Quando os conservadores acordam a esquerda dorme com medo

Quem diria Brasil, quem diria que um dia ser conservador seria um ato de revolução e ser marxista uma falência reacionária?

Postado dia 18/05/2016 às 09:00 por Pedro Henrique

 

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Foto: Reprodução/Internet

O Brasil padece da falta de um verdadeiro conhecimento estrutural inicial. Nós todos sabemos disso e negá-lo seria lutar contra o óbvio. Isto se dá em todas as áreas da educação: da matemática à política, da literatura à história; conhecemos rasamente sobre tudo, isto é, não conhecemos o suficiente para devidamente opinar. A consequência mais palatável desta aporia é a constante subversão de conceitos e os pedantes argumentos infundados, algo que, per se, já é motivo de profundo lamento.

Juntando tudo isso à parcialidade ideológica de nossas instituições e professores, gera-se uma profunda convicção dogmática sobre certos assuntos e opiniões que, quando contestadas, dão início a dois movimentos no interior do Homem: 1) a reafirmação de conceitos e ideias sem previamente refletir sobre elas, não se buscando a fundo as bases e implicações de suas ideologias. Junto com as atitudes anteriores, há uma verdadeira negação irrefletida e dogmática diante de exposições de ideias contrárias, uma retração de defesa frente a contestação de seus princípios que, anteriormente, eram tão certos e irrevogáveis. Nestes moldes não há abertura para o debate e o conhecimento. 2) O segundo movimento trata-se da abertura ao novo pensar, a reavaliação das suas argumentações e o deixar-se desvelar. Uma atitude corajosa de fazer a epoché de suas ideias rumo a uma reformulação de seus conceitos ou a reafirmação dos anteriores.

Num contexto mais amplo, o ponto dois (2) é o mais sadio, pois não te deixa inerte em conceitos dogmáticos e nem te torna escravo de cartilhas partidárias e/ou professores doutrinadores. Em suma, o ponto dois (2) lhe ensina a pensar. Mas infelizmente não é o ponto dois que é seguido em nosso país, mas sim o ponto um (1). E isto se dá na política de forma muito ampla e descarada, hoje temos mais dogmas na política do que nas religiões tradicionais. Na teologia se discute de forma muito profunda e democrática as fundamentações da Trindade Santa, sobre como a Igreja Católica poder ser a única mediadora da salvação do homem moderno num mundo de tantas matizes religiosas; protestantes e católicos discutem teologicamente como Maria pode ter se mantido virgem mesmo após o parto de Jesus, e fazem isto num clima muito afetuoso e amigável. Mas, no Brasil, nas ciências políticas e filosóficas não se contesta o marxismo, ele é um dogma que não deve ser tocado, apenas bajulado e reafirmado constantemente como um mantra acadêmico. É uma teoria econômica e política perfeita, ou melhor, imaculada. Não é permitido discutir a corrupção da virgindade materialista do marxismo. Não se refuta, em nenhuma estância, a teoria de mais-valia de Marx, é impossível propor que esta teoria carregue um erro infantil de conceituação quando trata de investimento e contabilidade de lucro; não se contesta Paulo Freire na filosofia da educação, com a pena de excomunhão latae sententiae do grupo dos bons e misericordiosos. Na maioria das vezes — tem exceções, é preciso dizer — não há possibilidade de debate com estes alunos e docentes.

A esquerda tem que entender que a estatização e a centralização de poder não são uma possibilidade democrática no debate político acadêmico.

Estes problemas iniciam-se nas estruturas mais rasas do ensino. Quando professores são doutrinados e não ensinados, quando se ensina Marx com sorriso no rosto e Adam Smith com ar carrancudo. Quando, antes de expor fidedignamente as ideias dos pensadores, alertam a classe de que Adam Smith defendia os ricos em detrimento dos pobres e Karl Marx defendia os pobres frente ao capital do inimigo burguês, aí já não há mais ensino, há tendencionamentos da matéria rumo à fins políticos. Os professores são tão vítimas quanto as vítimas que eles fazem agora. A crise brasileira é muito mais profunda do que roubar milhões da Petrobras, esta crise está num subsolo muito mais profundo do que as pedaladas fiscais, dinheiro, a duras penas e esforços, podem ser repostos, mas um doutrinamento, o cabresto político-militante nem sempre pode ser tirado depois de colocado. A ideologia penetra no mais fundo da consciência do homem, tornando-o defensor de ideias incabíveis, de teorias ilógicas; este homem torna-se um demente consciente, e, quando um demente não quer ajuda e sente-se satisfeito em sua paranóia, não há cura possível.

