A revolução dos bichos petistas

O partido que veio para destituir o grande capital, dando o poder ao povo e trazendo ética ao poder público, foi o que mais se vendeu

Postado dia 04/07/2016 às 09:00 por Pedro Henrique

 

bichos

Foto: Reprodução/Internet – A revolução dos bichos de George Orwell

Dificilmente quem já leu A revolução dos bichos[1] não percebe o paralelo gritante que há com a União Soviética e seus líderes. A crítica de Orwell tinha a intenção de mostrar a hipocrisia do socialismo russo-soviético. Não obstante, sem que o autor pudesse prever, o livro serviu de arquétipo para muitas comparações entre regimes socialistas que se manteriam ou até nasceriam após a queda da URSS. Como, por exemplo, o socialismo venezuelano, o cubano, cambojano, entre outros. Mas, talvez, pouquíssimas foram as ocasiões em que tal paradigma literário tenha encontrado afirmação tão precisa na realidade quanto no governo brasileiro, sob a administração petista.

A crítica que Orwell fez à União Soviética se resume na afirmação de que, aqueles comunistas que destituíram o poder burguês capitalista na Rússia, acabaram, por trâmites cada vez mais ditatoriais, tornando-se iguais ou piores àqueles que eles criticavam.

O comunismo, que tinha por missão libertar os oprimidos dos opressores capitalistas, gerou os novos opressores sociais. Esta foi a crítica de Orwell, este foi o pano de fundo da ficção citada; ficção essa que ajudou milhões de pessoas a deixarem suas visões utópicas sobre o comunismo. Foi esta obra que conseguiu mostrar a muitos o que era, de fato, o regime comunista soviético e suas ações totalitárias.

Devem estar se questionando: ora, mas você está comparando a URSS ao petismo? Sim e não. Sim quanto ao seu sistema discursal baseado na mentira sistêmica, sim comparado a sua sede de poder, que não mede esforços e sacrifícios éticos. Não, se comparado aos assassinatos e mortes em massa; não, se comparado às perseguições e morticínios. Sou totalmente contrário ao PT, mas isto não me torna um desvairado analista político ou um acusador insensato.

O PT, no início de seu curso como partido político, sempre afirmou e reafirmou seu compromisso ético; ganhou milhares de militantes com seus discursos inflamados contra a corrupção e os sistemas burgueses corruptores. Quem não se recorda dos discursos de Lula — vulgo: Napoleão — dizendo que enfrentaria o sistema capitalista de frente, expurgando todo lixo, todo o chorume da imoralidade sobre os empresários e os sistemas comerciais externos? Quem não se lembra de Ruy Falcão — vulgo: Bola-de-Neve — exaltando os sindicatos, trazendo o movimento sem-terra para seus montantes, fazendo dos universitários jovens militantes em busca de revolução social?

O PT era, por fim, a face da esquerda sábia, ética e comprometida com as causas dos operários e oprimidos. Graças a estes discursos, sejam em portas de fábricas, na televisão ou em grandes auditórios, cada dia mais pessoas adentravam ao arrimo arquitetônico do prédio petista.

Com certeza havia mais partidos com propostas discursais tão belas quanto aos do PT, mas, sem dúvida, foi ele que conseguiu implementar culturalmente sua proposta de forma profunda. Assim sendo, em 2002, Lula, o homem de pouco conhecimento estrutural, mas de muita capacidade retórica, despontou como a solução frente às crises econômicas e misérias sócias. O PT era a solução. Lula presidente era a solução. Diziam…

O tempo foi passando e o governo parecia ter ajeitado o país economicamente, tendo como força principal uma base parlamentar mais fiel do que católicos do século XII. Não obstante, o governo começou a se ver embaraçado em escândalos políticos. Montantes enormes de dinheiro público haviam sido gastos com compras de bases de apoio, silêncios de pessoas e favores comerciais. Com um pouco mais de tempo, constatou-se que o rombo público não só continuou no seio petista, como aumentou estrondosamente.

