Por que deu errado, Botelho?

No teatro soberana é a plateia, na democracia, soberano é o povo

Postado dia 24/03/2016 às 00:00 por Priscila Nicoliche

botelho

Foto: Reprodução/Internet

Para mim ser artista é ser político. Não necessariamente partidário. Mas é político. Porque para ser artista de verdade é preciso tomar posições. Mesmo quando se faz um singelo espetáculo para crianças.

E não é de hoje que a arte é muitas vezes utilizada como ferramenta de construção de um ideário político, haja vista a arte apolínea incentivada por Adolf Hitler como reflexo de sua Alemanha asséptica ou o Construtivismo Russo inspirando a criação de uma sociedade socialista.

Tudo certo.

Criadores e criaturas (para o bem ou para o mal) estavam em harmonia. Havia coerência.

O que deu errado no triste episódio com o ator (???) Claudio Botelho que, em cena, durante um espetáculo com músicas de Chico Buarque, atacou o governo, a presidenta e se disse um rei que não poderia ser peitado por um negro, filho da p**** da plateia?

O que deu errado foi a falta de coerência.

Vamos fatiar os acontecimentos: Primeiro. O musical de Botelho tem patrocínio obtido através da Lei Rouanet e, embora a empresa diga em qual produto cultural quer investir, o dinheiro é público! É meu, é seu. Presta-se contas publicamente sobre ele ao Governo Federal. Segundo. Eram músicas de Chico Buarque! Todo mundo conhece a posição política do Chico Buarque e não é nem no branco do olho igual a de Botelho. Terceiro. Em sua opinião, Botelho deflagrou seu pensamento racista, preconceituoso, odioso e nojento. Quarto. Ele, e isto parece estar virando uma lógica do nosso momento atual, inverteu a ordem das coisas: se colocou como rei e subestimou a plateia.

Não tem perdão.

Somos, antes de mais nada, trabalhadores como qualquer outro, inclusive deveríamos receber dignamente por nosso trabalho como qualquer um (então para de chamar seus amigos artistas para uma palhinha, na faixa, para divulgar o trabalho) e no teatro soberana é a plateia, na democracia, soberano é o povo.

Nada de mais Botelho ter sua opinião, seja ela qual for. Só que tem ter coerência. Não dá para cuspir no prato que se come. Fosse um musical com músicas do Lobão e da família Camargo (é o amor!) com apoio da FIESP e tudo estaria certo.

Botelho, deu ruim pra você.

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Sobre o Autor

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Priscila Nicoliche

Priscila Nicoliche é atriz, diretora de teatro, produtora cultural por necessidade, estudiosa livre e fundadora do grupo Quântica Teatro Laboratório.

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