A questão do naufrágio

Para o filósofo romano Sêneca, a coisa mais lamentável é perder tempo por negligência ou algo do mal, ou gastar parte da vida sem fazer nada, ou fazendo algo diferente do que deveria fazer

Postado dia 08/02/2016 às 00:00 por Heródoto Barbeiro

seneca

Foto: Divulgação/Internet – Estatua representando o filósofo romano Sêneca

A vida é muito curta, por isso cada momento é sagrado. Esta é uma visão budista do mundo. Em outras palavras, incita as pessoas a aproveitarem o tempo da melhor forma possível. É claro que se deixassem por conta do Buda ele diria que a melhor forma de se aproveitar o tempo é fazer meditação, voltar-se para dentro de sí mesmo e avançar  no caminho da iluminação. Mas o mundo contemporâneo tem outras propostas, todas elas respeitáveis. Por exemplo , acumular todo o dinheiro que for possível, comprar os produtos mais sofisticados, de grife,  se apropriar de todas as sensações possíveis lícitas ou não . E repetí-las até a exaustão. É uma escolha. Outra forma é usar todo o tempo disponível para acumular poder, armar-se de todas as ferramentas que  possibilitem ficar para sempre no topo . Com isso não se perde um minuto sem que se receba homenagens e seja incensado mesmo não sendo santo. Outros gastam, ou ganham, o seu tempo, maquinando os caminhos da arrogância, do auto elogio e se refestelando diante dos elogios, medalhas e diplomas de doutor honoris causa da universidade da rua dos bobos número zero. Outros ainda  decoram nomes de autores da moda, lêem orelhas, resumos e resenhas dos livros e se arrogam grandes intelectuais. Enfim, é a escolha de cada um, e o Iluminado não se meteria na escolha.

No mundo contemporâneo, do capitalismo globalizado, dificilmente alguém admitiria que é perda de tempo ficar o tempo todo de gear glass, ou desafiando adversários etéreos em games disponíveis em smartphnes ou outro gadget qualquer. Ou curtindo os shoppings da moda ou as praias mais badaladas. Bons restaurantes, bares sofisticados, comidinhas apimentadas, drinkis afrodisíacos também exercem grande atratividade para quem não tem tempo a perder. É verdade que alguns não têm outra alternativa. Aboletam-se nos seus carrões tipo SUV, quatro por quatro, motor de grande potência,  freios ABS tudo o mais que coreanos e japoneses são capazes de montar em um chassis e ficar atolado em um grande congestionamento de trânsito na madrugada de domingo. Ainda se pode ganhar tempo com o What´s APP, Runkeeper, Tunein Radio e outros passa tempos. Pelo menos não é a perda de tempo na porta de algum hospital que não tem nem esparadrapo nem máscara de Venturi para os casos de asma ou uma simples contusão. Nas filas da burocracia, para se obter um papel qualquer, é possível ganhar tempo respondendo os e-mails e fazer telefonemas urgentes. Não há como perder tempo no mundo contemporâneo, basta saber como usá-lo.

Em uma sociedade da pressa que não se sabe para quê  ninguém pararia para ouvir um conselho.  Ainda assim Lucilio ouviu o conselho de aproveitar todas as horas. “Se você  assim agir, será menos dependente amanhã. Não se deve adiar nossas ações porque a vida se vai. Afinal, a coisa mais lamentável é perder tempo por negligência ou algo do mal, ou gastar parte da vida sem fazer nada, ou fazendo algo diferente do que deveria fazer “. O mestre que aconselha Lucílio é o filósofo romano Sêneca. É duvidoso que teria muito sucesso com sua receita e continua: “ esta é a sã e salutar forma de vida: concede ao corpo apenas o que for suficiente para um bom estado de saúde. É necessário trata-lo com severidade para que não desobedeça a mente. A comida deve apenas acalmar a fome e não empanturrar o estômago. O beber apenas para acalmar a sede. As roupas devem proteger do frio e a casa ser abrigo contra o  mau tempo “. Certamente Seneca, se se apresentasse em uma palestra de um curso que reúne empreendedores e gestores de sucesso, seria vaiado. O público lhe viraria as costas. Um velho, antiquado, fora de época, não fala nossa língua e ainda quer transformar as pessoas em monges eremitas. Seus conselhos são absolutamente fora de época  e não sabe o que diz quando afirma que o náufrago não pode nadar com bagagem… Que bobagem!!!!!!

 

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Sobre o Autor

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Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro, escritor e jornalista, âncora do Jornal da Record News e editor do Blog do Barbeiro. Foi âncora do Roda Viva da TV Cultura e do Jornal da CBN. Tem livros nas áreas de jornalismo, história, mundo corporativo e budismo.

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