A política dos mimados

O primeiro passo para mudar este aparato político pútrido é optar por uma política que vá além de suas paixões ideológicas

Postado dia 25/05/2016 às 09:00 por Pedro Henrique

 

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Foto: Reprodução/Internet

Passamos por vários problemas que considero serem problemas estruturais. Em uma analogia arquitetônica, mais ou menos aproximadora, podemos dizer que o problema da sociedade se encontra em seus pilares e não nos telhados. Todo o fanatismo religioso ou político, todo desenvolver de discussões infundadas e até mesmo a corrupção — pois a ética e a moral são os pilares mais basais de uma sociedade — são questões de base e não de superfície. Quando estes problemas tornam-se vistosos, assim aparecem, pois, extrapolaram as meras rachaduras e infiltrações. O Brasil hoje está ruindo por suas bases mal postas, por suas estruturas mal conservadas.

Reformar é um processo de restauração e revisão de projeto, um recolocar de novos pilares no lugar daqueles que estão fragilizados e prontos para ruir. Este movimento social só acontece pela autocrítica. Um alcoólatra só consegue iniciar sua restauração quando ele aceita que possui problemas com bebidas; não se cura uma doença se não há doente. É preciso aceitar que algo está errado. No Brasil, por exemplo, só enxergaremos os problemas da sociedade quando aceitarmos que a sociedade de fato possui problemas, e problemas profundos. Não adianta olhar para alguém na UTI sob aparelhos respiratórios e dizer para a família: “olha, ele está ótimo, nunca esteve melhor”. Esta ideia de que pensamentos positivos atraem alguma força cósmica universal para gerar bonanças gratuitas, as “boas vibrações” e pedras de poder, só existe nas mentes hippies, no mundo real, ser sensato ainda é a melhor escolha. Há de se encarar a realidade de frente e ousar dar nomes aos erros, às falhas.

Este processo de autocrítica é praticamente inexistente no mundo político nacional. Os partidos não assumem seus erros e, quando assumem, fazem para propagarem suas humildades heroicas; escondem as sujeiras sob os tapetes nacionais até não caberem mais, e quando os dejetos aparecem, de forma sagaz e larápia, apontam os entulhos dizendo a todos: “de fato, estamos com problemas”. Este ato hipócrita é louvado e tomado por alguns como uma autocrítica, todavia, isto nem de longe se assemelha a uma autocrítica. Quando se possui o conhecimento de que há uma bomba prestes a estourar e não se toma nenhuma atitude para impedi-la, assumir posteriormente ao fato que havia uma bomba não é autocrítica, e sim obviedade. Autocrítica é ter a ousadia de revisar as mais profundas lacunas de nossas convicções e buscar as aporias que tornam o modus operandi de nossos grupos, partidos ou governos, falhos. Ousar sair da comodidade dogmática, ser capaz de assumir os erros e dizer que é preciso mudar. Mas como disse acima, não adianta apontar rachaduras na parede, ou goteiras no telhado, isto são apenas pequenos sintomas de um problema muito mais profundo.

Vejo estas resoluções partidárias, principalmente do PT. Eles não conseguem chegar ao cerne do erro, ficam tratando da dor e não procuram a causa. Não vão ao núcleo donde jorra o erro, sempre procuram um culpado anônimo ou até mesmo denominado para arremessar suas irresponsabilidades e imoralidades. A história mostra centenas de instituições e grupos que se renovaram e ressurgiram do lamaçal da história. Todos eles assumiram suas falhas, pediram escusas e mudaram suas práticas. O que o brasileiro e o fanático político demoram a entender é que: tudo que merece ser conservado no campo social são aquelas instituições, ideias e atos que provaram sua utilidade humana e sua perenidade ética, as demais precisam ser revistas, restauradas e, por vezes, abandonadas. E sejamos sinceros, há ideologias que deram muito errado, projetos que merecem o abandono, principalmente no Brasil e na Venezuela.

