastante extensa sobre o mesmo período, A noite de meu bem: a história e as histórias do samba-canção, também pela Companhia das Letras, mas foi com Chega de saudade que o autor realmente começou a ser visto como pesquisador de mão cheia. Após o relato sobre a bossa nova, o autor ainda emplacou pelo menos três outras biografias de semelhante sucesso e importância, O anjo pornográfico (Companhia das Letras, 1992), sobre Nelson Rodrigues; Estrela solitária (Companhia das Letras, 1995); e Carmem: uma biografia (Companhia das Letras, 2005), sobre Carmem Miranda; entre outros trabalhos sobre música e cinema, além das suas crônicas.

Leitura obrigatória para iniciantes e iniciados, esta edição atualizada de Chega de saudade conta com adendos biográficos conforme foram se dando obituários, mas este grande tributo da não-ficção brasileira já demonstrava que se tratava de trabalho inigualável em sua primeira edição de 1990.

Chega de saudade é uma edição da Companhia das Letras.

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Sobre o Autor

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Guillermo Gumucio

Professor de Jornalismo e Linguagem Audiovisual na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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