A Sabedoria do Arqueiro Zen

A arte e o segredo para sempre acertar o alvo com precisão

Postado dia 09/01/2017 às 08:30 por Antonio Carlos

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Foto: Reprodução

 

“Nunca ande pelo caminho já traçado,

pois ele conduz somente até onde os outros já foram…”

Graham Bell

Na maçonaria aprendemos, em nossas ricas e belas instruções de graus, que necessitamos, constantemente, lapidar nosso V?I?T?R?I?O?L? para vencer as impurezas dos vícios, paixões e emoções que estão enraizadas em nossas ações e corações, levantando templos à virtude para aquelas que conseguimos realizar.

O desbastar das asperezas de nossa pedra bruta, com foco na tão sonhada pedra polida, é nossa missão que o G?A?D??U?nos ensina nas reuniões maçônicas que frequentamos.

Aprendemos também, parafraseando os ensinamentos de Sidartha Gautama, o Buda, a dirigir nossos passos sempre pelo “caminho do meio”, conforme nosso mestre nos ensinou, na Senda pelas Óctuplas Verdades!

Partindo desse enfoque, e reverenciando a doutrina da filosofia Zen Budista, é que nos faz lembrar, como diz a Sabedoria Oriental, do arquétipo milenar representado pelo mito da imagem do Arqueiro Zen, que sempre acerta o alvo com precisão milimétrica, porque é capaz de manter a paz e a serenidade interior.

E isso só é alcançado quando já atingimos um grau de evolução a ponto de manter a paz e a serenidade em quaisquer circunstâncias das nossas vidas.

Quando o acertar ou errar for a mesma coisa, a ponto de não alterar a nossa serenidade interior, poderemos sempre acertar com precisão o alvo.

Antes de vencer na vida, ou vencer os adversários, ou ainda, vencer os desafios, é preciso primeiro aprender a vencer nós mesmos; livrando-nos de todo e qualquer medo que possa tirar a nossa paz, tranquilidade e a serenidade interior que habita no mais sublime e sagrado do nosso ser, o habitat interior do nosso coração, ou seja; do nosso Sanctum Santorum. O medo atua como se fosse uma oração ao contrário, gerando insegurança e minando nossas forças e energias mais sutis. Livrar-se do medo é uma grande fonte de energia interior muito maior do que se possa imaginar a primeira vista!

O medo de errar pode tirar a paz interior! Quando perdemos a paz interior, ficamos mais fracos tanto física como intelectualmente. E são nos momentos mais difíceis da vida que precisamos estar no nosso maior vigor físico, mental e intelectual.

Um homem de pouco conhecimento torna-se logo arrogante e vaidoso ao ser elogiado. Isto apenas estimula a inveja e a intriga. E o castigo pelo abuso da vaidade e o orgulho não costuma tardar…

O preço da vaidade e do orgulho tem sido a causa do fracasso de muitos líderes inteligentes, mas que têm pouca ou nenhuma sabedoria…

O arqueiro Zen não deve se envergonhar quando errar o alvo, e nem se vangloriar quando o acertar. Deve-se livrar de toda e qualquer demonstração de vaidade e orgulho. A simplicidade e a modéstia são sintomas de evolução e sabedoria…

É preciso compreender que acertar o alvo não é uma conquista externa, mas sim apenas um sintoma externo de uma conquista interior muito maior do espírito e da mente, diante dos desafios que enfrentamos em nossas vidas.

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Segundo a Tradição, com os ensinamentos dos mestres Zen, é possível estirar o arco de forma espiritual; ou seja, vencer a resistência do arco sem nenhum esforço físico.

Não pelo espírito da força, mas pela força do espírito…

Esse estágio somente é alcançado quando a mente estiver trabalhando em atrito zero, isto é; quando se transcende a força física pelos grandes poderes da força espiritual.

Pela sabedoria da ética dos samurais, resolver uma disputa de forma diplomática e ao mesmo tempo ensinar alguma sabedoria ao adversário, torna a vitória ainda mais esplendida e mutuamente proveitosa!

Não basta vencer o adversário, é preciso também levá-lo a evolução. Mas, para tal, primeiro é necessário vencer a si próprio.

Vencer a si mesmo e de si mesmo, esse terrível axioma hermético nos indaga a navegar pelas brumas do desconhecido, libertando as amarras do cotidiano para podermos despertar o grande mestre invencível que existe em nosso interior… E esse mestre invencível, a que mormente chamamos do nosso Eu Superior, é o que habita no templo mais suntuoso e sagrado do nosso corpo, que é nosso coração (Sanctum Santorum).

Dessa forma, e somente assim então estaremos mais aptos a contribuirmos para a construção de uma sociedade mais justa e perfeita, e de um mundo melhor do que encontramos no outrora ao nascer.

Normalmente, os adversários a que me refiro são apenas projeções das nossas fraquezas internas e inferiores, tais como o medo, o orgulho a vaidade, a falta de diplomacia, a falta do bom senso e da sabedoria… Nem por isso significa que podemos resolver todos os problemas e questões sem o uso da força! Mas quando mais sábios nos tornamos, menos precisaremos fazer o uso dela. Entretanto, quando um mestre chega a lançar mão do uso da força, se torna invencível…

Segundo a Tradição, um dos primeiros sintomas da evolução para se tornar um mestre é se descobrir um eterno aprendiz, como nos é ensinado nas belíssimas instruções de graus. Todo mestre Zen também deve ser um grande educador. Essas duas condições são inseparáveis no Oriente, tanto para os Arqueiros como para os samurais. O grande mestre é simples, reservado, sereno, tranquilo e desprovido de todo e qualquer orgulho ou vaidade. Mas está consciente do seu próprio poder interior e da grande missão de semeador da sabedoria e filosofia.