A crise brasileira se faz mais profunda quando roubamos do adolescente e do jovem a chance de ele ter as delícias de conhecer algo sem ser teleguiado por fins políticos, quando ele é um jovem interessado em estudos políticos e não em políticas do partido de seu professor. O maior roubo cometido nesta área é o roubo das capacidades de um Homem poder fazer uma pesquisa árdua antes de emitir uma opinião fundada e sincera, talvez aquilo que chamamos de “certeza” ou “conclusão” estejam vindo antes dos estudos autênticos das premissas de um autor. Já se inicia o estudo do socialismo sendo socialista convicto e irrevogável. Este modo de ensinar e aprender é uma inversão terrível, é o ponto de partida de toda ditadura. Hoje o cartão de ingresso nas universidades não é tão somente as competências e os méritos dos candidatos, mas sim saber levantar o punho fechado, dar gritos de guerra com os camaradas e, se quiser uma garantia de excelência, usar uma camisa do Che.

Mas há uma mudança na passividade dos alunos, uma mudança que está alarmando todo mundo acadêmico brasileiro. Este levante está causando um grande reboliço nos antes calmos e serenos mares do marxismo cultural brasileiro. De uma hora para outra, numa aula de materialismo histórico, em qualquer universidade federal ou não deste país, estão se levantando alguns algozes da hegemonia esquerdista; estudantes estão levantando e dizendo: “Ei professor, você sabe que isto aí não dá certo né”? Estupefato o professor lhe olha, seus antigos camaradas, e, agora, inimigos, olham-no com aquele estranho e assustado olhar de: “como ousa”? Este corajoso, eu diria até, louco aluno, fundamenta suas contestações com fortes nomes e documentos, fazendo com que uns lhe chamem de fascista, “yanke” e, no mais tardar da alta argumentação: “bolsonete”. Mas, outros que inicialmente sentiram-se furiosos com aquela ousadia ilimitada, agora, vendo o professor engasgar ao dar sua réplica patética, prestam atenção, não mais nas já repetidas e esgotadas argumentações do douto socialista, mas nas inéditas e claras oposições daquele aluno.

As palavras daquele louco — daquele conservador, daquele liberal — faz com que, no mais profundo das consciências daquela classe, algo surja como alerta: “faz sentido, porra, faz muito sentido”. Eles até tentam afastar aqueles pensamentos burgueses, aquela contaminação reacionária, todavia, aqueles argumentos mostram um novo mundo que ainda não tinham explorado, e, quiçá, não explorariam, não naquela universidade. De uma aula para outra o materialismo histórico torna-se uma ideia embaçada, uma concepção de mundo turva e sem dignidade. Isto te leva a buscar outras leituras, outras ideias, o mercado livre não é mais uma ideia vinda das profundezas do inferno burguês; quem sabe até ele não seja apenas uma concepção econômica mais arejada, mais certa.

Neste caminhar começa a surgir uma juventude conservadora e liberal dentro das universidades tomadas pelo marxismo acadêmico. Algo impensável, diríamos há alguns anos, mas está acontecendo e ninguém em sanidade negará. Sem ter como explicar direito, uma nação se levanta questionando o que outrora era conseguido no meio político com muita facilidade: ora como assim meus impostos vão sustentar tantos cargos públicos? Para que um governo tão centralizado? Por que a bolsa-família não tem um tempo determinado de valia? Muitos começam a sair do seu mundinho vermelho e fazer novas leituras. Ao invés de Paulo Freire e Marilena Chauí, deram Chances a Mario Ferreira dos Santos e Ruy Barbosa, ao invés de lerem novamente Marx, leram Adam Smith e Edmund Burke. Não se contentaram mais com as explicações econômicas de Thomas Pikkety, mas leram Friedrich Hayek; além de Gramsci, leram Roger Scruton e Eric Voeglin.

Todo esse movimento de emancipação nacional, de crescimento intelectual e cultural, só se deu por causa da prisão onde estes doutrinadores puseram toda a consciência desta geração. Sempre haverá um pássaro que entenderá que a gaiola não é o seu mundo. Sempre haverá um conservador que entenderá que ele é mais que um animal predestinado a ser como seu ambiente lhe dita, sempre haverá um que não levantará o punho cerrado frente há uma multidão de punhos cerrados. Geralmente são estes que salvam um país.

