Pai, esse perdido

No começo, a experiência de ter um filho é assustadora. Depois, é transformadora. Faz reviver a própria infância e muda a sua relação com seus próprios pais

Postado dia 12/08/2016 às 08:00 por Tiago Cordeiro

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A Nina Morena vem me ensinando a ser pai há um ano e meio. Quer dizer: há um ano. É que a baixinha tem um ano e meio, mas nos primeiros seis meses eu simplesmente zanzei pela casa, desesperado. Eu não podia ajudar a alimentar a criança. Não adiantava acordar nas longas madrugadas para ajudar a mãe, a Joyce, porque só a amamentação acalmava a bebê. Não sabia o significado dos choros sem fim. Tinha medo de pegar no colo – ela era tão pequena, tão frágil. Dar banho, nem em sonho. Levar no carro, só com apoio da mãe e da avó da bebê, a dona Eunice. Eu, que sempre gostei de me movimentar pela casa, fazendo coisas ou inventando coisas para fazer, me senti um grande inútil. Enquanto isso, a mãe da Nina se arrastava com suas olheiras gigantes e lutava para dar conta de sustentar um ser humano de 4 quilos para mais, sempre mais.

O pessoal do Sociedade Pública me pediu uma análise do papel do pai. Comecei logo de cara falando da minha experiência porque é basicamente tudo o que eu tenho. Minha família da Suzano, que me adotou como filho depois que eu casei com a Joyce, não tem muitas crianças novas. Minha família de Curitiba, onde vivem meu pai e meus tios, é cheia de pimpolhos. Mas eu visito a cidade uma vez por ano, não tive convívio a não ser brincar um pouco durante as festas. Eu não fazia a menor ideia sobre o que era ser pai.

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Foto: Começo de uma família com Tiago, Nina e Joyce

Lembro que os pais da minha geração (estou beirando os 40 anos) não eram muito ativos em casa. Não faziam papinha, não davam banho. Estavam sempre ocupados durante a semana, correndo muito. Meu pai passava semanas inteiras viajando a trabalho. Foi só na medida em que eu cresci que ele começou a interagir conosco com mais, digamos, naturalidade. Saíamos juntos para jogar bola, eu o acompanhava em uma ou outra viagem – que orgulho de ver meu pai em ação! Agora, na idade adulta, meu pai é meu parceiro, meu amigo. Aliás, um feliz Dia dos Pais, seu Altevir! E um feliz Dia dos Pais, seu Clóvis, meu sogro, pai por adoção e paixão.

Mas, enquanto eu e meus três irmãos éramos menores, minha mãe é que gerenciava toda a nossa rotina, de lavar as roupas a cozinhar seu bife com arroz, feijão e batata frita. E olha que ela trabalhava, muito!

Entre os meus amigos, muitos deles pais frescos, vejo o quanto os tempos mudaram: todo mundo quer participar de tudo, desde o começo. Lava, passa, cozinha, fica em casa sozinho com o bebê. Os mais velhos olham e acham bonito, como se fosse algum grande mérito nosso. As esposas, coerentes com a nossa geração, olham todas sempre com aquela cara de “não tá fazendo mais do que a obrigação!”

Elas têm razão. Ser pai, do meu ponto de vista, não é mais tão diferente de ser mãe. Os papeis antigos se complementam, se misturam. A Joyce adora cozinhar pratos especiais para a Nina, mas quem se preocupa em sempre ter uma papinha a postos, todos os dias, no mesmo horário, sou eu. Eu dou frutas. A Joyce dá chocolate – e o que seria da vida sem frutas E chocolate? Eu lembro de escovar os dentes da Nina. A Joyce ensina a bebê a escovar sozinha.

Hoje eu não saio de casa sem o meu chaveirinho. A bebê vai comigo até ao mecânico. É uma companhia deliciosa. Eu caminho com ela para dormir, tanto que a bichinha agora imita todos os meus trejeitos com as bonecas dela. Gosto, muito, muito mesmo, de ser mãe-pai. Gosto da parceria com a Joyce, a pai-mãe. Sou feliz como nunca – sabendo que a bebê muda toda semana e que fases muito diferentes virão. Com algumas eu vou conseguir lidar melhor. Com outras… Não gosto nem de pensar em quem vai ser o primeiro namorado da minha filha.

Agora, de uma coisa eu não tenho dúvida: para qualquer geração, ser pai é fascinante e transformador. Muda nossa vida inteira, nos faz reviver nossa própria infância e repensar toda a nossa história com os nossos pais. É uma bênção tão grande que eu não vejo a hora de ter um segundo filho!

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Sobre o Autor

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Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

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