Rosas, dálias e lírios

Há alguns anos eu não acreditava no Dia Internacional da Mulher. Considerava uma data machista, um prêmio de consolação indigno e diversionista que reduzia a um único dia uma consideração que deveria ser estendida para todos os 364.

Postado dia 09/03/2016 às 07:55 por Janaína Leite

mulher

Foto: Divulgação/Internet

Há alguns anos eu não acreditava no Dia Internacional da Mulher. Considerava uma data machista, um prêmio de consolação indigno e diversionista que reduzia a um único dia uma consideração que deveria ser estendida para todos os 364. Irritavam-me profundamente reportagens do tipo “é a primeira mulher a chegar ao Supremo Tribunal Federal”, por exemplo. O que havia a ser noticiado, se uma mulher tem a mesma capacidade intelectual de um homem, se estudou tanto quanto, se dedicou-se do mesmo jeito? Caso o ministro em questão fosse o primeiro chimpanzé ou o primeiro cavalo a conseguir ser ministro, tudo bem, existiria notícia.

Eu pensava desse modo quando trabalhava nas maiores redações do país. Tinha casa, comida, segurança, educação, saúde, liberdade. E amor, muito amor. Eu me relacionava com um homem carinhoso, bom, esclarecido, extremamente educado. Tinha uma filha que recebia todos os cuidados e uma mãe que me amava acima de tudo. OK, de minha parte eu fizera por merecer. Nada de corpo mole. Havia me dedicado ao trabalho com todos os centímetros da alma e era absolutamente apaixonada pela minha profissão. Eu vencera as barreiras por mérito, com altivez. Era bem mais que uma feminista chata queimadora de sutiã: era uma mulher relativamente bem-sucedida. Isso não valia muito mais?

Muito bem. O tempo passou, as coisas mudaram e eu também. Tive a chance de me transformar em uma pessoa bastante diferente daquela repórter agitada e autocentrada em demasia. Entrei em contato com partes submissas, impotentes, oprimidas e iludidas de mim. Não foi nada agradável, mas tristezas podem trazer sementes de luz e, por sorte, o resultado acabou positivo. Hoje eu compreendo que a iniciativa pessoal é importante, sim, mas também é apenas parte de um esforço maior e coletivo que deve ser feito para garantir a mudança. E quando se trata de unir forças, as pessoas precisam ser lembradas. Uma data é isso — um lembrete. No caso específico, de uma tragédia envolvendo mais de uma centena de operárias que trabalhavam sob condições desumanas e morreram carbonizadas em uma fábrica americana. Exploração e crueldade que continuam existindo um século depois.

Sim, mulheres têm a mesma capacidade intelectual dos homens, a mesma força de vida pulsando intensamente dentro delas, mas a opressão cultural ainda é gigantesca. É preciso brigar para que as meninas sejam mandadas à escola e possam escolher seus destinos, para que a distorção de livros sagrados não as transformem em escravas, para que a força bruta não as prenda em um universo de medo, mentira, doença. Que possam escolher seus representantes. Brigar para que os homens assumam seus filhos, colaborem em sua educação, responsabilizem-se e dividam as tarefas. Para que o estupro, a violência doméstica, a humilhação verbal deixem de existir; para que a misoginia explícita ou disfarçada sejam varridas para sempre.

O Dia Internacional da Mulher não é um dia apenas para dar ou receber flores, embora todos os dias sejam perfeitos para dar ou receber flores. É o dia de lembrar que temos de agir para que as mulheres possam florescer, não só aqui, mas em todo o mundo.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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