Quem diria Brasil, quem diria que um dia ser conservador seria um ato de revolução e ser marxista uma falência reacionária? O Brasil entendeu o que o mundo vem entendendo aos poucos: a história sempre é salva por alguns que não se deixam guiar por cartilhas utópicas; sempre há de ter alguém que mostre que uma utopia não vale uma vida!

O Brasil, assim como a América latina, está a viver um momento de renovação das ideias conservadoras, e isto está acontecendo porque estão percebendo que ser conservador não é ser a favor da ditadura militar, como tantos dizem. Estes estudaram e entenderam que a ditadura militar é um movimento amorfo que se molda em ambas as polarizações políticas. Como tivemos ditaduras militares de direita, tivemos também de esquerda. Alguns perceberam que estavam sendo vítimas de doutrinação, que não estavam pensando com suas cabeças, que estavam sendo moldados segundo a cabeça de terceiros. Intelectuais, jornalistas e livre pensadores levantaram-se e começaram a falar muitas coisas que incomodavam a esquerda, aos poucos a própria esquerda, na sua ânsia de combater o discurso “burguês”, começou eles próprios a proliferar as ideias que antes estavam no Index comunista. Homens e mulheres, conservadores e liberais, estes, antes acanhados e expulsos dos montantes dos “pensadores”, começaram a ganhar espaço na mídia, o povo começou a escutá-los. Agora era questão de tempo até a sociedade começar a refletir sobre aquelas ideias da esquerda que antes eram postas e aceitas sem contestação. Aos poucos o Foro de São Paulo saiu da escuridão da omissão jornalística, hoje todos sabem que há um quartel general da esquerda na América Latina com o único intuito de tornar este continente todo socialista.

Com as mais torpes e descaradas mentiras, a esquerda começou a se perder em seus próprios ditames. O povo, não mais inclinado ao dogmatismo da esquerda, começou a questionar e contestar. Quando a esquerda deu por si, se viu de costas para a parede diante da população, e havia um verdadeiro exército de homens e mulheres que negavam prostrar-se diante deles. O PT tremeu, a esquerda tremeu, um grande levante popular arrasou o país e as estruturas da esquerda, quase que do dia para noite a esquerda não era mais vista como a solução nacional. Pegaram todas as suas podridões, todos os esquemas larápios, mais os crimes fiscais, e jogaram todos a vista da nação. Não havia mais como negar, não havia mais para onde fugir, não havia mais argumentos convincentes, o Brasil tinha acordado.

O povo decidiu que estava na hora não só de mudar de partido ou de governo, mas de mudar o modus operandi, a polarização política. A esquerda não cabia mais ao Brasil. Como os intelectuais e de esquerda responderam? Como os políticos e os fanáticos militantes responderam? Não responderam, gritaram, pois, sejamos sinceros, em fazer barulho eles são competentes. Entre gritos de “fascistas”, “reacionários” e “golpistas”, caminhamos alguns meses. Com argumentos fracos que já não eram aceitos nem nas camadas mais desprovidas de estudo, foram rechaçados. Quando o AGU subiu no púlpito para defender o governo, foi desastroso, vergonhoso. Com uma clara aflição e certeza das suas incertezas, deu-nos um montante cadavérico de argumentos insólitos e shows de stand-up.

O Brasil se levanta, e se levanta com ares conservadores e liberais, algo inédito após a redemocratização. A esquerda está assustada, e deve mesmo, pois ela nos dá um discurso muito belo, uma utopia a se buscar, mas para aí. Não basta discursos, é preciso efetividade, não se quer um governo que pisoteie a fé popular, os princípios desta nação, que tire dos bolsos dos trabalhadores salários conseguidos a duras penas. O Brasil deixou bem claro que não financiará prostitutas para políticos e nem mordomia para empreiteiros e ex-presidentes. A esquerda está envolta em chorume, a corrupção. Não que o povo se iluda pensando que na direita não haja corrupção. O recado foi claro, quem roubar o país padecerá independentemente da direção de suas políticas. Mas hoje a indignação é, diga-se de passagem, a reta e digna indignação, contra um governo que dá com uma mão e tira com a outra. Um filantropismo de bordel.

Os conservadores acordaram, deixaram de lado a poeira das estantes e a canonicidade do silêncio, levantaram-se, e não possuem apenas bons argumentos, possuem a razão. Agora nossos punhos estão cerrados, mas não para clamar o levante da revolução socialista – estes punhos não estão segurando foices ou martelos. Nestes punhos suados e cansados, porém, fortes e guerreiros, há uma bandeira verde e amarela, a qual não tende a ser vermelha, nunca. Os conservadores acordaram.

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Sobre o Autor

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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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