Querem nos vencer pelo cansaço

É preciso continuar a batalha para superar a crise, alicerçar um desenvolvimento sustentável e criar uma sociedade mais justa

Postado dia 13/11/2015 às 11:59 por Janaína Leite

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“Guernica”, Pablo Picasso, 1937.

Há um manto de cansaço vergando a espinha dos brasileiros. Um véu de chumbo humilhante, mórbido, angustiado, tecido com fios de impotência. Seu peso desequilibra os indivíduos. Cria a percepção difusa de que esta é uma sociedade estruturalmente podre, na qual a política figura como sinônimo de náusea e qualquer iniciativa cívica é inócua, perda de tempo e energia, distração de raivosos e desocupados.

Não é que faltem acontecimentos ou as pessoas tenham desistido dos protestos. Ao contrário, todas as semanas fatos contundentes irrompem o noticiário e têm-se a impressão de um apocalipse iminente, com estradas e avenidas tomadas por manifestantes. O problema é que o tal fim apoteótico jamais se concretiza. Desgraças e reclamações fervilham em todas as áreas sem nenhuma consequência significativa.

O efeito é que o individualismo parece tornar-se a única atitude racional aceitável. A parcela mais esclarecida da população recorre cada vez mais ao deboche, à frieza e à indiferença diante das questões coletivas. Alguns, menos propensos ao cinismo, resolvem o impasse de outro jeito: manejam seus pequenos universos suprimindo o contato com a mídia e afastando-se do debate político o quanto podem. Trabalham, têm boas ideias, pagam seus impostos, são bons com a família e os vizinhos. É mais que suficiente, não?

Talvez não. Ambas as atitudes, apatia ou ignorância, talvez sejam uma capitulação inconsciente a uma milenar estratégia de batalha. “Se percebes que os adversários estão animados, espera que o entusiasmo arrefeça e eles se dobrem sob o peso do tédio ou do cansaço”, disse Sun Tzu, em “A Arte da Guerra”, o mais popular tratado a respeito do assunto, escrito quatro séculos antes de Cristo.

“Animados” é a palavra que melhor definia o espírito dos brasileiros há dois anos, em meados de 2013, quando os cidadãos de todo o país saíram às ruas com flores nas mãos e audácia nos lábios, demonstrando sua insatisfação com os partidos, exigindo a atenção dos governantes. Os brasileiros queriam o fim da corrupção, a diminuição da violência, o respeito às minorias e um melhor retorno do dinheiro embolsado pelo governo.

De lá para cá, cimentou-se o discurso de que aqueles sujeitos eram perdidos, não sabiam o que desejavam. “Black Blocs” cumpriram seu papel de fabricar violência e criar aversão às passeatas. O Brasil passou a ser dividido entre “petralhas” e “coxinhas”; a Seleção foi eliminada da Copa pela Alemanha por vergonhosos sete a um; São Paulo viu-se obrigado a beber volume morto; Dilma Rousseff arrasou a economia e contou lorotas mastodônticas para se reeleger; o PMDB engoliu o PT pelas beiradas; as vagas do Congresso foram preenchidas pelos legisladores mais bitolados de toda a história; a Lava Jato cavou bilhões do Petrolão; o Tribunal de Contas da União informou a maquiagem das contas públicas; a oposição mostrou-se cada vez mais frouxa e perdida; Eduardo Cunha firmou-se como um dos tumores mais evidentes do sistema; as mulheres tomaram conta do asfalto para gritar por seus direitos.

Múltiplos eventos e conjunturas. Todavia, nenhuma das grandes reivindicações de 2013 foi atendida. A descrença, lógico, acumulou-se. Assim como o lodo tóxico e a negligência que assassinaram as crianças e os rios de Mariana, a lama política, densa, suja e indigerível, repleta de malfeitos pontiagudos, alastrou-se por todos os cantos, ameaçando soterrar a esperança e a autoestima da nação.

Como impedir que isso aconteça?

A primeira resolução quiçá seja não ceder à tendência da falsa alegria, da carnavalização procrastinatória e da cordialidade sonsa, malandragens comportamentais tão características dos brasileiros. Embora tudo possa e deva ser tratado com bom humor, existem coisas que estão além das brincadeiras. A volta da inflação é a principal delas.

Permitir que o poder de compra seja carcomido por atitudes irresponsáveis do governo equivale a empurrar de volta à miséria todos aqueles que saíram da linha da pobreza com a estabilidade da moeda. Os apoiadores da esquerda, que gostam tanto de bater no peito para dizer que o padrão de vida dos menos favorecidos só melhorou por conta dos seus representantes, deveriam ser a primeiros a entender isso.

A segunda determinação talvez seja a combinação entre manter o foco e explicar claramente o conteúdo defendido. A cacofonia reivindicatória, por conta da fragmentação excessiva da pauta, ajuda a colocar holofotes sobre os temas, mas enfraquece o apoio às causas urgentes. Exemplo é o projeto de lei 5069-13, que complica o atendimento às vítimas de violência sexual. O aborto em caso de estupro, previsto em lei, acabou confundido por muitos com a legalização generalizada da interrupção da gravidez. Por mais importante e necessário que o debate acerca da descriminalização do aborto seja, e ele o é, a prioridade não pode ser perdida de vista: derrubar o PL 5069 e manter os direitos adquiridos.

A terceira e mais importante postura aparenta ser mesmo a persistência. É preciso lembrar que o cansaço é apenas um manto que recobre o corpo social, não é sua estrutura. A união das pessoas nas ruas sempre foi um fator decisivo para as mudanças sociais e a despeito do avanço virtual, nada indica que isso mudará. O autismo dos políticos só é vencido quando o povo está disposto a ir até o fim para lembrá-los de seus limites. Vale a antiga máxima da água mole em pedra dura.

Ao país que se impõe a tarefa de superar a crise, alicerçar um desenvolvimento sustentável e uma sociedade mais justa para as gerações vindouras, não é permitido desistir da batalha, mesmo quando tudo e todos parecem recobertos por barro imundo. Como escreveu a poetisa Wislawa Szymborska, as coisas não se ajeitarão sozinhas. Alguém tem de abrir caminho pelo lamaçal e as cinzas, para que um dia alguém deite-se sobre a grama que cobriu as causas e as consequências, com um matinho entre os dentes e o olhar perdido nas nuvens.

 

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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