Plataformas de Streaming: o canto do cisne do Cinema

Amazon e Netflix travam atualmente uma batalha pelo estabelecimento de uma nova hegemonia: o triunfo do Video On Demand

Postado dia 01/02/2016 às 01:46 por Peterson Queiroz

TV channel zapping

Seria bom pensar que os recursos aplicados pela Netflix para ampliar seu modelo de negócio e estabelecer-se como uma nova plataforma/janela de distribuição, que assim vêm injetando um novo gás na produção audiovisual do mundo todo (vide os fenômenos de “House of Cards” de Kevin Spacey e “Narcos”, com indicação de Wagner Moura ao Globo de Ouro), são um alento frente à hegemonia dos grandes estúdios e da dinâmica canhestra de se gastar praticamente a metade do orçamento de um filme num pacote de distribuição/exibição/divulgação para se alcançar números que, além de anabolizados e/ou distorcidos, estão tão longe de atestar uma real qualidade de filmes quanto de refletirem o sucesso de um modelo econômico do mercado audiovisual prestes a tornar-se obsoleto. E, no entanto, por que não é?

Amazon e Netflix travam atualmente uma batalha pelo estabelecimento de uma nova hegemonia: o triunfo do Video On Demand, assumirmos em definitivo a completa derrota, com o fechamento de salas e a perda do lugar sagrado onde o filme todo é concebido para estar e ser apreciado com a máxima qualidade de som e imagem – além de, mais do que esta mera questão técnica, jogarmos a toalha também em relação à perda da magia de se sair de dentro de casa, este casulo cibernético cada vez mais individualista e emocionalmente anestesiado, para ganhar as ruas em busca de uma experiência extraordinária, em comunhão com cúmplices ainda assim também anônimos, mas de carne e osso, com seus perfumes e conversas deliciosamente capturadas pela vizinhança das confortáveis poltronas enquanto a luz sagrada invade as consciências, nos conduzindo a outra realidade e nos colocando diante de novos questionamentos e sensações, construindo afetos e imprimindo no tempo, para sempre, a gênese de um êxtase único, exclusivíssimo e particular. Digo isso pelo meu apreço quase que religioso ao ato de ir ao cinema. Sou uma pessoa que vai ao cinema com quem vai à missa. Como quem pretende ser arrebatado tal e qual (creio que a maioria das pessoas que vão ao cinema tenha um senso parecido com o meu). No entanto eu não duvido de que este novo modelo acabará triunfando mesmo. Gosto de ver a Amazon com certo respeito pelas pessoas, sejam realizadores ou cinéfilos, que entendem a importância da sala de cinema. Mas, quando isto interferir em sua margem de lucro, terão o mesmo pensamento? A Netflix é mais fria, menos apegada, sutilmente coloca na pauta jornalística termos como: “o importante é a obra ser vista pelo maior número possível de pessoas…” Porque mercado é assim mesmo: quanto mais, melhor. Não há preocupação com afetos, apenas com números.

Assim sendo, não sei se podemos efetivamente comemorar. Minha irmã disponibilizou a assinatura dela para mim e claro que tenho acompanhado com deleite e muito conforto “Jessica Jones”, “Making a Murderer”, o spin of do fenômeno de Mr. Walter White e Jesse Pinkman “Better Call Saul” (por sinal quase tão bom quanto seu original, agora abordando o advogado mais picareta já filmado como um personagem de grande carga emocional e com curvatura dramática tão intensa quanto a do próprio personagem do recém-indicado ao Oscar Bryan Cranston). Poder ver tudo isso, além de filmaços, na hora em que eu quiser é fantástico, mas apenas com relação ao fato de que as TVs à cabo é que deverão dançar, com sua rigidez de programação, péssimo atendimento e elevados custos operacionais. De modo que acho um troço bastante inteligente e inovador. Mas mesmo assim me sinto mal. Porque estamos contaminados pela ambiência mercantilista e, como empresas de escala global que são, elas não terão, tanto Netflix quanto Amazon, o devido cuidado com a natureza da paixão que as pessoas têm pelo aspecto espetacular de se ver um filme, ou qualquer outro formato em que se possa acompanhar uma boa história, numa sala de cinema. Por outro lado, fizemos muito por perder este espaço. Como? Os grandes estúdios, igualmente contaminados pela lógica de mercado, dos números, dos recordes de bilheteria, dos fenômenos midiáticos e de marketing, anabolizaram tanto o sistema de distribuição e exibição de seus produtos (porque hoje são muito mais meros produtos comerciais do que efetivas obras de arte) que hoje começam a colher os frutos podres da corrupção de um valor tão caro às pessoas que deveriam servir: não se comercializa paixões, nunca dá certo monetizar afetos. E tome salas, mesmo as multiplex (antes tidas como o suprassumo da experiência de ir ao cinema) acumulando prejuízos singulares até mesmo com blockbusters, além de restrições cada vez maiores ao devido espaço que deveriam abrir para a produção autoral e aos chamados filmes de arte (principalmente os nacionais, mas mesmo os de fora do país agora). De modo que não é mesmo exagero falarmos em um trinfo da boçalidade e da prostituição de nossos afetos mais românticos. Senão, como explicar o absurdo da nova jogada de algumas empresas religiosas agora ao investirem pesado na produção audiovisual até termos vivido para presenciar o primeiro filme, “Os Dez Mandamentos”, assumidamente manipulado em termos de bilheteria por meio da maciça compra antecipada de ingressos, com salas vazias, numa tradução triste e obscena de tudo que tantos cineastas e produtores como eu vêm falando ao longo de anos e anos sobre o eterno descalabro que é a produção de Cinema no Brasil?

Pois podem apostar que também este filão vai ser absorvido em breve pelas empresas de VOD. De modo que ficamos meio que sem saber se isso é bom ou ruim, mas meu palpite, infelizmente, longe de catastrofismos irresponsáveis e de assumir perspectivas meramente especulativas, é o de que o triunfo da boçalidade seguirá adiante. Pouco importa onde os filmes são exibidos? Será mantida a atual liberdade artística garantida pela novidade e pela segurança da internet com exibição doméstica de conteúdos? A TVs reagirão como? Os grandes estúdios entrarão nesta briga? E os produtores independentes, começarão também a aderir ao “salve-se quem puder” e, assim, vão também sucumbir? Tudo é muito obscuro. E nada será decidido com base no que é melhor para os apreciadores de Cinema e de boas histórias contadas com sons e imagens encantadoras, agora recém-convertidos em meros consumidores, num mercado que apenas se sofistica em seu cinismo para justificar perante o publico a sua única preocupação: a maior margem de lucro possível.

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Sobre o Autor

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Peterson Queiroz

Peterson Queiroz é cineasta, ator e dramaturgo. Estudante de filososia e amante de literatura beat.

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