Pragmatismo, talvez uma esperança

É preciso ser muito desconectado da realidade para discordar de economistas que afirmam estar o Brasil à beira de um precipício

Postado dia 15/10/2015 às 13:38 por Janaína Leite

pragmatismo

Tirinha criada por Pedro Ivo

“Na política é preciso ser pragmático, Janaína.” Assim me disseram, justificando pactos duvidosos, atados com pó-de-mico e barbante de volta-atrás. Sorri. Tem horas que um sorriso é tudo que resta a gente como eu. Caso contrário, o quê? Só a barbárie.

Mas aqui junto aos meus leitores, esses que me emprestam um pouco de vida do outro lado da tela, não resisto ao questionamento. Se nossos políticos são tão pragmáticos, se são capazes de tanto sacrifício para dar o braço a uns e a outros, expondo o rebolado em inegável “trottoir”, se cortam gargantas amigas e tendões fraternos quando a necessidade lhes ordena, por que fazem tanta onda quando o assunto é ser pragmático ao cumprir a lei e governar sem ferir uma lógica simples, a de gastar dentro do que se arrecada, evitando arrebentar as contas públicas?

Há um ano, tempo de eleições, uma versão mais parruda e estarrecida de Dilma Rousseff entrava na casa de milhões de brasileiros garantindo que seu partido trouxera ao Brasil uma bonança jamais vista. Faltava-lhe apenas uma coroa de louros e uma cornucópia despejando moedas para a personificação da própria Fortuna.

Passados os meses, despojada das adiposidades da propaganda, a presidente transferiu seu espanto aos cidadãos, os atuais estarrecidos. Longe de deitar-se em berço esplêndido, como diziam os marqueteiros, o país encontrava-se macilento e largado no corredor que conduz à UTI. Hoje mesmo o Brasil foi rebaixado por mais uma agência de investimento, um aviso para os investidores tomarem cuidado.

Aos números. Cerca de 64% dos brasileiros não conseguem poupar nada. Revistas especializadas em economia informam em sua capa a ocorrência de sete demissões por minuto no Brasil e esse número logo deve dobrar. Dobrar! Em quase 20% dos lares do país nenhum morador tem emprego. Há cada vez mais dificuldade de pagar pela educação (a inadimplência no semestre subiu mais de 22% no caso das universidades e quase 26% no ensino fundamental e médio, em comparação ao ano passado). O contingente de pessoas com o nome sujo na praça atingiu 57 milhões de brasileiros, uma alta 5,5% em setembro. Subiu em 11% a proporção de endividamento dos idosos (entre 65 e 84 anos). Quase metade das dívidas atrasadas pertence a consumidores entre 30 e 49 anos. O dólar disparou e interferiu em uma série de indicadores, do pão francês à dívida pública. O PIB brasileiro deve encolher algo entre 3% e 3,5% este ano, com uma inflação acumulada em quase 10%. Programas sociais foram descontinuados, linhas de crédito minguaram, remédios pararam de ser distribuídos.

É preciso ser muito desconectado da realidade para discordar de economistas que afirmam estar o Brasil à beira de um precipício. Só não varou em queda livre porque a crise ainda não bateu com força total no epicentro da classe C. Daqui a dois ou três meses, quando isso acontecer, os lamentos tornar-se-ão mais audíveis.

Ficou ruim assim de janeiro para cá? Óbvio que não. A má gestão aconteceu ao longo dos últimos quatro anos, as consequências é que tornaram-se evidentes agora. Prova disso é que para fechar a contabilidade dos últimos anos Dilma encheu as contas públicas de botox. Só em 2014 o rombo chegou a R$ 106 bilhões, uma montanha de dinheiro equivalente ao reservado para o Ministério da Saúde e maior do que os R$ 82 bilhões que deveriam ser destinados à Educação.

Impossível, a não ser por má fé, acreditar que a presidente e seus apaniguados eram ignorantes em relação ao descumprimento sistemático da Lei de Responsabilidade Fiscal. Continuaram a fazer jogadas em 2015, mesmo depois de alertados.

Abro o jornal e leio que Dilma procura argumentos para desacreditar o Tribunal de Contas da União, que rejeitou suas contas, e que o ex-presidente Lula defendeu a maquiagem. “Ela fez as ‘pedaladas’ para pagar o Bolsa Família, ela fez as pedaladas para pagar o ‘Minha Casa, Minha Vida'”, afirmou o petista, “pois tinha que pagar coisas que não tinha dinheiro”.

