Quer abrir seu mundo? Aprenda a ouvir!

Quando ouço o outro, dou espaço para ouvir a mim mesmo. O mundo se abre!

Postado dia 29/02/2016 às 08:00 por Priscilla Brandeker

ouvidos

Foto: Divulgação/Internet

Aguardava uma senha para utilização de internet em uma biblioteca muito bem organizada, na zona Norte de São Paulo, quando um senhor se aproximou da fila e me disse: “Tenha um lindo dia e que ele floresça assim como seu sorriso, cheio de bênçãos”.  Agradeci , sorri e desejei o mesmo a ele. Dali de onde eu estava, fiquei observando-o, com seu bloquinho colorido, digitando letra por letra, vagarosamente, no teclado que lhe dispuseram. Naquele momento pensei que deveria ser uma receita ou uma poesia, dada a estrutura dos tópicos que eu ali da fila conseguia visualizar.

Dois dias depois, na mesma biblioteca, eu estava sentada esperando chamar a minha senha, e adivinha quem se aproximou todo sorridente, um sorrido aberto, mesmo com dentes faltantes, quebrados e judiados? Pois é….com suas frases poéticas, se aproximou desejando bom dia e como sorri e lhe respondi, ele se sentiu à vontade e iniciou uma saga de palavras, frases e temas diversos, sem parar. Eu ali um pouco incomodada com tamanho discurso, pensava que poderia ser logo chamada para utilizar o computador e iniciar meus estudos, pois além disso, as pessoas ao redor estavam olhando feio, pois o tom alto de sua voz  estava um tanto quanto alto para uma biblioteca.

Sr. Paulo, esse é o seu nome, perguntou o meu e disse que minha aura era muito iluminada e o tinha tocado de uma forma comovente (falou isso com a voz embargada e os olhos lacrimejantes) e eu, que nem sequer havia dito nada, apenas escutado o que ele gostaria de falar, tentava ser empática e ao mesmo tempo finalizar logo o “papo”. Porém, algo naquele momento me fez sentir, mais uma vez, a importância da minha escuta, que hoje é meu maior instrumento de trabalho como Psicóloga.

Pois bem, Sr. Paulo tão à vontade, puxou a cadeira e perguntou se poderia sentar-se. Logo perguntou minha profissão e o que eu estava fazendo. Quando lhe disse que estava estudando um artigo sobre depressão, logo ele se prontificou a explicar suas idéias sobre o tema e dali para frente, até Acróstico com as iniciais do meu nome ele fez, depois com meu primeiro nome e depois juntando com todas as poesias que ele conhecia e palavras bonitas que lhe encantavam. Disse por fim, que o achavam parecido com Carlos Drummond de Andrade e que também achava, que gostaria muito de voltar à faculdade que havia trancado, mas que primeiro precisava cuidar de sua saúde.

Quando finalmente fomos chamados para o uso da internet, cada qual ficou por duas horas em seus afazeres individuais: ele digitando sua poesia (quer enviar à alguém para publicação) e eu estudando psicologia e alimentando a minha página. Sr. Paulo então veio até a minha mesa e sutilmente me perguntou se eu havia conseguido o que queria estudar e se havia feito sentido o que ele havia me ensinado sobre depressão, coisas que ele tinha aprendido na faculdade da vida.  Para encerrar, ainda sorrindo disse: “Sabe Priscilla, é um prazer eu ter te conhecido e se antes eu disse que talvez você precisasse falar com alguém, pois ouvia muito em seu trabalho, no fundo, eu é que falei tudo isso para você, pois é uma forma de me compreender através do outro e você me ajudou bastante. Eu é que precisava falar. Obrigado”. Beijou a minha mão e saiu sorridente.

Quanto tempo dispendemos para ouvir aqueles ao nosso redor?

Já parou para pensar que o simples fato de você ouvir alguém, pode fazê-la sentir-se importante e feliz? Já reparou como faz bem falarmos para alguém que está disposto a nos ouvir? Quem nós estamos ouvindo? E será que estamos nos ouvindo também?

Espero o Sr. Paulo para uma nova prosa, mas aqui deixo com vocês, não apenas uma reflexão dele, mas totalmente nossa.

Um abraço a todos,

Priscilla T. Brandeker

CRP 06/123945

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Sobre o Autor

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Priscilla Brandeker

Priscila Brandeker é psicóloga especializada. Atende crianças, adolescentes, adultos e também pessoas da terceira idade. Priscilla T. Brandeker Psicóloga (CRP 06/123945)

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