A religião chamada ideologia: da Cruz e coroa à foice e o martelo

Assim como a religião tradicional forjou extremistas, não poderíamos esperar menos da religião ideológica

Postado dia 13/04/2016 às 09:00 por Pedro Henrique

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Foto: Reprodução/Internet

São inúmeros os autores contemporâneos que já constataram um problema corrente de nossa época, problema este que está engolindo mentes e almas: o fideísmo ideológico. Eric Voeglin, Mario Ferreira dos Santos, Michael Oakeshott, Roger Scruton entre outros filósofos que também já haviam falado sobre uma nova religião secular com base nas ideologias do século XX. Entretanto, quem melhor sintetizou isto foi Russell Kirk em seu livro: A política da prudência[1], onde Kirk compara as ideologias modernas com os grandes sistemas religiosos tradicionais. Todavia, há uma diferença basal entre elas: as religiões tradicionais (Budismo, Islamismo, Judaísmo e Cristianismo) têm o objetivo claro de preparar uma realidade pessoal em vista de um transcendente que há de chegar num plano pós-morte (escatológico). Fazendo uma analogia ao cristianismo, Cristo disse: “Meu reino não é deste mundo” (São João 18, 36); a ideologia inverte este grande paradigma, ela prepara grupos de fiéis discípulos para a insurreição política, não para buscar a liberdade espiritual numa realidade pós-morte, mas para caçar, por vias revolucionárias, os imediatismos ilusórios dos seus fins idealizados. Eles, os ideólogos e seus seguidores, ultrapassam quaisquer obstáculos éticos e morais para alcançar em seu grande plano político-utópico. Marx diria, em contraste a Cristo: “Meu reino é deste mundo, busque-o a qualquer preço”.

Assim como a religião tradicional forjou extremistas, não poderíamos esperar menos da religião ideológica. Para um estudioso social acostumado a opiniões filosóficas que exaltam o sadio debate e o sadio contestar argumentativo, deparar-se com tamanha cegueira moral e filosófica em que jazem alguns grupos na sociedade brasileira é uma verdadeira tormenta; a cegueira moral sempre foi prelúdio de totalitarismo em toda a história humana. Para estes a lógica não faz sentido, simplesmente porque a lógica contraria a cartilha de seu partido, e contrariar a cartilha partidária (o livro sagrado) já é um argumento mais que suficiente para inferirem falsidade a um fato.

As universidades foram incumbidas de serem o centro catequético e de recrutamento de cruzados para esta religião. Os professores pouco se importam em formar intelectos capazes de olhar os dois polos de um debate, capazes de expor uma crítica plausível, usar deste aparato democrático do: “contestar” para findar no sumo sensato do pensamento; talvez nunca ouviram falar daquela velha fórmula: tese > antítese = síntese. Hoje se não fores militantes não são dignos, simples assim. Me parece que não lembram que os grandes homens da nossa linhagem racional construíram a sociedade e delinearam a história humana com escritos, estudos, retóricas e grandes escolas de pensamento, não com gritos histéricos e nudismos sem porquês.

Nesta saudosa era dos extremos, permita-me divagar entre possíveis devires em tal época de irracionalidade política. Não é difícil imaginar que exista — e verdadeiramente não duvido que exista — um pedreiro crente que a construção de uma casa inicia-se pelo telhado; ao propô-lo uma outra via, uma via mais sensata baseada nos milhões de construções que iniciaram pelo alicerce, ele provavelmente lhe chamará de reacionário, conservador e fascista. Afinal, o que lhe impede de construir a casa pelo telhado senão as claras e intolerantes opiniões conservadoras e o reacionarismo histórico arquitetônico?

Histericamente diria ele: “por que não quebrar este tradicionalismo fútil de construir uma casa a partir do chão”? Gritaria, entre soluços raivosos: “não vai ter golpe”, mesmo que isto nada signifique no momento, mas ele ouviu em algum lugar e tão logo deduziu que devia ser algo inteligente para ser dito naquele distinto instante. Tudo isto por se propor a sensatez ao invés do fanatismo, por se propor a lucidez ao invés das irrefletidas opiniões militantes.

Acham que isto é loucura minha, que esta analogia é algo sem relevância factual? Ora, há pessoas que creem que o sítio de Atibia é de um “amigo” do Lula, creem que por amor a ele o seu “amigo” decorou a escadaria principal do hall de entrada com a foto do ex-presidente. Acreditam piamente que o “amigo” de Lula colocou os nomes de seus netos nos pedalinhos do sítio somente por camaradagem. A lógica não faz falta para alguns meus caros. Creiam, há coisas mais ilógicas sendo defendidas por grupos sociais do que o leve devaneio de se construir um edifício sem bases.

A grande verdade que salta perante os nossos olhos estupefatos é que a estupidez filosófica e o discurso ilógico tornaram-se algo a ser seguido e propagado; quando estas opiniões são contestadas elas ganham o belo e vazio slogan da “intolerância”. Slogan que eu aceito, afinal, nunca neguei flâmula de intolerante à burrice, principalmente a burrice assumida como sapiência.

Os debates vazios de argumentos e as defesas sem qualquer base na realidade são apenas alguns aspectos secundários destas ideologias plantadas em terrenos que flutuam em utopias teratológicas. “Antigamente” era preciso estudar, labutar dias em apenas um parágrafo da Crítica da razão pura, para finalmente poder dizer algo com certa propriedade sobre ela; era necessário engajar-se horas e mais horas mentalmente cansativas para opinar sobre política e todo seu desenrolar em mil matérias subsequentes. Hoje, entretanto, basta ler uma imagem bem construída no photoshop, postá-la no Facebook com supostas credenciais de verdade irrefutável, e pronto, eis seu doutorado sobre as mais altíssimas ideias, resumidas, é claro, em uma dúzia de caracteres.

A ideologia, por fim, ensina a repetir, ensina a estudar a partir de um estatuto promulgado que não deve ser contestado pelo bem do partido, partido, aliás, estatuto que sempre está com a razão — qualquer semelhança com os dogmas cristãos não são meras coincidências. Já diria o grande Chesterton: “Os materialistas e os loucos nunca têm dúvidas”[2]. Caso não acredite, vá num congresso feminista e erga um cartaz: “sou feminista, mas não socialista”. Depois venha aqui nos contar o que achou da amabilidade democrática daquelas distintas socialistas. Isto lembra-me muito o saudoso socialista Osvaldo Peralva, ele dizia ser a máquina comunista a maior e mais fétida máquina de doutrinação que existiu[3].

Possuímos milhares de homens defendendo o indefensável, lutando lutas perdidas, pisoteando a lógica mais basal para não correrem o risco de negar as sagradas palavras do de Marx e seus apóstolos.

 

Referência:

 

[1] KIRK, Russell. A política da prudência, 1ª Ed, É realizações: São Paulo, 2014

[2] CHESTERTON, G. K. Ortodoxia, 1ª Ed. Ecclesiae: Campinas, 2013, p. 46

[3] PERALVA, Osvaldo. O retrato, 1ª Ed, São Paulo: Três Estrelas, 2015, p.257

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Sobre o Autor

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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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