Passado, memórias e retratos

As lembranças nos roubam ao presente, as memórias abrem janelas na alma, trazem de volta as surpresas de outrora e, novamente, ficamos à mercê do encanto da viagem

Postado dia 23/12/2015 às 00:02 por Leila Cabral

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Por que temos o hábito de anular passados? Porque, muitas vezes, eles revelam nossos medos e fantasmas. Esse é o tipo de comportamento que sempre se repete, segundo o escritor moçambicano, Mia Couto, principalmente quando se trata de passado recente.

Quando “nos percebemos”, descobrimos que somos o que fomos e isso incomoda muito, devido à carga do passado. Assim, as lembranças nos roubam ao presente, as memórias abrem janelas na alma, trazem de volta as surpresas de outrora e, novamente, ficamos à mercê do encanto da viagem; divagamos, colhemos momentos, uns agradáveis, outros não, e terminamos por estagiar em paragens extremamente vivas, das quais temos a impressão de nunca ter saído.

fotoleila2Muita razão tem o poeta Nuno Camarneiro, ao afirmar que há lugares feitos para doer, para que o mal tenha chão, morada e um código postal, ou até mesmo, ruas onde não dormimos, ruínas que foram casa, paredes que já não são…

Há pessoas que dizem que quem vive de passado é museu… Mas, se até as fotos são passado. Que dizer desta, por exemplo?

Ela reaquece um tempo longínquo (1917) e reabre a história desse momento, mostrando o curioso papel da civilização. Embora não tenhamos vivido ali, a nostalgia assola o nosso imaginário. Daí que, o prazer provocado por tais sensações, não depende diretamente delas, mas deve-se ao fato que, pertencendo simultaneamente ao presente e ao passado, provocam uma momentânea libertação do tempo e da contingência pela projeção do sujeito que as experimenta num plano intemporal, localizado fora do espaço limitado.

São dois passados, dois mundos que pareciam modernos ao tempo e que, hoje, são cinzas; contudo, auxiliam-nos a compor nossa história!

fotoleila1É como a destruição do patrimônio de uma cidade, fato tão relevante nos dias atuais.  É sono sem volta: a cidade perde-se, perde o povo, perde-se a história. Estão a esquecer-se de que uma cidade não é apenas um lugar, mas a moldura de uma vida à procura do retrato. Não bastam as ruas, as praças ou as casas para que ela exista, nela se revive um tempo, um lugar, onde se escuta a fala de nossos antepassados. Expressamos a língua da memória, da emoção chamada infância, saudade.

Uma cidade não tem idades, sua história é o patrimônio. Por isso, não pode deixar-se morrer. Mesmo as histórias inventadas por seu povo contêm sua lucidez. Não fossem as fotografias, como conheceríamos os lugares de antes?

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Sobre o Autor

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Leila Cabral

Especialista em língua portuguesa, é também doutora em literatura e história pela Universidade de SP.

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