Centenas de bilhões foram vazados. Dilma, a nova salvadora da pátria, se encontrou banhada em lodo que vinha de todos os lados. O país não só estava mergulhado em uma corrupção sistêmica sem precedentes, mas tinha que lidar com a verdade de que o PT, o partido da ética e da salvação nacional, era quem comandava quase que toda as ações corruptoras no país; ele e seus aliados. Verdade seja dita, a maioria dos partidos também teve suas parcelas de culpa, mas indiscutivelmente o olho da crise estava centrado no partido dos trabalhadores.

Os maiores empreiteiros do país, grandes nomes da advocacia e empresários de todos os ramos estavam chafurdados no mesmo poço fecal da corrupção. Por fim, o partido socialista, algoz do empresariado, aquele que veio para destituir o grande capital, dando o poder ao povo e trazendo ética ao poder público, foi o que mais se vendeu em troca de poder. A confiança do povo foi trocada por acentos governamentais. Os ideais do partido, os discursos inflamados e as lágrimas revolucionárias tiveram um preço; assim como Judas teve um. As 33 moedas que compraram o PT foram 13 anos no poder e algumas regalias políticas.

Creio que, todos os que leram a tal obra de George Orwell, conseguirão lembrar do cavalo forte, Sansão, o trabalhador que fazia de tudo pelo projeto da construção do moinho, projeto este pregado avidamente pelos porcos líderes — ou seriam líderes porcos? Lembrarão, também, como, de tanto trabalhar sozinho por aquele projeto impossível, utópico e sem fundamento, Sansão acaba morrendo de tanto trabalhar. Como não enxergar nossa nação nas linhas desta obra? Como não ver meu pai sendo um pouco do Sansão, como não ver minha mãe, e eu próprio, sendo um pouco deste Sansão?”

Numa nação que trabalha cinco meses por ano para pagar impostos que, no fim, são desviados para que os porcos comam bem, para que desfrutem de uma boa casa, enquanto nos dizem para sermos gratos pelo celeiro no qual vivemos. Vivemos em uma escravidão velada.

Quando saímos às ruas para pedir algo, eles soltam seus cães adestrados para nos atacar, para nos reprimir. Cães que, com foices e martelos, tentam calar aqueles poucos que entenderam que os “libertadores” são, de fato, os opressores; “… quem nos afirma que o alienado não é o alienista”[2]?

Não há como esquecer daquela cena final em que, desconfiados de algo, os animais rondam a casa do grande capitalista opressor, Sr. Jones, que outrora foi expulso pelos animais revolucionários. Casa que agora serve de aconchego para os socialistas porcos que vivem como porcos capitalistas; socialistas no discurso, nobres na prática.

Por uma janela da grande casa, os animais viram a verdade da utopia pregada pelos porcos. Sem travas diante da realidade, os animais enganados transcenderam a ideologia dos discursos de Bola-de-Neve — vulgo Ruy Falcão —, e a mão pesada de Napoleão — vulgo Lula. Ali, pela janela, eles vislumbraram o que a política brasileira nos mostra hoje, isto é: os revolucionários socialistas, representantes dos pobres e oprimidos, estão sentados ao redor de uma mesa, num clima de extrema descontração, comendo e jogando cartas às custas dos “Sansões” que não param de trabalhar até morrer.

Ali, sentados em seus tronos, eles discutem quais as novas estratégias, como comprarão juízes e delegados, como farão com que os interesses do empresariado se casem com o silêncio dos roubados. Entre gargalhadas e baforadas de charutos, eles discutem sobre quais discursos serão mais eficientes, com quais retóricas defenderão o indefensável, convencendo mais uma vez os cegos que por eles militam.

Ali, naquela mesa, jaz a história do PT, o partido que nasceu para libertar e trazer ética ao mundo político, mas acabou transformando-se em cafetina do Bordel Brasil — vulgo Granja do Solar.

 

Referências:
[1]ORWELL, George. A revolução dos bichos, 1ª Ed, Companhia das letras: São Paulo, 2009
[2] ASSIS, Machado de. O alienista, 1ª Ed, Companhia das Letras/Pinguin: São Paulo, 2014, p. 52
Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter