Precisamos falar sobre Cunha

A permanência do presidente da Câmara, também implicado na Lava Jato, pode contaminar o impeachment e abrir espaço para contestações da militância

Postado dia 21/03/2016 às 15:03 por Janaína Leite

cunha

Foto: Divulgação/Internet

A decisão da presidente da República de nomear seu antecessor para o comando da Casa Civil, anunciada na semana passada, evidenciou a bipolaridade ética que tomou conta das militâncias, bem como o empobrecimento da capacidade analítica dos formadores de opinião, o vale-tudo do jogo político e o desgaste, por parte dos indivíduos, da observância de valores maiores frente a um apego excessivo e irracional aos próprios gostos e opiniões.

Os governistas consideram que a indicação de Lula não tem nada de escandaloso. Ignoram propositalmente o fato de ela ocorrer após o ex-presidente ter sido indiciado por lavagem de dinheiro e virado alvo de um pedido de prisão preventiva. Valem-se, para tanto, da alegação de que o petista é perseguido pelo Judiciário. As mesmas pessoas, no entanto, gritam pelo afastamento imediato do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, outro implicado pela Lava Jato. Consideram uma afronta o deputado peemedebista manter o cargo diante de tantas denúncias de corrupção.

Do lado contrário, oposicionistas convulsionam com a chegada de Lula ao primeiro escalão. Afirmam que existe uma clara tentativa de obstrução da Justiça e abuso de poder por parte da presidente, que usa a força de sua caneta para ajudar o ex-presidente a fugir de um juiz severo na primeira instância e a abreviar o devido processo legal. Os críticos de Lula, todavia, parecem bem menos incomodados quando o assunto é a permanência de Cunha no Legislativo — desde que este último mantenha a disposição de acelerar o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Lidar com o parlamentar e suas contas suíças seria um mal menor, colateral, a ser analisado no futuro, mas necessário no momento para garantir a rapidez do afastamento da presidente.

Ora, não é preciso esforço de raciocínio para observar que a dissonância cognitiva tomou conta de ambas as posturas. Mesmo que a retórica possa justificar o paradoxo com o verniz da “estratégia” e amealhar detalhes para montar uma historinha palatável, suficiente para garantir a imagem positiva que cada lado tem de si, o esqueleto da narrativa está dado e não é bonito: aceita-se conviver com as falhas de caráter e de método que um escolhido porventura tenha, desde que o eleito garanta a vitória da ideologia que o militante em questão defende.

Enquanto cada um pinça um envolvido na Lava Jato para chamar de seu, a velha política costura meios de governabilidade mínima e proveito máximo. Renan Calheiros, tão enrolado quanto Lula e Cunha, continua firme na presidência do Senado. Michel Temer, cujas citações na Lava Jato ainda não foram de todo esmiuçadas, já escolhe ministros — o senador paulista José Serra, aparentemente, é um dos assanhados para abocanhar uma pasta. Garantiu publicamente a participação do PSDB no governo de Temer. O outro tucano presidenciável, Aécio Neves, está em posição bem menos favorável, depois de topar mais uma vez com denúncias de ter ligações com a suposta corrupção em Furnas. Terá de se explicar.

Na pauta de prioridades de um novo governo, aparece a extensão do foro privilegiado a ex-presidentes e o fim da reeleição. Entretanto, o objetivo primeiro e inconfessável é colocar um cabresto nos investigadores da Lava Jato — o mesmo da presidente Dilma Rousseff e seu novo ministro da Justiça, o falante Eduardo Aragão.

O Brasil está, portanto, diante de uma bifurcação. Tem a chance de começar uma limpeza profunda no Executivo e no Legislativo (profunda o suficiente, aliás, para atingir a corrupção do próprio Judiciário mais adiante). Ou de continuar vivendo a partir de uma imensa fantasia, que começa com uma distorção de pensamento simples: todos são errados, mas os meus errados são melhores que os outros.

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A permanência do presidente da Câmara, também implicado na Lava Jato, não pode contaminar a legitimidade do impeachment. Suas iniciativas fomentarão a militância oposicionista a não aceitar o resultado do processo, o qual parece cada vez mais encaminhar-se para o encerramento prévio do mandato de Dilma Rousseff. O aferrar-se de Cunha ao cargo também representa tentativa de obstrução da Justiça, ainda que menos explícita que a nomeação de Lula. A atuação ardilosa do peemedebista a partir de manobras regimentais continuará “ad infinitum”, caso a Procuradoria-Geral não encontre um modo de impedir que ele continue.

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O Judiciário vive um momento ímpar. A união dos magistrados em torno da Lava Jato reacendeu o gosto pela profissão e contagiou os brasileiros, que andavam desesperançados com todas as instituições. Talvez fosse o período ideal para que os juízes, além de desempenharem o importante papel de lembrar ao Executivo e ao Legislativo que eles precisam respeitar as leis, começassem a corrigir as distorções enfrentadas dentro do próprio poder que ocupam. Como, por exemplo, a incorporação de benefícios que extrapolam o teto do funcionalismo e geram super salários; a distância no tratamento entre o funcionalismo técnico e a magistratura; a suntuosidade excessiva, injustificada e caríssima de certas instalações.

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O Supremo Tribunal Federal e seus atores mobilizarão todas as atenções ao longo dos próximos meses. Importantíssimo o exemplo de sobriedade e o cuidado ao manifestar-se publicamente sobre os processos que julgarão.

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Que ninguém se engane. Grupos de todos os matizes políticos tentarão frear Sergio Moro e os demais investigadores da Lava Jato. Se preciso, tentarão destruir a reputação e a credibilidade de todos, a exemplo do que aconteceu na Itália com a operação Mãos Limpas. As tentativas de impedir as prisões preventivas (portanto, acabar com as delações premiadas) serão inúmeras. De tentar caracterizar os investigadores como burgueses e coxinhas que não representam o povo também (já tem gente defendendo que o diploma de Direito não seja o único exigido para entrar no Ministério Público). O juiz de Curitiba precisa ficar atento e triplicar sua atenção com o aspecto técnico de suas decisões. Quanto menos enveredar por sentenças polêmicas, passíveis de serem caracterizadas como políticas, melhor.

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No meio da bagunça, Andrea Matarazzo aparece como a versão tucana de Marta Suplicy e sai do ninho. Ela foi xingada dentro do PT, partido que abandonou. Como os peessedebistas são bem menos marrentos, à boca miúda o que se ouve para Matarazzo é cumprimento, principalmente daqueles que ficaram.

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Nem as intenções favoráveis de voto estimularam Marina Silva a sair da toca para falar de maneira clara, enérgica e oficial sobre o caos que o país atravessa. Impossível não questionar se há algo aí que ultrapasse o instinto de preservação.

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Insuportável a perda de decência com as falsificações de palavras e imagens nas redes sociais. Quem não quiser participar de nenhuma farsa, nem servir como massa de manobra, deve checar com cuidado a veracidade daquilo que compartilhar.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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