O mestre consegue mostrar ao discípulo, uma nova percepção da mesma realidade, mas só que de maneira diferente.

O grande mestre é capaz de ensinar até mesmo através do silêncio. Desencadeando no discípulo um processo de profundas transformações alquímicas do nosso Eu Interior e de uma maior sensibilidade e compreensão das leis que regem a força da poderosa e misteriosa energia que emana da mente-espírito.

O mestre observa o crescimento interior do discípulo em silêncio e de forma espiritual, ajuda-o no processo do lento, mas necessário desabrochar do seu despertar espiritual.

O mestre transmite com clareza e simplicidade, a essência da sabedoria e da filosofia “de coração para coração”, para que o discípulo se prepare para a grande e difícil caminhada que o levará à Iluminação.

Até onde o discípulo seguirá no caminho da evolução não é preocupação do mestre.

Cabe apenas ao mestre ensinar o caminho que leva à iluminação. O restante, compete ao próprio discípulo, deixando que ele opte pelo caminho do livre arbítrio, a percorrer tal caminho sem pressioná-lo, detê-lo, mas apenas e tão somente apenas facilitando suas escolhas para a sua longa caminhada.

É preciso que o discípulo descubra de per si, que a grande Obra Interior que ele deve realizar, somente ele deve escutar a voz que o seu Eu Interior lhe falar… Ele deve prosseguir na sua busca (Obra Interior) se quiser ser o artífice do seu próprio destino.

A capacidade de realizar grandezas no mundo externo, depende fundamentalmente do nosso crescimento interior, da sabedoria e filosofia que imprimimos em nossas vidas. De uma maneira ou de outra, todos os grandes cientistas, artistas ou estadistas são místicos de forma consciente ou inconsciente, de seus poderes paranormais de intuição, vidências, premonições e da alta sensibilidade capaz de ouvir no “barulho do silêncio”, a voz do mestre que clama intensamente em seu Sanctum Santorum.

Existe no interior de cada um de nós uma semente de sabedoria (Eu Interior) aguardando as circunstâncias mais adequadas para poder germinar e florescer no bosque irradiante de Luz, a grande sabedoria capaz de permitir que cada um de nós possa construir uma vida melhor, mais justa, perfeita e verdadeira…

Mas cuidado para não se preocupar apenas em atingir os objetivos ou terminar rapidamente a caminhada…

O caminho é tão ou até mais importante que a própria caminhada!

A conquista interna é mais importante do que a conquista externa. A busca da conquista externa é que nos faz caminhar.

Pense nisso…

A conquista do mundo externo é mais importante apenas como símbolo da maior conquista que é o crescimento interior, pois o crescimento ao longo do caminho é tão ou mais importante que a chegada.

Vencer as paixões e emoções, isto é; vencer a si mesmo e de si mesmo é a essência do segredo para desabrochar o grande mestre oculto que existe no mais recôndito lugar do nosso interior mais profundo… E um dos primeiros passos desse caminho, é a simplicidade ao livrar-se da vaidade e do orgulho.

Pense nisso…

De qualquer forma, de nada adianta chegar ao fim da caminhada, se não tivermos evoluído ao longo do próprio caminho, porque a vida vai invariavelmente nos testar, caso não tenhamos evoluído em nossa eterna caminhada, e retirar o que recém acabamos de conquistar.

A conquista externa sempre será apenas um sintoma de uma conquista interior ainda maior do que o espírito e da mente.

arqueiro-zen-2CONTRA CAPA

“Sentei-me numa almofada, diante do mestre que, em silêncio, me ofereceu chá. Permanecemos assim durante longos momentos. O único ruído que se ouvia era o do vapor da água fervendo na chaleira. Por fim, o mestre se levantou e fez sinal para que eu o acompanhasse. O local dos exercícios estava feericamente iluminado. O mestre me pediu para fixar uma haste de incenso, longa e delgada como uma agulha de tricotar, na areia diante do alvo. Porém, o local onde ele se encontrava não estava iluminado pelas lâmpadas elétricas, mas pela pálida incandescência da vela delgada, que lhe mostrava apenas os contornos. O mestre dançou a cerimônia. Sua primeira flecha partiu da intensa claridade em direção da noite profunda. Pelo ruído do impacto, percebi que atingira o alvo, o que também ocorreu com o segundo tiro. Quando acendi a lâmpada que iluminava o alvo constatei, estupefato, que não só a primeira flecha acertara o centro do alvo, como a segunda também o havia atingido, tão rente à primeira, que lhe cortara um pedaço, no sentido do comprimento.”

Trazendo o fantástico para o nível do real, esta é uma página deste livro surpreendente, no qual o filósofo alemão Eugen Herrigel conta a sua extraordinária experiência como discípulo de um mestre Zen, com quem aprendeu a arte de atirar com arco, durante os anos em que viveu no Japão como professor da Universidade de Tohoku.

Sem dúvida — como afirma na introdução o professor D. T. Suzuki — um livro maravilhoso que, graças à limpidez de seu estilo, ajudará o leitor do Ocidente a “penetrar na essência dessa experiência oriental, até agora tão pouco acessível aos ocidentais”.

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Sobre o Autor

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Antonio Carlos

Antonio Carlos é mestre em economia e palestrante. Além de ser autor de vários livros voltados para ciências e espiritualidade.

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