Sangue para Javé

Em muitos trechos, o texto sagrado relata situações hoje consideradas chocantes, em especial os sacrifícios de crianças e animais a pedido do Criador

Postado dia 18/01/2016 às 00:00 por Tiago Cordeiro

Foto: Divulgação/Internet

É famosa a história de Abraão levando seu filho Issac para o sacrifício, por ordem direta de Javé. Com grande inteligência, Abraão se mostra disposto a fazer a vontade do Criador. Mas tudo, em seu comportamento, indica que ele vai jogar a responsabilidade pelo crime de assassinato sobre seu Deus. No último segundo, quando a espada já está levantada e vai tombar sobre o garoto, um anjo impede o profeta de realizar o sacrifício. Em um dos textos mais espantosos da Bíblia, um ser humano aceita um teste proposto por Deus, vira o próprio teste do avesso… e derrota o criador ao forçá-lo a recuar.

Nem sempre o texto bíblico se presta a textos de tamanha sutileza e final feliz. Com muita frequência, hebreus são forçados a matar para cumprir promessas feitas a Javé. É o caso de Jefté, guerreiro e um dos juízes de Israel, que, a fim de vencer uma batalha contra os amonitas, promete matar a primeira pessoa que entrar em sua casa. Pois ele vence, e quem surge é sua única filha. Às lágrimas, Jefté cumpre a promessa. Nenhum anjo aparece para impedi-lo.

São muitos os sacrifícios de crianças e de virgens no Antigo Testamento, e quase todos eles realizados para a glória de Javé – não é nenhum exagero dizer que, na Bíblia, acontecem mais mortes em nome de Deus do que em nome do demônio. O criador exige sangue. Muitas vezes é humano e puro; daí crianças e mulheres virgens serem os alvos preferenciais. Em outros casos, é sangue animal: Moisés, por exemplo, manda matar 12 bois, drenar o sangue e jogar sobre o altar, sobre os próprios sacerdotes e o povo – que, aliás, tinha o hábito de se esfregar em corpos de carneiros e andar pelas ruas segurando os rins dos animais.

Pode soar estranho para os ouvidos contemporâneos, mas o uso de sangue era comum à maioria das religiões. Sacrificar o líquido da vida era necessário para purificar o fiel ou reforçar seu vínculo com a divindade. Outras civilizações iam bem mais longe na crueldade: os cananeus, povo aparentado dos hebreus, cozinhavam crianças e mulheres dentro de uma estátua gigantesca do deus Moloch.

Em outros quesitos, a Bíblia, em especial o Novo Testamento, soa chocante para os ouvidos contemporâneos. O consumo de álcool, por exemplo, é desestimulado, mas nunca proibido – e são muitos os casos de porre ao longo dos livros sagrados. Já a homossexualidade é considerada crime passível de pena de morte. E isso apesar do texto desconfortável que indica que o rei Davi tinha um grande amor por Jonatã, filho do rei Saul: “A alma de Jonatã se ligou com a alma de Davi”, diz o livro Samuel I. “E Jonatã o amou, como à sua própria alma”. Em outro trecho, Jonatã tira as roupas, deita-se com Davi e o beija três vezes. Chegam a ser cômicas as voltas de retórica que muitos especialistas dão para explicar estas frases como prova apenas de uma forte amizade.

A prostituição também é punida com pedradas, e a mulher vítima de estupro está sujeita a morrer junto com o agressor se não puder provar que tentou reagir. Enquanto isso, o incesto aparece de quando em quando, como um fato que não chega a ser estimulado, mas não precisa ser punido necessariamente. Joquebede e Anrão eram tia e sobrinho – e um de seus filhos se chamou Moisés. Abraão e Sara tinham o mesmo pai. Ló foi induzido a dormir com suas duas filhas, que para isso recorreram ao vinho.

As normas de conduta de uma época muito diferente da nossa se misturam a comportamentos comuns para um povo que lutava para se manter inteiro. Javé participa de tudo isso, ativamente, e muitas vezes de maneira contraditória. E este é o tipo de mistura de eventos sociais de grande peso histórico, conflitos interpessoais de carga psicológica intensa e uma boa dose de sangue e violência que faz da Bíblia uma coleção de livros tão fascinante e intensa.

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Sobre o Autor

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Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

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