“Mudança” de Mo Yan

Mudança traz um olhar particular e alegórico sobre a impressão digital de um país.

Postado dia 05/11/2015 às 11:47 por Guillermo Gumucio

De modo geral, quando o autor é agraciado com um prêmio da estatura do Nobel de Literatura, o depósito polpudo na conta do escritor não é o único benefício envolvido. Todo um público-leitor que até então o desconhecia vê uma corrida editorial para publicar a obra traduzida do laureado. E é graças à Cosac Naify que chega às mãos dos brasileiros este Mudança, uma novela literária sobre muitas coisas, mas cujo título, singelo e direto ao ponto como a prosa de Mo Yan, não poderia ser mais adequado.

Parte depoimento autobiográfico, parte apreciação de um microcosmo, Mudança traz um olhar particular e alegórico sobre a impressão digital de um país. Mo Yan nasceu em 1955, quando a China comunista começava a gozar da consolidação da sua força em todo o território, travando guerras com a facção nacionalista até para a disputa de arquipélagos (Batalha de Dachen e Ilhas Yijiangshan). O que se vê em Mudança são os braços do partido comunista envoltos em todo e qualquer aspecto desde a infância do autor. Não há tom explícito de crítica, pelo contrário, é apregoada a mudanca_moyan_capaaceitação de que aquelas eram as circunstâncias, condições rigorosas de um pós-guerra em terras inóspitas. As aspirações de um aparente conformista apresentam minúcias ficam por conta das possibilidades reservadas a cada jovem nas regiões menos favorecidas, todas elas associadas a conexões, a pontas ligadas ao poder do Estado.

A primeira parte da obra concentra-se nas personagens do colégio do narrador, poucas e surpreendentemente universais, mas notáveis: Lu Wenli, a queridinha da escola; He Zhiwu, o metido a sabichão e brigão; e o professor Zhang, apelidado (secretamente, é claro) de Boca Grande. Já o segundo ato mostra um protagonista mais esperançoso com as oportunidades da carreira militar. E em qualquer período descrito há o Gaz 51. O tradicional caminhão soviético é um fantasma de aparição constante e vital na vida do povoado, com sua própria história, e com muito mais nuances do que se esperaria de uma personagem que se alimenta de combustível. A obsessão de Mo Yan pelo automóvel só não é superada pela de sua nêmese: He Zhiwu torna-se responsável por desdobramentos surpreendentes (e verídicos) envolvendo o Gaz 51 e incorpora a metamorfose do regime chinês.

A ingenuidade do jovem Mo Yan está em todas as linhas, com exceção óbvia às últimas páginas, com um golpe no estômago que, embora não necessariamente previsível, não perde em eficácia e justifica o título. Mudança é um relato poderoso porque alegórico, no qual a soma das partes é muito maior do que o resultado. Uma novela literária que, se não se atribui a tarefa de debruçar-se sobre o que transformou a China no paraíso corporativo-capitalista atual, relembra um período muito específico daquele país e desenvolve uma relação histórica de causa e efeito à qual nem o próprio protagonista fica isento.

Mudança
Mo Yan
Tradução do mandarim de Amilton Reis
Cosac Naify
Ano – 2013

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Sobre o Autor

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Guillermo Gumucio

Professor de Jornalismo e Linguagem Audiovisual na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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