Quem disse que errar é humano?

Muitos ditados populares carregam preconceitos embutidos. Outros denunciam traços de personalidade da pessoa que os usa..

Postado dia 11/01/2016 às 00:00 por João Anatalino

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Foto: Divulgação/Internet

Frases feitas são pressupostos que embutem crenças, e estas, se não forem desafiadas, ancora comportamentos limitadores. Isso porque muitos ditados populares são oriundos de experiências malogradas ou doloridas que alguém teve e, por conta disso, registrou-as em um ditado que passou a ser repetido inconscientemente sem que jamais alguém o tenha contestado. Quem prova que cruzar com gato preto na sexta-feira dá azar? Ou que manga com leite faz mal? Que de cavalo dado não se olham os dentes?

Muitos ditados populares carregam preconceitos embutidos. Outros denunciam traços de personalidade da pessoa que os usa. Quem diz que lugar de mulher é na cozinha não quer dividir com ela todas as coisas da vida, só algumas; quem acredita que água mole em pedra dura tanto bate até que fura pode estar mostrando que é muito persistente ou que é teimoso como uma mula. E quem disse que mulas são teimosas? Empacar é a maneira que elas têm de dizer não. Nós, seres humanos, temos muitas formas de dizer não. Alguns animais, como as mulas, só tem essa.

É preciso tomar cuidado com as mensagens embutidas nos ditos populares. Muitos ancoram comportamentos indesejáveis e hoje em dia, até politicamente incorretos. Acreditar que é de pequeno que se torce o pepino pode levar-nos a um processo frente ao Conselho Tutelar; acreditar que à noite todos os gatos são pardos pode fazer com que nós nos tornemos descuidados em nossas escolhas; acreditar que os opostos se atraem pode nos levar a escolher amigos e parceiros totalmente diferentes de nós, e isso fatalmente nos levará a muitos conflitos. Crer que a morte é preferível à determinada sorte revela uma predisposição de caráter fraco, incapaz de enfrentar os desafios da vida. Achar que cachorro velho não aprende truque novo é criar limitações ao próprio desenvolvimento pessoal. E assim por diante.

Alguém disse um dia que errar é humano. Essa pessoa, quando disse isso, certamente queria justificar a si mesma por algo que tentou fazer e não obteve bom resultado. Como a desculpa era boa, as pessoas passaram a repeti-la quando cometiam alguma besteira. Mas qual é a prova que justifica esse pressuposto? Porque errar é humano? O que quer dizer esse ditado infeliz? Que a humanidade já tem, na sua estrutura neurológica, uma falha congênita que fatalmente leva todas as pessoas ao erro?

Mentira. Errar não é humano. Errar, na verdade, é desumano. Quando admitimos pressupostos desse tipo estamos programando para nós mesmos um comportamento de conformidade e limitação. Estamos procurando desculpas para mitigar a culpa que sentimos por não termos atingido um bom resultado na nossa ação.

Fazemos isso diariamente. Encaixotamos o universo infinito em nossas mentes e lhe damos um nome: sabedoria. Mas o que é a nossa sabedoria além da quantidade, e principalmente, da qualidade de informação que temos? Falta de informação ou interpretação de má qualidade que fazemos dela é que são as causas dos nossos erros. Nossa mente não erra. Ela é como um computador da mais alta e moderna tecnologia. Ela só nos dá respostas erradas quando os dados com os quais a alimentamos são falsos ou incompletos. Se ela tiver as informações corretas ela nos dará respostas corretas. Pense nisso da próxima vez que for repetir um ditado ou uma frase feita.

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Sobre o Autor

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João Anatalino

João Anatalino Rodrigues é bacharel em Direito e Economia e Mestre em Direito Tributário e escritor com 10 publicações autorais.

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