Por ser mulher

Primeira regra que aprendeu quando criança foi que havia nascido sob o signo da fêmea, e, por tal, deveria sempre estar alerta aos perigos do mundo

Postado dia 01/02/2017 às 08:00 por Karla Hack

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Foto: Reprodução/Internet

Nem é tão tarde, mas a rua está particularmente escura. O sol se escondeu um pouco, a iluminação pública falhou, o movimento diminuiu de repente, ficou ermo. Seu destino é logo ali. Você segue. Afinal, você é uma pessoa adulta, tem seu celular em mãos e seu salto não é tão alto assim. São apenas mais alguns passos e estará lá, sã, salva e protegida.

Primeira regra que aprendeu quando criança foi que havia nascido sob o signo da fêmea, e, por tal, deveria sempre estar alerta aos perigos do mundo. Você é mais frágil, você não tem direito a tantas vontades, você nem sempre será respeitada. Nem tinha seu corpo formado quando começou a ouvir os comentários indesejados sobre seus atributos.

Desde que se conhece por gente foi assim. Andar na rua invariavelmente gera alguma virada de cabeça, um assobio mais alto, um sonoro “gostosa”. Não importa que roupa escolha, que esteja com o cabelo oleoso, sem maquiagem, alguém vai falar. Só que você está acostumada. Incomoda sim, mas, ignora. O mundo é assim mesmo.

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Seu olhar fixa-se para o chão, a calçada é irregular e está um pouco suja, sua sombra segue a sua frente como guia. Só mais algumas quadras, você repete mentalmente. Notas de quem se vê sozinha na escuridão indesejada. Ao longe percebe um carro, seu olhar não se levanta, mas sente a velocidade diminuir a cada instante que se aproxima. Seu foco é em segurar mais firme sua bolsa, em não largar seu celular.

Enquanto o veículo lentamente passa ao seu lado, você encolhida e desprotegida, sente aquele fitar malicioso de que conhece bem. Ele segue e você volta a respirar. Mais algumas quadras e estará bem.

Quando pequena, começou a desenvolver um sexto sentido para o perigo. Qualquer respiração desproporcional, qualquer ruído desconectado, qualquer alarde indevido, faziam seu corpo saltar. Sobressalto que não escondeu quando sua sombra encontrou outra sombra. Do sobressalto ao passo acelerado, ao grito escondido, ao desespero contido… Ao susto, que só passou quando viu outra mulher cruzar a sua frente. Houve condescendência ao medo.

O destino à frente, a calma com a luz. E lá dentro discutiam mais uma história absurda, algo sobre uma garota que havia sido estuprada por não sei quantos – quem sabe ela tivesse sua parcela de culpa, quantas vezes não ouviu isso? Uma história que há séculos que se repete, há séculos se cala, há séculos se consente. O final justificou seu medo. E você acorda por segundos: isso nunca vai mudar?

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Karla Hack

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