Quer dizer que Dilma não tinha dinheiro para sequer cobrir os programas sociais mais importantes e ia para a televisão engabelar os eleitores com sua conversa fiada, sabendo que a bomba viria a explodir daqui a pouco? Que Dilma diz que “pedaladas” estão de acordo com a lei, mas usa essas mesmas “pedaladas” como exemplo quando fala da suposta ilegalidade de um impeachment, classificado por ela como “pedalada política”? Que Lula, em outubro de 2014, dava entrevistas dizendo que o Brasil de então estava “infinitamente melhor do ponto de vista das finanças públicas” e que ele, Lula, aprendera com a “mãe analfabeta” que “a gente não pode fazer dívida que a gente não pode pagar”?

Você talvez entenda, talvez tenha mais paciência, autoestima ou visão enxadrista. Eu olho para tudo isso e me sinto uma otária digna dos sambas de Bezerra da Silva. Para mim, isso não é política, não é pragmatismo. É praga. A praga do vale-tudo, da politicagem que destrói a lavoura assim que ela começa a brotar e deixa no lugar apenas terra arrasada, prendendo a nação em uma espiral de atraso, mentira, inoperância, arrivismo.

Há, porém, um ponto de ressalva. Perguntou a presidente da República: “Quem tem força moral, reputação ilibada e biografia limpa para atacar a minha honra?” Tirando o visível drible retórico para escapar das críticas (atacar a honra é uma coisa; apontar a incompetência, como o TCU fez, é outra), Dilma tem bons motivos para fazer a pergunta. Ela não é exceção, é a regra.

Governos anteriores “pedalaram”, mesmo que não a ponto de mandar um orçamento deficitário para o ano seguinte, como o atual. Governos estaduais também “pedalaram” e estão lançando receitas imaginárias em suas contas. Prefeitos vão pelo mesmo caminho. Para se livrar de responder pelo crime de responsabilidade fiscal, estudam “flexibilizar” a lei. Pior: continuam gastando e gastando. Os jornais dão conta de que 15 estados — quinze! — aumentaram suas despesas correntes nos primeiros oito meses do ano em comparação ao ano passado. Some-se à incapacidade e à irresponsabilidade administrativa os efeitos da crise econômica, com a queda na arrecadação, e eis que a ruína das contas públicas nos é servida a quente, para ser engolida sem mastigação.

O pior é aguentar a bazófia de que, se um político foi malandro e escapou, bom, então é nossa obrigação permitir que escapem todos. É o “justo”. Afinal, eles foram eleitos.

Quanta abobrinha, quanta impostura!

Foram eleitos a partir de mentiras e querem vista grossa para seus embustes de campanha, para que todos, igualmente, fraudem os balanços, incorram em improbidade e pratiquem crimes de responsabilidade.

Ora, somos, sim, um país de mal educados, onde o analfabetismo funcional é altíssimo e os estudantes consideram normal recorrer às colas para manter o boletim no azul. Daí a nos tomar por asnos completos, no entanto, vai alguma distância.

Políticos de nenhum partido podem estar acima do bem e do mal, livres para fazer o que lhes der na telha. Permitir que gastem loucamente e façam ilusionismos contábeis, que ostentem sua inaptidão administrativa e suas mentiras desaforadas, que exibam à luz do sol o seu vampirismo financeiro é decretar o suicídio moral de um povo, vergar-se a uma escravidão que jamais terá fim, com uma imensidão de impostos sem contrapartida. Passar por cima da punição das “pedaladas” e práticas afins é enterrar a Lei de Responsabilidade Fiscal, uma das principais garantias dos bons fundamentos econômicos.

É essencial que os auditores do TCU recebam apoio popular maciço por seu trabalho — muitíssimo bem realizado, por sinal — de trazer as contas públicas aos eixos. Não é Dilma Rousseff que precisa ser combatida, nem fulano, sicrano, beltrano. Não é a pessoa física que está em jogo. É a arrogância do gestor público que, eleito para cuidar do dinheiro de todos, administra mal, cria prejuízos, desestabiliza o sistema e depois faz tudo para se manter no poder, fechando alianças fisiológicas com qualquer demônio que vê pela frente.

Para garantir sua permanência no cargo, os governistas estão dispostos a fechar os olhos para as contas suíças do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que também negocia com a oposição, tão despreocupada de sua dignidade quanto o governo. Todos usam a desculpa do “mal menor”, aquele que carece ser abraçado para resguardar um objetivo mais relevante. O horror, o horror.

O Brasil está sendo levado ao buraco enquanto estamos distraídos com essa novela de contas suíças, MPs vendidas, doleiros delatores etc. E nós, mesmerizados, lesmas de sofá, apertamos o botão do controle remoto pulando da ficção para as notícias sem perceber diferença entre ambos.

A hora é, sim, a do pragmatismo. Mas não o deles. O nosso. Todo o apoio ao TCU, mesmo que tal apoio implique dizer “sim” ao impeachment. Todo o respeito ao dinheiro público. Caso contrário, o quê? Sorria. Ou prepare-se. A barbárie, um dia, acabará irrompendo.

 

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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