A política brasileira: dos extremos à ética selecionada

Há coisas que não estão na estante da escolha política, e uma destas coisas é o totalitarismo. Não se deve brincar de ditador

Postado dia 27/04/2016 às 09:00 por Pedro Henrique

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Foto: Reprodução/Internet – Manifestação política: Discurso de Chaplin no filme “O grande Ditador”

Introdução:

A política brasileira tornou-se um verdadeiro reino animal. Desde a votação do impeachment na Câmara dos deputados, aquilo que já era claro, ou seja, o despreparo de nossos políticos, a nossa carência de políticos-intelectuais que conheçam dos assuntos que lhes tocam tornou-se autoevidente. Quando os extremismos saem de seu canto de isolamento para idiotas e tomam o palco central, expulsando os verdadeiros artistas em nome de políticas utópicas e discursos insanos, a política tende a se tornar um circo sangrento, onde idiotas e assassinos se revezam entre palhaçadas e fuzilamentos.

Existe algo ainda mais primário na política: para um pensador, aliás, para qualquer homem de bem, é necessário abandonar os extremos para que seu julgar e seu opinar não seja uma ação autodestrutiva. A história possui um papel singular para a política nestes casos: de nos alertar que certos caminhos já deram errado e se seguirmos nele novamente, novamente dará errado. A história recente da humanidade mostra que sempre que o homem descambou para os extremos da política, a política tornou-se meio de carnificina, miséria e toda sorte de banalidade. Isto é um dado primário que, em minha opinião, deveria ser ensinado em casa: caminhos iguais sempre levarão a fins iguais.

Não é à toa que Russell Kirk dedicou uma obra monumental para a Política da Prudência, justamente porque a política não é um tubo de ensaio social, não é um lugar de testar egos como vieses políticos. Kirk, que repudiava o socialismo e o liberalismo como vias políticas messiânicas, ficando com o conservadorismo que ele considerava a opção prudente, sempre fugiu das utopias que usavam de meios revolucionários e de ordenamentos sociais que usavam da coerção forçada para impor o moralismo.

Hoje o debate político se resume burramente em: esquerda x direita, como se o estudo milenar de política se resumisse apenas nesses polos extremos. Obviamente, há uma demarcação separatória entre o liberalismo de mercado, socialismo estatal e o conservadorismo, mas não se encerra nisso o debate, talvez foi com esta indignação que José Ortega Y Gasset afirmou: “Ser de esquerda, como ser de direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode eleger para ser um imbecil”[1].

Quer saber se vale a pena votar ou difundir as ideias de um político? Pois bem, primeiro pergunte seus princípios mais basais, aquilo que lhe é mais caro; somente após esta prévia investigação veja qual a sua inclinação ideológica. Antes do palpitar e discursar político existe uma base humana que define o caráter e o agir de um homem: a sua moral constitutiva e sua fundamentação intelectual. Nunca acredite num político que diz, entre choros e aclamações emotivas, se revoltar com a desigualdade econômica que causa fome entre as crianças das periferias, sendo que sua solução para o problema é o aborto destas mesmas crianças; da mesma forma, nunca acredite num político que se diz contrário ao aborto mas defende a tortura de um ser humano. A contradição é o primeiro sinal de erro. E os extremos estão lotados disso!

As incoerências:

Com esta introdução densa, e chata, confesso, estamos prontos para falar dos fenômenos que estão urgindo na superfície política brasileira atual. Se conseguiu transpor este pântano lodoso da minha introdução, parabéns, agora vamos aos fatos.

Toda esta introdução não foi por mero fetiche intelectual de um colunista que ama escrever, estes problemas que suscitei na introdução possuem um caráter determinante para a política de tolos que vivemos atualmente, esta mistura de ingredientes tais quais: incapacidade intelectual, extremismos e contradição, findará num bolo pútrido cheirando a fossa chamado: Ética selecionada.

Esta semana foi recheada de situações que mostram esta realidade, irei destacar algumas. Desde o advento do cuspe de Jean Wyllys e a saudação de Jair Bolsonaro ao Coronel Ustra, o Brasil parece ter sido posto num grande coliseu onde todos irão “morrer”, mas acreditam que a dignidade está em morrer por último.

A sensatez se exauriu. Não há mais nenhum diálogo num plano comum de debate cotidiano, as opiniões são fundadas em achismos, os discursos dignos de Pinochet e Stalin; neste banho de vergonha, tentamos inflar os pulmões da democracia, ou aquilo que achamos ser democracia. Não muito mais tarde, numa discussão, José de Abreu, conhecido gladiador/ator do governo petista, cuspiu no rosto de uma mulher e de um homem, ao passo que este casal o insultava com adjetivos difamatórios, a mesma infantilidade, aliás, usada pelo ator — escutamos estupefatos, é verdade, o silêncio das feministas neste caso; não muito depois a revista Veja lançou uma matéria com a esposa de Michel Temer, chamando-a de “bela, recatada e do lar”. Pronto, foi o suficiente para que, do ralo político mais próximo saísse uma feminista balbuciando palavrões e gritos de ordem contra o “empoderamento” do arquétipo ideal de mulher; e, para findar esta semana triste para o Brasil, a esposa do ministro de turismo (Milena Silva) do governo Dilma, o petista Alessandro Teixeira, postou nas redes sociais fotos muito mais que íntimas, ela usou cenários políticos do Brasil, e até a faixa presidencial para tapar suas genitálias, o que causou revolta de alguns grupos, aclamação masculina positiva à beleza da mulher e o silêncio ensurdecedor, e recorrente em alguns casos, das feministas.

