Por que precisar tanto da opinião do outro?

Algumas pessoas ficam tão dependentes do olhar de aprovação do outro que não se sentem seguras para tomar suas próprias decisões

Postado dia 06/06/2016 às 08:00 por Priscilla Brandeker

opinião

Foto: Reprodução/Internet

Seja sincero. Em quantas situações de dúvida ou problemas da sua vida você sentiu a necessidade de compartilhar ou pedir a opinião/ajuda de uma ou mais pessoas? Ok, sabemos que temos uma boa dose de vontade de desabafar e sermos ouvidos, mas será que é só isso mesmo que queremos? Pois analisemos sobre o quanto essas opiniões nos fizeram ou não refletir de verdade.

Uma coisa é certa: nós brasileiros, nos preocupamos em demasia com a opinião das outras pessoas. Se o cabelo está feio, se devemos ou não sair com uma pessoa, se a roupa está apropriada, se estamos nos comportando como deveríamos em determinados locais, etc, etc, etc. Mas até que ponto ouvir a opinião do outro nos ajuda? Há aqueles que dizem não precisar da opinião de ninguém, pois de qualquer forma manterão suas idéias iniciais. Mas convenhamos: ouvir algo aqui ou ali nos fará refletir e ponderar alguns pontos, pelo menos. Por outro lado, há pessoas que não fazem absolutamente nada sem perguntar para alguém.

Agora vamos falar um pouco sobre a importância do olhar do outro em nossas vidas. Donald Winnicott e Jacques Lacan, dois importantíssimos teóricos que revolucionaram, cada um de sua forma, o campo da Psicologia, com conceitos e concepções que se destacaram a partir de pensamentos propostos por Sigmund Freud e, adiante, Melanie Klein, estudaram e aprofundaram suas observações sobre o que o olhar da mãe é capaz de produzir no bebê.

Winnicott, em seu livro O Brincar e a Realidade, dedica o capítulo 9 para falar sobre o papel do espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil. Ele afirma que, “no desenvolvimento emocional individual, o precursor do espelho é o rosto da mãe”. Mas o que isso significa? Winnicott dizia a criança só existe através da mãe e do olhar dela. Até certo período do desenvolvimento, mãe e bebê são uma coisa só e é a própria mãe, que vai apresentando o mundo à esse bebê, em doses homeopáticas. Isso quer dizer que o bebê aprende a observar as reações da mãe e dos demais ao seu redor e, a partir daí, percebe quando é “aprovado” ou não. Por exemplo: quando recebe um sorriso quando mama bastante ou come toda a papinha, quando é atendido prontamente com carinhos quando chora, etc. A partir de então, ele começa a escolher quais atitudes tomar, para que possa receber a aprovação da mãe (e dos demais), e por conseqüência, sentir/saber que por isso, então, é amado.

E assim vamos nós, buscando a aprovação dos pais até a nossa adolescência, fase em que a rebeldia aparece e já não queremos mais ser espelho dos nossos pais e fazemos de tudo para nos diferenciar e adquirirmos a nossa própria identidade (chamada de personalidade). É uma fase de grandes descobertas, e nem sequer nos damos conta de que nela também continuamos a buscar aprovações – só que desta vez, do nosso grupo de amigos. Gestos, roupas, músicas, comportamentos, tudo igual aos nossos amigos, para depois, numa fase mais adulta, irmos refinando e escolhendo aquilo que se encaixa mais com o que realmente gostamos.

Algumas pessoas ficam tão dependentes do olhar de aprovação do outro que não se sentem seguras para tomarem suas próprias decisões. A descoberta do mundo com seus próprios olhos nem sempre acontece de forma favorável na mais tenra infância e isso acontece, na maioria das vezes, porque algumas mães não se afastaram o suficiente de seus filhos para que eles pudessem desbravar e descobrir o mundo sozinhos, a partir das suas próprias percepções e sensações.

Vivemos o tempo todo sob o olhar da aprovação social e postos à prova, vide as divergências de opiniões e as ofensas na mídias sociais, onde cada vez mais a imposição do ponto de vista é sinônimo de aceitação e de uma suposta “sabedoria”, provocando desconfortos e desavenças. Reflitamos sobre essa suposta aceitação. Reconheçamos nossas qualidades e defeitos. Aceitemos quem realmente somos, sem narcisismos demasiados e sem dependências paralisantes.

Um abraço a todos!

Priscilla T. Brandeker

Psicóloga

CRP 06/123945

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Sobre o Autor

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Priscilla Brandeker

Priscila Brandeker é psicóloga especializada. Atende crianças, adolescentes, adultos e também pessoas da terceira idade. Priscilla T. Brandeker Psicóloga (CRP 06/123945)

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