Quem matou em Nice?

Até quando vamos fingir que a Europa não está em guerra? Toda semana vemos corpos inocentes serem amontoados apenas porque alguns decidiram que era o dia de louvar Alá

Postado dia 18/07/2016 às 09:00 por Pedro Henrique

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Foto: Reprodução/Internet

Mais um atentado terrorista foi realizado na França, agora, na cidade de Nice. Durante uma festividade que reunia milhares de pessoas nesta cidade de belezas costeiras admiráveis, um cidadão de cidadania tunisiana resolveu pegar um caminhão alugado e atropelar e matar por volta de 80 pessoas, entre elas dezenas de crianças. Estas notícias tornaram-se corriqueiras: esperamos por elas nos telejornais e mídias sociais assim como esperamos notícias de nossos times de futebol numa segunda-feira.

E isso sim é assustador. Como analista político, sinto um certo ar de conformidade nas pessoas. Começamos a não nos assustar mais com estes atos, não repudiamos mais com tanta veemência. Não porque eles tornaram-se menos brutais e abomináveis, mas porque tornaram-se, de certa maneira, triviais. Diria Chesterton: “Quando as pessoas se acostumam à irracionalidade, não mais se espantam com a injustiça. Quando as pessoas ganham familiaridade com a anomalia, estão preparadas para uma opressão; podem considerá-la opressiva, mas já não a considerarão estranha”[1].

Vivemos num tempo em que as pessoas se assustam e agem com extrema repugnância frente a um apelido vexatório. Condenamos com ares de farisaicos uma mulher que decide ser dona de casa, trememos de raiva quando um conservador ousa afirmar que só existem dois gêneros definidos e definitivos. Enfim, vivemos uma era em que palavras tornaram-se bombas, e atentados terroristas tornaram-se atos toleráveis e até mesmo justificáveis.

Nossos filósofos estão chafurdados em seus gabinetes tentando contornar, em vias de retórica, estes atos insanos. Quando um líder político assume a posição contrária à abertura indiscriminada das fronteiras de seu país, com a intenção de proteger o seu povo, estes filósofos levantam-se de suas trincheiras — trincheiras francesas talvez? — para tecer argumentos insuperáveis em insanidade.

Dizem eles que a política de haver uma seleção minuciosa de pessoas é — e aí vem aqueles nomes interessantíssimos — xenofobia, discriminação, islamofobia, etc. E assim a novafala de Orwell ganha vida. Não obstante, quando um destes “coitados” oprimidos pelo Ocidente resolve se explodir, explodir outrem, ou como ocorrido no dia 15, atropela uma multidão de homens, mulheres e crianças, estes arautos da paz mundial, estes guerreiros e paladinos do amor, aparecem em seus blogs, colunas, twitter’s e facebook’s para lamentarem-se.

Lamentar o que? Se outrora sua política de “arreganhamento” fronteiriço possibilitou a entrada de milhares de loucos por sangue e ninfas no paraíso? Lamentar o quê? Quando a direita prudente pede controle máximo sobre a entrada de estrangeiros em seu território, ela se torna culpada por xenofobia. Todavia, quando ocorrem ataques terroristas, ela torna-se, também, culpada por ser opressiva. Ora, decidam-se.

Foto: Reprodução/Internet: Criança foi vítima fatal do terrorista em Nice

Foto: Reprodução/Internet: Criança foi vítima fatal do terrorista em Nice

Enquanto isso a esquerda, que, com discursos muito fofos e tolos, abriu as portas das casas dos cidadãos europeus para atos terroristas, veste a capa de herói e vem a público nos ensinar sobre tolerância. Faça-nos um favor: calem-se. Vão conversar sobre tolerância com o pai de família que teve sua filha morta (como na foto acima); venham chorar suas lágrimas grotescas e nojentas sobre os corpos que vocês colocaram na linha de frente, quando, com suas políticas idiotas, tornaram cidadãos de bem mártires coatos.

Até quando vamos fingir que a Europa não está em guerra? Toda semana vemos corpos inocentes serem amontoados como montes de esterco, apenas porque alguns decidiram que era o dia de louvar Alá.

Quando iremos nos dar conta de que a esquerda está matando a Europa com suas insanidades pedantes e seus discursos politicamente corretos? Ora, se estão atacando com bombas, queremos revidar com rosas? Será que a França ainda não percebeu que cantar Imagine em praça pública não foi lá uma atitude de defesa tão eficiente? Que não há diálogo quando um está com metralhadoras e o outro, apenas com boa vontade?

Enquanto colocamos flores em fuzis, os terroristas colocam fuzis em nossas bocas. Se querem saber, não acho adequado fechar as fronteiras para as vítimas de guerra. Não acho humano, muito menos leal, pois, de fato, existem famílias inteiras que estão fugindo das zonas de combate, pessoas que não são terroristas, são apenas mais vítimas de uma guerra gratuita e parva. Mas, infelizmente, não reconhecemos de forma eficiente terroristas e assassinos por semblantes.

Sinto muito, sinto de verdade, mas não há outra opção a não ser escolher a dedo quem adentra as fronteiras da nação. Ou alguém aqui, com verdadeira coragem, pode olhar nos olhos de uma mãe que perdeu seu filho no atentado terrorista de ontem, e falar a ela que devemos abrir nosso país aos islâmicos?

Foto: Reprodução/Interne - Atentado deixa mais de 80 mortos

Foto: Reprodução/Internet – Atentado deixa mais de 80 mortos

E isto está infinitamente além de: esquerda contra direita. Agora trata-se de assassinar ou não uma nação; trata-se de matar ou não um povo em troca de um “humanismo” que, a cada dia mais, fede a cadáver. Precisamos de sanidade e equilíbrio para não condenar inocentes, mas devemos manter a mesma sanidade para assumir que a Europa está definhando em nome de um discurso pateta.

A verdade é que aqueles que evocam o “humanismo” como resposta geralmente são aqueles que viram a face quando vêem corpos jogados ao chão cobertos com sacos plásticos; são aqueles que constatam que o “humanismo” que eles tanto advogam em seus palanques deixaram, por fim, palácios de homens sucumbidos. Mas, mesmo assim, preferem continuar com suas arengas assassinas.

Não escrevo este texto com um sorriso no rosto: creio que o ser humano falhou. Não posso conceber que um homem mate outro na gratuidade anônima de um filantropismo religioso; não posso entender como uma mente humana concebe como um ato heroico deixar corpos de crianças inertes, como isso pode tornar-se, em algum mundo escatológico, uma bonança digna de paraíso. Estes acreditam que se ganha o céu fazendo da terra uma varanda do inferno.

Por isso, não serei eu o filósofo que vai fingir um amor cinematográfico ao Islã enquanto pessoas inocentes putrefazem-se em frente à porta de minha casa.

Após este artigo, eu te pergunto: quem matou em Nice (além do terrorista)?”

Referência:
[1] CHESTERTON, G. K. Considerando todas as coisas, 1ª Ed, Ecclesiae: Campinas SP, 2013, p. 57
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Sobre o Autor

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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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