A ética selecionada:

Toda esta decorrência mostrou-nos o ponto chave de minha tese central  neste texto, o brasileiro possui uma ética selecionada. A “ética selecionada” é um movimento imoral onde usamos de dois pesos e duas medidas para julgar os princípios que seguiremos. Tudo gira em torno da coerência discursal, e veja, todos nós passamos por momentos de incoerências, muitas vezes passamos por reformulação de conceitos e por transposições de preconceitos, onde a incoerência nos impulsiona para uma coerência de conhecimento posterior. Sendo assim, nossa vida anda por degraus onde um degrau é a coerência e o outro é a incoerência, todavia, o sensato é que sempre se busque que o último degrau alcançado seja o da coerência. O degrau da incoerência é o da impulsão enquanto o da coerência é o da estadia. Quanto mais tempo permanecerdes na coerência, mais robusta são suas ideias e ideais. Mas, na política atual, a incoerência e a ilogicidade discursal são aceitas na mais pura e calma, como se fossem verdades mais límpidas e degustáveis possíveis. São acatadas como métodos acadêmicos e chavões populares, o relativismo como verdade “irrelativisável”.

Por exemplo, torna-se lógico para alguns grupos que se defenda um governo militar e seus algozes, ao passo que também se torna lógico para outros grupos que se defenda ditaduras de esquerda, enquanto ambos juram estar defendendo a democracia. Se revoltam contra o discurso do Bolsonaro aclamando um torturador, mas vestem-se de Che Guevara, outro torturador e genocida; revoltam-se contra Jean Willys, pois este aclama Cuba, uma ditadura, mas clamam por uma outra ditadura, a militar. A incoerência no discurso parece lhes passar sem que percebam, mas minha tese não vai neste rumo, para mim, eles percebem sim suas incoerências, mas selecionam aquelas incoerências que robustece a sua ética ideológica, aquela que está nas cartilhas partidárias ou nos mantras de certos gurus. Sabem que, no fim, estão a defender os mesmos males morais que os seus opositores, mas este mal, quando ao seu lado, torna-se um mal necessário, quando ao lado da oposição, trata-se de mau caratismo.

Outros exemplos podem ser citados: A mulher de Temer foi chamada de “bela, recatada e do lar”, as feministas tiveram seus ataques histéricos e tolos. Xingando-a e difamando-a. A mulher do ministro do turismo postou fotos quase nua com a faixa presidencial, possui vídeo em sites pornôs masculinos, e adivinha, as feministas se revoltaram também? Não. O silêncio paira sobre a seleção da moral que convém ao feminismo. O que me leva perguntar a vocês: a revolta era contra a mulher de Temer ou seria contra o opositor do governo, o Vice-presidente Temer? Será que o silêncio perante o caso da mulher do ministro de Dilma é por esquecimento banal, ou por que se trata da mulher do ministro do governo Dilma? A luta do feminismo no Brasil é pela mulher ou pelo governo? Se questionem.

Esta seleção de revoltas e de aclamações, esta incoerência de discurso, esta falta de pudor para defender extremos genocidas, são coisas assustadoras, não vejo tanta atenção sendo dada a estes casos, porém, eu acredito piamente que este é o início de um totalitarismo, não por vias institucionais, mas por via popular, “o fato é que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias”[2], antes assistíamos levantes de tiranos por meios de ajudas partidárias e instituições consolidadas, hoje vemos o totalitarismo em cada comentário político no Facebook, em cada ignorância vomitada como verdade.

O que outrora era considerado como ponto final de um discurso ilógico, isto é, a mentira, a incoerência, aclamações às ditaduras, tornou-se apenas mais uma jujuba no bolo que acima citei. É doloroso para um filósofo, que tanto preza pela liberdade, assistir tantas pessoas livres pedindo para serem enjauladas em governos tiranos. Creio piamente que o Brasil deve passar por um longo reconstruir intelectual, este populismo marxista mostra a cada dia findar num totalitarismo, seja político e/ou intelectual, mostra que é impossível dialogar com jovens que são ensinados a defender um ponto de vista custe o que custar, mesmo que custe vidas. Ao mesmo tempo que se levanta uma direita crente que uma ditadura militar é um regime justo e bom.

Entendam, a primária característica do tirano é: ele não se pauta numa ética humana, ele cria a sua ética baseada naquilo que ele pensa ser o homem. O primeiro passo de um tirano é escolher sua moral, aceitar a contradição como verdade e usar dos extremos como messianismo. Quando surge um homem que defende a tese de um sistema político puro e sem aporias, corra, ali jaz um ditador.

Conclusão:

Para finalizar este longo artigo, há de se afirmar sem ressalvas uma verdade que parece fugir à consciência política moderna no Brasil: há coisas que não estão na estante da escolha política, e uma destas coisas é o totalitarismo, não se deve brincar de ditador, não se deve imputar ao demais as suas insanidades e nem as suas éticas baseadas em seu humor matinal. Não pensem que ser tolos é um adjetivo honroso, não pensem que a política é um brinquedo para dementes, não é. Não defendam o indefensável, não construam castelos em bases ilógicas, não selecionem seus princípios baseados em seus desejos insanos e por fim, não busquem nos extremos pautar suas esperanças, se há algo que os túmulos do século XX nos gritam é: “Os extremos matam”.

 

Referência:

[1] GASSET, José Ortega Y. A rebelião das massas, 5ª Edição, Vide Editorial: Campinas SP, 2016, p. 61

[2] Ibidem, p. 62

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Sobre o Autor

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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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