Veja, é bom afirmar, reformar não é revolucionar, reformar trata-se de reconstruir a casa sem precisar destruí-la. A revolução é como destruir a nossa própria casa e confiar a reconstrução a um grupo de açougueiros que se juram pedreiros. A sociedade não comporta a destruição para o ressurgimento, principalmente se os incumbidos da reconstrução não tiverem a mínima capacidade para tal empreitada. Todas as vezes que assim se agiu a sociedade deixou montes e mais montes de cadáveres espalhados pelos campos de guerra, com a incrível desculpa de serem estes corpos os firmamentos das utopias nunca acontecidas. O que se deve fazer é repor aquelas bases caras, aqueles pilares basais que mantém a sociedade em pé.

Mas, antes, é necessário assumir a culpa pelos erros que desgastaram estes pilares, é preciso assumir que temos problemas sérios em nossas bases. Todavia, isto parece impossível para alguns, é difícil para partidos e governos assumirem que seus planos deram errado. Aliás, que estão e são errados. Estes olham pelas janelas da história, veem todo o fracasso humano causado por sua ideologia e pensam: “bom, quem sabe agora dê certo”. Usam o país como um tubo de ensaio social, e ao ver seu país destruído, deduzem de maneira mirabolante que a culpa são de supostos conspiradores. Por conta de suas religiosidades políticas, suscitadas no meio militante, tornam-se cegos, porcos que ceiam com homens — no melhor estilo de Orwell. Acreditam que toda a destruição econômica nada mais foi do que uma expressão do neo-liberalismo; que 170, 5 bilhões no rombo dos cofres públicos foi um mero acaso do movimento de mercado, ou, quiçá, uma conspiração do empresariado (que possui lá sua verdade, né Lula?). Acreditam que todo o fracasso político se dá por uma conspiração constitucional golpista (ache o erro). Tudo sempre é culpa de terceiros, nunca, nunca mesmo, há erro em suas ideias. Seus partidos, pensam eles, são fontes inesgotáveis e virgens de igualitarismos e revoluções operárias. Sempre que falham, nunca se culpam, nunca assumem suas falhas, nem sequer cogitam que o erro podem estar em seus princípios.

Ou, no mais ousar de suas sinceridades, como diz Luciana Genro, “trata-se de um erro hermenêutico”: deturparam Marx. Sempre, sempre deturpam Marx, me dá a impressão que este escreveu os originais em algum hieróglifo egípcio ou, quem sabe, em um latim antigo e intraduzível.

Considero isto como sendo: a política dos mimados para uma criança mimada. Nunca foi ele o culpado de seus atos. Ele sobe na macieira sem a permissão de seus tutores e, ao cair, coloca a culpa na macieira ou na mãe que não cuidou dele adequadamente. Esta política brasileira é incapaz de fazer mea culpa, nada mais é do que a face do egoísmo e da falta de ética. Um homem que não consegue olhar na face de outro homem e pedir perdão ou assumir suas falhas não é digno de confiança; homens assim facilmente tornam-se semi-deuses políticos, consequentemente ditadores. Um governo que supostamente não erra, ou que assume o erro somente para vomitá-lo como humildade, se assemelha muito a URSS, que fazia suas autocríticas somente para condenar supostos traidores. Uma boa desculpa para manter o projeto totalitário a salvo. Aliás, a URSS foi um menino mimado que tinha enormes aparatos militares e uma ideologia que lhe dava suporte, nada muito diferente de muitos casos atuais. Tomemos cuidado.

Quando que o Brasil entenderá que não se trata somente de um partido político, se trata de capacidades políticas e de vieses ideológicos. Como podemos esperar um Brasil sem corrupção sendo que “não há corrupção”. Como não “havia crise” nas últimas eleições, se lembram? Como quando nos disseram “que as contas estavam sob-controle”, que não haviam “pedaladas”. Como restaurar uma casa que “não precisa de restauração”? Como curar “um doente saudável”?

O primeiro passo para mudar este aparato político pútrido é optar por uma política que vá além de suas paixões ideológicas. Que seja capaz de olhar para si e ver o erro a tempo de consertá-lo; um bom governo, antes de tudo, deve ter compromisso com a verdade e não com uma bandeira partidária.

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Sobre o Autor

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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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