Plana ou redonda?

Postado dia 02/02/2017 às 08:00 por Heródoto Barbeiro

 

 

plana

Foto: Reprodução

O agricultor José talvez nunca tivesse deixado a sua aldeia. A maior distância percorrida em sua juventude era a estrada que liga o povoado de Pocariça a sede de Leiria, em Portugal. Sua mobilidade equivalia à mesma de seus ancestrais da Idade Média, quando a península foi invadida pelos mouros provenientes do norte da África e, por causas não registradas, ganhou uma pele escura, não muito comum por lá.

Seu mundo, em pleno século 19, se resumia às plantações de oliveira e videira e uma ou outra cultura de subsistência, e nem pensar em conhecer outras terras ou mesmo atravessar o mar oceano. José ganhou o sobrenome dos que se dedicavam à sangria e à extração de dentes e verrugas – ou seja, Barbeiro.

Movimento mais agudo, em Portugal era associado à insegurança de nobres que disputavam as quintas, ou as perseguições políticas e religiosas que as dinastias lusas incitaram ao longo dos séculos. Por essas e outras andanças, o agricultor adotou mais um nome, Souza, de origem cristão novo. O mundo se resumia em pouca informação, nenhuma leitura, desconhecimento do que se passava nos continentes, e trabalhar de sol a sol, como um escravo, para garantir o que comer à noite, quando se recolhia em uma modesta construção.

As potências industriais e bélicas se preparavam para disputar os mercados produtores de matérias-primas baratas, ou sem valor agregado como se diz hoje, e exportar os manufaturados com valor. Investiam os capitais públicos e estatais na produção, no comércio e no domínio de rotas marítimas com acesso às matérias-primas estratégicas, como o petróleo, cobre, salitre e outras.

O século 19 foi o período do auge do imperialismo industrial. As economias centrais, Europa, depois Estados Unidos e Japão, impuseram uma divisão mundial de trabalho que remunerava os acionistas da City, de Wall Street e outras bolsas emergentes do novo capitalismo. Os alvos principais localizavam-se no Oriente Médio petrolífero, partes do continente africano de matérias primas estratégicas, a Ásia superpovoada (e, portanto, um mercado altamente lucrativo para os manufaturados). Enquanto uma parte da humanidade se espraiava pelos continentes, a bordo de navios e trens a vapor, a outra circulava em volta da pequena aldeia, onde tinha nascido.

O imperialismo, as guerras, as alianças, as armas de destruição em massa, como a metralhadora, as bombas e o gás de mostarda não foram capazes de sustentar uma paz armada. O adágio chauvinista se espraiava: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra.” O resultado foi uma passagem catastrófica do século 19 para o 20. Mortes, destruição, fome, desesperança e o anseio de se procurar um outro lugar para viver.

O Brasil era um deles. Estava fora da rota do choque imperialista, vivia da monocultura do café, tinha muita terra devoluta e uma oligarquia que dominava o campo. Uma força gravitacional para quem não tinha o que comer.

Tudo isso fez com que homens e mulheres que não sabiam se o mundo era redondo ou plano, como na Idade Média, buscassem uma saída pelo mar. José veio para o Brasil, seu irmão foi para Macau, na costa da China. As correntes imigratórias se formaram na Europa em busca do alívio para seus sofrimentos. Da Espanha emigrou Pedro Garcia. Da Itália, especialmente do Vêneto, saíram as famílias de Amábile Valvassori e Angélica Cassonatti.

Deixaram o mundo medieval, pré-capitalista e miserável para se aventurar em outras terras e constituíram minha família.

#:
Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro, escritor e jornalista, âncora do Jornal da Record News e editor do Blog do Barbeiro. Foi âncora do Roda Viva da TV Cultura e do Jornal da CBN. Tem livros nas áreas de jornalismo, história, mundo corporativo e budismo.

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter