Páscoa, a celebração da vida

Um homem que volta dos mortos. Coelhos que se reproduzem às pencas. Chocolates. Tudo nessa festa tem uma motivação: celebrar a vida, exatamente como fazemos há 5 mil anos

Postado dia 14/04/2017 às 12:49 por Tiago Cordeiro

páscoa

Foto: Reprodução

Pode ter sido por conveniência ou por respeito às outras culturas – provavelmente foi por conveniência mesmo. Mas os primeiros líderes do cristianismo sempre respeitaram as datas mais importantes do calendário da Antiguidade. Elas são basicamente sempre as mesmas: podemos mudar os nomes, os pretextos, mas, desde que fundamos a civilização, e talvez até antes, nós damos uma atenção toda especial às mudanças no ciclo da natureza. O começo da primavera é importantíssimo: marca o recomeço da vida. O início do inverno também: marca tempos duros que estão para começar.

Os cristãos sabiam disso. Dataram o nascimento de Jesus para o começo do inverno no Hemisfério Norte (não vamos nos iludir, quase tudo o que de mais importante que acontece para a humanidade está acima da linha do Equador, e não abaixo). E celebram a Páscoa no primeiro domingo depois da primeira lua cheia após o começo da primavera. Essa escolha complicada, aliás, faz com que a Páscoa possa cair em algum dia entre 22 de março e 25 de abril. Muda, com isso, o carnaval, uma festa tão mais importante para tanta gente.

Não é por acaso. Trocamos os nomes, abandonamos os muitos deuses e assumimos a crença em um só (ainda que complexo e multifacetado), mas preservamos a ligação íntima com nosso planeta, suas voltas em torno do sol e as consequências de cada momento do ano para nossas vidas. Pensando assim, fica mais fácilentender porque nem a Páscoa nem o Natal fazem a menor referência a possíveis datas em que Jesus teria de fato nascido ou morrido.

Por isso não me parece nenhum absurdo juntar a ressurreição de Cristo com os ovos de chocolate e as homenagens a coelhos, animais que se reproduzem com tamanha facilidade. No fundo, mesmo quem não professa o cristianismo nem dá a mínima para os coelhinhos no resto do ano, estamos todos falando uma mesma língua, muito mais íntima. Estamos louvando a fertilidade, a força que faz uma semente virar uma árvore com dezenas de metros de altura. A energia impressionante que mantém a Terra viva, nossa espécie em pé e milhões de animais e plantas em crescimento. O sabor doce de uma fruta, o cacau, que surgiu entre os maias – que, aliás, a preparavam como um caldo extremamente apimentado.

A vida, sozinha, parece mesmo um milagre – se fosse mais comum, já a teríamos encontrado facilmente em outros planetas. Ela deve existir fora da Terra, mas parece ser frágil o suficiente para a valorizarmos e lembrarmos que ela pode seperder com facilidade. Diante disso, lembrar que, na crença cristã, o filho de Deus voltou a respirar no terceiro dia é apenas coerente.

Feliz Páscoa!

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