Qual é o problema da escola?

Ivan Illich certamente é um dos autores mais polêmicos da teoria educacional.

Postado dia 29/04/2016 às 09:00 por Julliana Santos

escolas

Foto: Reprodução/Internet

Ivan Illich certamente é um dos autores mais polêmicos da teoria educacional. Ele derruba pilares erguidos ao longo de qualquer formação nas licenciaturas. Seu livro, intitulado “Sociedade sem Escolas”, propõe uma nova perspectiva para a formação humana, e nos instiga a pensar em alternativas para uma educação libertadora, visto que há um fracasso declarado do modelo enraizado de educação escolar.

Primeiramente é preciso lembrar uma frase do livro onde o autor afirma que muitos estudantes, principalmente os mais pobres, percebem intuitivamente o que a escola faz por eles. Isso não é surpresa para ninguém, surpresa é ouvir de uma criança que ela adora frequentar a escola. A começar pela obrigatoriedade, a burocracia e o prolongamento artificial, que são elementos destrutivos do processo de aprendizagem. Outro problema que o autor levanta é que essa instituição escolariza os pais e as crianças, de modo que eles acabam confundindo instrução escolar com aprendizagem. E não pára por aí, eles aprendem a falsa associação entre ensino e aprendizagem, obtenção de graus com educação, diploma com competência, fluência no falar com capacidade de dizer algo útil. Exemplo disto, podemos observar a diferença entre um graduado que não lê e um não graduado que ama ler. No caso dos estudantes mais pobres, a maioria já entendeu a enganação da máxima das escolas: “Conclua este curso e tenha um futuro melhor”. Na realidade não é bem assim.

Uma escola que promove um genocídio intelectual, uma burocratização do conhecimento, que só serve para atender aos interesses das próprias instituições “educacionais”, que escolariza o sujeito a pensar que só é possível acessar o conhecimento através desses aparelhos ideológicos de Estado, não pode trazer um futuro melhor para o menino pobre, com ensino pobre, sem recursos para “comprar” diplomas, sem oportunidade de vivenciar momentos de aprendizagens reais. Mas as escolas com seus diplomas seguem firmes, arrecadando impostos de toda a população que crê nessa ideologia como uma verdade inquestionável, uma quase-religião. Enquanto isso, a própria imaginação dos sujeitos se torna institucionalizada, e o maior problema é que toda essa dinâmica é sistêmica. O que faz esse sistema funcionar é a desclassificação dos sujeitos que não tiveram uma escolarização prolongada, e essa lógica é cruel. Quer dizer que só podemos provar que somos aptos a exercer alguma tarefa mediante apresentação de diplomas, que só podem ser gerados por meio do carimbo da escola. Ou seja, o tempo de escola se tornou um critério para legitimar a hierarquia social. Mesmo que um sujeito tenha exercido uma atividade durante toda sua vida, quem será autorizado para exercê-la legalmente é aquele outro sujeito que possui o diploma. Nesse sistema, o ensino informal e não-formal são deslegitimados. O autodidata é visto como um ser imortal com dons excepcionais, enquanto que uma noção de dependência é incorporado nos meros mortais.

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Essa dependência é bem clara: somos ensinados que há necessidade de ser ensinado. Este princípio básico nos limita e nos impedem de crescer com independência, sempre esperando que o ensino parta de um outro (profissional) para si mesmo. Além do mais, o autor argumenta que a escola atrapalha a aprendizagem porque provoca raiva dos estudos quando impõem as leituras obrigatórias, os castigos envolvendo o ato de estudar, exposição dos alunos, a padronização, o confinamento, a artificialidade do cotidiano, a grade curricular, a competição, a meritocracia, etc. Um exemplo forte para ilustrar sua crítica é quando um aluno falta à aula. O professor e a instituição ignoram os motivos que o levaram a se ausentar. Se ele foi vivenciar alguma atividade que contribui para sua formação, não importa. Ele recebe falta porque a escola diz que o aprendizado só ocorre quando planejado por profissionais, e quanto aos alunos, resta obedecer.

Illich defende uma sociedade sem escolas, mas isso não significa uma sociedade sem educação. Confundir esses conceitos é o mesmo que confundir saúde com medicação. Mesmo com tantas críticas, o autor não quer dizer que todas as formas de organização educacional sejam extintas. Todos aqueles que quiserem aprender devem ter acesso aos recursos disponíveis em qualquer momento da vida, não apenas na infância ou na adolescência. Um sistema assim possibilitaria a ampla difusão e divisão do conhecimento, que não ficaria limitado aos especialistas. Assim, Illich propôs a criação de uma espécie de teia educacional, composta por todas as nossas relações entre amigos, no trabalho, na família, na comunidade e assim por diante. A ideia é transformar todos os momentos do nosso cotidiano em momentos de aprendizagem.

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Sobre o Autor

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Julliana Santos

Educadora em formação pela Universidade Federal de São Paulo.

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